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A sucessão na direita e o tanque digital: mais sujeira que roupa  -  por: Alexandre Lyra*

A renovação da direita no mundo, e também no Brasil, vem pelo aprofundamento do atraso, sua proposta é, com variações, voltar no tempo para buscar uma pureza liberal

Por Alexandre Lyra • Política

06/07/2026 às 14:04

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Imagem Acomodar interesses e pretensões geralmente é complicado

Acomodar interesses e pretensões geralmente é complicado ‧ Foto: Divulgação

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Enquanto os jogadores trocam passes nos gramados canadenses, mexicanos e estadunidenses Michelle Bolsonaro aproveitou o momento para soltar rojão, digo, um vídeo na internet para falar do tratamento ruim que os enteados, particularmente de Flávio, dispensavam a ela. Ela usou as palavras ‘desrespeitou, maltratou e humilhou’ para descrever o modo como ele a destratou, em decorrência de sua interferência a favor de uma candidatura diferente da que tinha sido articulada por ele e junto ao partido (PL) no Ceará. Como são de grupos conservadores, fisiologistas e patrimonialistas tradicionais, se esperava que em breve tudo fosse apaziguado com desculpas de lado a lado, tendo em vista a causa maior: as eleições que se aproximam. Michelle, entretanto, optou por bater na mesa e sair da presidência do grupo constituído para aglutinar as mulheres conservadoras, o PL mulher, e depois ainda elogiou a implantação de um programa de Lula para os surdos (https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/04/apos-elogiar-programa-de-lula-e-ser-alvo-na-direita-michelle-bolsonaro-diz-que-pauta-de-surdos-esta-acima-de-ideologia.ghtml).

A renovação da direita no mundo, e também no Brasil, vem pelo aprofundamento do atraso, sua proposta é, com variações, voltar no tempo para buscar uma pureza liberal, monárquica, ou a junção de ambas, temperada por uma concepção de poder fundamentalista para a sociedade. É uma espécie de neodespotismo distorcido que viria para restaurar e legitimar os privilégios de alguns, mantendo o resto da sociedade imerso no caos de uma liberdade ampla de ação para o grande capital predatório e grupos criminosos. No Brasil, a porção monárquica desse Frankenstein social é proeminente, uma vez que o fenômeno eleitoral Jair Bolsonaro, a liderança que aglutinou todas vertentes direitistas, tomado pela empáfia dos egos inflados, entendeu que só sua linhagem poderia dar sequência à sua liderança. Em outras palavras: tudo não passa de um projeto familiar, no qual nem a esposa entra, por não ter o sangue e ... ser mulher.

As cartas estão sendo jogadas. Nessas festas juninas, Flávio ainda não se recuperou direito do chamuscado grave resultado do pulo mal executado sobre a fogueira do filme do cavalo azarão e agora tem de lidar com mais um sobressalto em sua relação mal resolvida com a madrasta. É impressionante a simplicidade da engenharia política desenvolvida pelos neoconservadores para convencer as mulheres em votar numa direita de prática misógina, mas o vídeo de Michelle tem abalado essas estruturas. Para além da disputa entre os dois, porém, esse é mais um episódio da novela paraguaia da sucessão de Bolsonaro. Sucessões sempre são delicadas em qualquer esfera social, principalmente na esfera política. 

Acomodar interesses e pretensões geralmente é complicado, mas a força, consistência e aceitação ampla de um projeto são os elementos que podem garantir a sobrevivência da concepção, e sua eventual execução, a disputas internas. Empresas, universos específicos e menores, seguem firmes quando o conceito inicial é renovado e aperfeiçoado por grupos comprometidos com ele, independente do grupo alçado ao comando do navio. Equacionar os interesses na política é mais complexo, e mesmo vertentes onde o diálogo é valor maior, têm dificuldade de emplacar um processo sucessório exitoso.

O caso do projeto petista é outro exemplo. Encontrado o líder carismático, Lula, o ótimo político se revelou também bom gestor, e agora, após três mandatos, a transição, que pôde ser adiada pela emergência do combate ao neofascismo (forçando a mobilização de vertentes democráticas em torno do candidato mais forte), é impositiva em virtude de sua idade. Nesse momento, se revela a extrema dificuldade do PT em chegar a um novo nome, que precisa ser trabalhado com tempo. Há indicações de que Lula, naturalmente importante na decisão do sucessor, sofre de um problema comum das lideranças consolidadas (que também atinge, de forma diferente, Bolsonaro), que mina suas escolhas: o paradoxo da mesquinharia. Buscam evitar um nome que possa vir a superar seu legado no futuro.

É certo que não é fácil achar um nome, é preciso conciliar qualidades diversas em torno da principal, o carisma. No caso do PT, os melhores candidatos que apareceram até agora (Ciro e Dino) eram/são de fora do partido, algo que seus dirigentes tem dificuldade em aceitar, de modo que foram excluídos do páreo. Só esses reuniam todos requisitos necessários e alcançaram projeção nacional, mas mesmo assim, o primeiro passou por mais de uma tentativa de conciliação, que nunca chegou a bom termo, e o segundo foi recentemente esterilizado no STF. Além de não ser do partido, também tinham potencial para construir um legado maior que o do atual presidente, a pá de cal final. Com a dificuldade de somar, o partido da estrela vermelha vai arriscando a continuidade de seu projeto adiando essa escolha fulcral enquanto pode, tentando emplacar sem muito êxito pessoas de menor brilho político (Haddad e Dilma).

Do outro lado da rua, rusgas e desavenças de todo tamanho já foram abertas apenas com a ameaça de correligionários de Bolsonaro se colocarem à disposição para sua sucessão. Bastou o primeiro se apresentar (o governador carioca bem avaliado de São Paulo), que se verificou a repulsa do clã, seguida da reação agressiva de todo séquito eletrônico. Não adianta jurar nem provar lealdade, isso não é suficiente. O projeto ficou reduzido explicitamente ao universo familiar, mostrando o tamanho da visão dos Bolsonaro, enfraquecendo sobremaneira o conceito. Sua estirpe própria tem histórico, e só cabe a um dos seus, filhos homens, legar. São muito representativos do Rio de Janeiro, de onde vêm, Estado tomado por tráfico e milícias e exemplar das qualidades da maioria de seus valorosos políticos: os quatro últimos governadores foram presos e quase todo dia a polícia faz operações policiais contra algum deles.

A mais recente vítima da exclusividade familiar foi Nikolas Ferreira, que cometeu o desatino de começar a se projetar para além de seu Estado, que tem outra vítima da carnificina familiar, o ex-governador Zema, o liberal que não conseguiu controlar as contas de seu governo. Na direita, os nomes abundam por causa da onda neofascista geral, mas todos não resistem ao crivo monárquico, como Ronaldo Caiado, conservador raiz, coerente defensor do agronegócio. Michelle acena trilhar caminho próprio pelo bosque cheio de espinhos, ela acha que pode lidar com o lobo mal. Para os Bolsonaro, ela conjuga um verbo floral: é muita petulância. Os Bolsonaro tendem a se isolar em sua agressividade (que gera condenações) e fundamentalismo, mas será que Michelle vai desabrochar?

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

 

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