29/06/2026 às 19:07
Copa do Mundo 2026 ‧ Foto: Divulgação
Nossos avós já jogavam em bingos, que eram eventos socializantes, motivo de encontros e conversas com amigos. Jogos de azar são muito antigos e atendem a anseios ancestrais de riqueza fácil, mas existem tipos diferentes, dos menos ofensivos, de premiações simbólicas (como muitas vezes acontece nos bingos) aos mais agressivos, em que os prêmios envolvidos alcançam 6 ou 7 dígitos e as apostas aumentam expressivamente. A última fronteira da internet se abriu com as bets, os jogos de aposta virtuais, que se multiplicaram feito gremlins molhados, se transformando no terror dos apostadores incautos. As transmissões do campeonato mundial de futebol que ora se desenrola escancarou essa modalidade de jogo de azar sedutor que derruba milhares com falsas promessas de ganhos espetaculosos, através da compulsão que segue a primeira aposta, gerando necessariamente perda financeira.
É curioso as pessoas não se deterem na expressão e seu conceito. O jogo é de azar quando depende da sorte para determinação do ganhador. Para um ganhar é preciso que centenas, milhares, percam. O vitorioso é insignificante matemática e estatisticamente, enquanto a massa dos perdedores são a essência da ‘brincadeira’ de mal gosto, de onde vem todo lucro da banca. A chance de ganhar varia com o número de jogadores, os volumes das apostas, a quantidade de prêmios, mas sempre são muito baixas, frequentemente parecidas com a chance de alguém ser atingido por um raio estando na copa de sua casa.
Quem ganha dinheiro com jogo de azar ou apostas é a banca, a empresa, portanto, a única forma de ganhar dinheiro com esse tipo de jogo é abrindo uma casa de apostas, impondo a perda a vários ingênuos esperançosos, e a desgraça aos imprudentes que terminam prostrados por causa do jogo. Esses jogos são feitos para perder dinheiro, mas muitos não enxergam esse aspecto básico por duas razões: ou por se iludir (como fazem com tantas outras coisas) ou por ficaram dependentes do jogo.
A questão é que existem algumas mercadorias especiais, devido a alguma característica, as quais podemos entrar no mérito de sua utilidade, o fim último da produção das mercadorias. A maioria das mercadorias atendem a funções específicas sem maiores consequências, como uma fruta, que serve à nutrição humana, ou uma cadeira, que possibilita melhor conforto para execução de diversas tarefas, seja almoçar, assistir aulas ou filme no cinema, mas o consumo de algumas pode gerar vício, que quebra o pilar fundamental da decisão da compra: a capacidade de discernimento.
Quando algo gera vício, seu consumo se torna disfuncional pelo descontrole. Historicamente as sociedades já responderam a esse problema nos casos clássicos dos cigarros e das bebidas, ainda que tenham demorado muito para isso, justamente em virtude da pressão dos produtores dessas mercadorias, sempre recorrendo ao argumento da liberdade de escolha, que, como vimos, é derrubado pelos mecanismos de dependência ocasionados. A solução encontrada geralmente não é a proibição, que não resolve o problema porque as pessoas acabam encontrando formas alternativas de conseguir a mercadoria por meio de produtores ilegais que estão dispostos a enfrentar o risco da proibição por lucros maiores, mas a produção com restrições diversas. Na maioria dos países, os cigarros tiveram seu uso proibido em ambientes fechados, a ingestão de bebidas passou a ser a maior infração e ambos tiveram anúncios controlados nas mídias. No caso das casas das apostas, inicialmente físicas, chegaram a ser proibidas em alguns lugares e em outros foram direcionadas a lugares específicos na cidade.
As bets, como todo negócio na rede, surge defendendo, por má fé, a liberdade total das operações, mas todos países se encaminham no sentido de regulamentar e enquadrar no sistema legal os negócios como são, e nesse caso, trata-se de negócios predatórios, agora turbinados por apelos de novas modalidades e facilidades para apostas. Novamente uma atividade econômica se volta contra a sociedade e essa precisa tomar providências para frear o ímpeto da ganância de alguns em detrimento da maioria. Os resultados disso estão pelo mundo e mais particularmente se viu no Brasil nos últimos anos, com muitas pessoas de baixa renda ficando em situação financeira ruim por causa dos jogos virtuais.
A sociedade pagou o preço por não enfrentar o problema quando surgiu, pois se sabia que era a modernização de algo já conhecido, a exploração/manipulação da esperança alheia gerando o vício que corrói o senso de escolha. Muitos se endividaram para apostar e as bets tornaram-se um problema social significativo (https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/03/26/bets-viram-maior-motor-do-endividamento-das-familias-no-brasil-diz-estudo.htm). Raios continuam caindo e raramente alguém morre por consequência deles, mas as pessoas continuam achando que um vai cair sobre sua cabeça, no conforto de seu sofá. Cada um acredita no que quiser, mas os governos tem de garantir que ninguém leve a economia popular à derrocada.
Querer ter mais renda, mais conforto, é legítimo, e deve ser buscado pela produção que melhora a sociedade, e não que a destrói. Nisso, duas observações importantes: 1. Nos dias de hoje já não devemos alimentar sonhos megalomaníacos de enriquecimento porque já sabemos que o mundo está dando sinais de que não suporta mais o excesso produtivo. 2. Toda sociedade deve eliminar as diferenças exageradas de renda, é preciso dar possibilidades de rendimentos para todos. Concentração de renda não pode ser mais tolerada, uma vez que há muita produção par ser distribuída. É preciso ter em mente os dados da realidade para melhorá-la concretamente, podando sonhos individuais descabidos, que, no mais, podem se transformar facilmente em pesadelos.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

Para ler no celular, basta apontar a câmera





