22/06/2026 às 12:33
Messi está com tudo e não está prosa ‧ Foto: Divulgação
Messi está com tudo e não está prosa. O que falta no jogo dos brasileiros nessa copa, sobra nos pés dos eternos rivais abaixo do Rio Grande, mas inversamente, nossa economia faz eles ficarem roxos de inveja, e o pior é que nós já mostramos o caminho para a estabilização, que eles insistem em não copiar (com adaptações). Por orgulho ou teimosia, o tecido social vai se esgarçando e a economia argentina vai minguando a cada ano, na mesma direção do nosso selecionado nacional de futebol masculino. A sabedoria popular do ‘não se pode ter tudo’ não deve ser aplicada nesse caso, pois basta um pouco de esforço em ambos campos para colher resultados, o problema é convencer os jogadores ou, o que é bem mais complicado, a sociedade. Nessa última, o convencimento começar com uma mudança na mentalidade de suas elites, que muitas vezes não parecem muito interessadas no bem comum, apenas nos seus bens incomuns...
Como se não bastasse não aprender com o vizinho as lições básicas da estabilização, a Argentina também não aprende consigo mesma, pois o receituário neoliberal já foi implementado outras vezes, mostrando sua ineficiência. Evidentemente não dá para discutir todo processo de formação econômica desse país num curto texto, mas é possível colocar alguns elementos centrais do problema. A Argentina era um caso à parte na América do Sul no começo do século XX, uma sociedade relativamente homogênea socioeconomicamente, próspera com sua agricultura e pecuária de referência, porém a ausência da introdução da indústria no modelo foi decisiva para a economia começar a desandar. Depois de uma fase populista (1940-1970), na qual os governos tentaram conciliar e sustentar os bons padrões históricos de vida com gastos públicos não direcionados para investimentos estratégicos, vieram políticas convencionais de arrocho econômico com empréstimos externos que eram sugados pela economia, liquidando as sempre baixas reservas de divisas (https://www.scielo.br/j/ecos/a/MqV9hHtNW934pF3dLCCbs3h/?format=pdf&lang=pt), o que degradou a distribuição de renda.
Num plano mais amplo, as políticas econômicas liberais realizadas entre 1976 e 2002 “resultaram em duas ondas de desindustrialização, com crescimento da dívida externa de US$ 7,9 bilhões em 1976 para US$ 45 bilhões em 1983, e chegou a US$ 144 bilhões em 2002. Além disso, essas políticas ocasionaram deterioração drástica das condições sociais. A taxa de pobreza, que era de 14% em 1991, saltou para 54% em 2002, enquanto a indigência atingia 27% da população no mesmo ano. O desemprego, por sua vez, passou de 6% para mais de 21% no mesmo período” (https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/bjir/article/view/17185/19519). Tudo ficava pior com a chegada da hiperinflação, que vitimou todos países periféricos latinos entre os anos 1980 e 1990, tornando-se o problema principal a ser combatido. Já mais recentemente e especificamente com Macri (entre 2016-2019), a pobreza alcançou 40,8% da população em dezembro de 2019 e a inflação disparou para 53,8 no mesmo ano (https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/RFM/article/view/17488).
Agora com Milei, aquele que acredita que tem que radicalizar o liberalismo, está colhendo resultados radicais, beirando a tragédia social, pois os indicadores mostram uma permanência da situação recente, com bem menos colchão social do Estado. O ‘êxito’ sobre a inflação aconteceu mas ainda não foi definitivo, pois saiu de 211% a.a. em 2023 para 118% a.a. em 2024 e 31,5% em 2025, e o PIB, por sua vez, recuou em 1,6 em 2023 e 3,8 em 2024 para avançar 4,4% em 2025 (https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/bjir/article/view/17185/19519). O governo alardeia que a quantidade de pessoas abaixo da linha da pobreza afinal recuou para 28,2% em 2025, mas para amenizar a disseminação da pobreza foi importante a expansão do ‘bolsa família’ portenho, relativamente maior que o brasileiro (https://www.douranews.com.br/economia/argentina-tem-bolsa-familia-maior-que-o-do-brasil-em-relacao-ao-pib/77564/), ademais, incoerente com a concepção liberal governamental, enquanto o desemprego saltou para 7,5% da população ativa. É patente o elevado custo social de um programa que não aponta caminhos mais consistentes para o país e depende de investidores estrangeiros para continuar com fôlego.
Hoje a Argentina é uma sombra do que já foi, está tão perdida que a costumeira empáfia nacionalista está diluindo. Está pagando por uma série de erros acumulados que aumentam o desafio de reerguer a economia, principalmente por ancorar no dólar programas de estabilização e não conseguir modernizar sua estrutura produtiva. Dado seu histórico, era previsível que ela fosse tomar o direcionamento atual, já que despontava no mundo o neofascismo no princípio dos anos 2000, e naquele território instável e decadente esta vertente política encontraria campo para se multiplicar, com seu apelo ao ultranacionalismo tóxico, piorado pela submissão às potências centrais. Mas não deixa de ser impressionante a derrocada de um povo combativo que fazia movimentos sociais para manter as boas condições de vida, agora acuado em meio ao alastramento da pobreza.
Todos times gostariam de ganhar o campeonato que participam, mas realisticamente alguns sabem que sua chance é mínima e poucos, que tem mais atletas de nível superior e esquema tático bem montado, devem brigar efetivamente pelo título. Uma sociedade também é um tipo de equipe, e sua economia disputa os mercados, os capitais, porém diferentemente das competições esportivas, o êxito não é único, várias podem ser bem-sucedidas. Podiam até ser todas, se fossem mais colaborativas, algo que a ganância e a competitividade do sistema desestimulam.
Mais do que no futebol, na economia é preciso toda uma articulação entre os jogadores envolvidos, uma boa estratégia de jogo, colaboração mútua, motivação, etc. São muitas variáveis que precisam ser observadas e equacionadas pela equipe econômica que lidera o processo para arrumar a economia e possibilitar um desenvolvimento no médio-longo prazo, mas infelizmente o modelo liberal ignora uma variável básica: a população. Bons resultados por esse modelo exigem sacrifícios elevados do povo, porque são pensados apenas para uma parte da sociedade. O povo argentino, como muitos outros, está dividido com o crescimento do exclusivista modelo liberal-neofascista, ainda vai sofrer até encontrar um caminho para toda sociedade.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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