
08/06/2026 às 19:58
A copa do mundo de futebol sempre nos remete a esse elemento de nossa identidade, afinal somos uma pátria de chuteiras. A identidade cultural/esportiva, entretanto, não é suficiente para caracterizar o conceito de pátria. Pessoas habitam lugares, cidadãos moram em cidades delimitadas geográfica, econômica e politicamente. Na época moderna, países foram consolidados após disputas seculares, e desde então, cada país inserido na ordem econômica e social ocidental realiza suas discussões internas democraticamente acerca dos rumos a tomar socialmente, com a expectativa de inclusão social de toda população, dada a modernização econômica que acompanhou a fundação desse modelo. O Brasil se identifica com os elementos dessa ordem.
Em tese, a convivência social contemporânea é baseada no interesse coletivo maior, que é fundado na consonância entre valores e cultura do povo, que são ratificados pelos marcos legais determinados. Daí surge o conceito moderno de nação, ao qual estão associados os conceitos de país e pátria, que remete mais especificamente ao vínculo com a terra como local do nascimento. O problema é a prática, e começa quando uma nação se julga no direito de subjugar outra, impelindo pobreza, ou quando não se consegue gerar condições dignas de vida para boa parte da população, caso das periferias, como o Brasil.
O conceito de pátria passa pela origem, relações familiares e senso de comunidade, aqui os afetos afloram mais, pois trata-se de um corpo social onde todos colaboram para a construção da coletividade, imbuídos de um mesmo sentido econômico e político no processo. Os conceitos de país e nação são mais relacionados a aspectos formais, territoriais, legais e políticos, e assim carregam elementos como cidadania e nacionalidade, mas também há afetos envolvidos (até quando se adota um lugar para morar via naturalização). Cada um de nós deve ser incluído socioeconomicamente num todo, o grupo que nos dá garantias diversas, fundadas em nossas raízes ancestrais e leis adequadas à moral predominante.
O amor à pátria se desenvolve na medida em que ela nos retorne boas condições de vida socioeconômica, se não houver essas, se produz uma sociedade conflituosa e párias, os rejeitados pela sociedade. O sistema tentará impingir um sentimento ufanista a todos e principalmente nos marginalizados, mas a persistência da miséria desnutre também o amor à pátria nesses últimos em particular, que vão em algum momento passar a odiar ou ter indiferença à pátria, e à nação, via escassez de nacionalismo. Isso que era regra apenas nas periferias econômicas, se alastrou recentemente e contaminou países desenvolvidos com a hegemonia do neoliberalismo e da automação industrial, que passou a produzir pobreza e desemprego também nesses países.
Enquanto os marginalizados estavam dispersos e podiam ser administrados por uma eficiente grande mídia, o sistema impingia a ideia de pátria amada a todos, mantendo exílios internos para os párias socioeconômicos, seja em periferias afastadas ou favelas onde a pobreza e a miséria podiam se reproduzir e subsistir por meio de todo um mercado da precariedade, informal, sem incomodar as elites distantes. A contestação direta na forma de ilícitos era punida não só com um sistema oficial de justiça, mas também com um outro sistema informal, também paralelo, de violência oficioso.
Eis que no começo do século XXI, a sociedade periférica se cansa de esperar por uma melhoria socioeconômica mais substancial e resolve embarcar em aventuras fora das opções políticas convencionais da ordem política instituída. Muitos párias também aderem à tendência, abandonando a esquerda tradicional que tinha toda uma compreensão histórica da marginalização social e propostas, que, entretanto, nunca eram completamente implementadas. Os párias começaram então a se organizar em formas compatíveis com o caos social em que estavam inseridos. De um lado veio o salvacionismo em igrejas específicas, e de outro, as organizações criminosas, ambas chegam para, de formas distintas, preencher os lugares abandonados pelo mercado e pelo Estado omisso. Com o advento da conexão digital, grupos como esses encontraram meios de impulsionar e se fazer representar.
Fatias das classes médias foram ludibriadas e a elite, por sua vez, quis capitalizar a rejeição ao Estado se unindo a segmentos expressivos dos párias. Toda essa laia acabou encontrando vocalização em políticos oportunistas verborrágicos que se classificaram como antissistema para dialogar com toda insatisfação histórica represada. Ninguém sabia ao certo do que se tratava, dada a escassez de substância textual, mas a proposta era/é essencialmente transformar o país em pátria pária internacional. O problema é que a culpa não é do sistema, das instituições, mas de quem os construiu, distorceu e as geriu e gere. Nesse processo, a conexão virtual permitiu a ascensão de políticos com conexões milicianas e produziu líderes párias que continuam procurando aumentar o movimento de essência fascista para transformar a visão predominante da elite mundial e marginalizar o tradicional Estado moderno democrático de direito.
Óbvio que o tratamento dado pelos líderes convencionais a um líder pária de uma grande potência é totalmente diferente de um líder pária de um país periférico. Enquanto Jair Bolsonaro era solenemente ignorado e não convidado para eventos, Trump é recebido por governantes em vários lugares do mundo, afinal esse último carrega atrás de si, ainda, a maior economia do mundo e a maior força armada do mundo, que é usada regularmente em circunstâncias específicas. Há um detalhe nesse exemplo, que são as limitações cognitivas do brasileiro, já Trump possui apenas uma questão psicológica recorrente em líderes párias: a sociopatia ( https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/04/07/trump-tem-saude-mental-questionada-por-suas-ameacas-apocalipticas-ao-ira.htm e < https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/06/03/rubio-considera-absurda-preocupacao-dos-democratas-com-saude-mental-de-trump.htm).
A exclusão social sistemática e histórica é a raiz de tudo. Não se pode construir uma pátria com Estado moderno de direito produzindo párias, exclusão social, por longos períodos. Nos países desenvolvidos, aliás, bastam curtos períodos, porque eles não estão acostumados a uma condição de degradação social, historicamente terceirizada para as periferias. A construção concreta de uma pátria envolve a integração de toda população, política e economicamente, e uma elevada concentração de renda com alastramento da pobreza mina qualquer projeto de sociedade moderna. Devemos perseguir não só crescimento econômico, mas desenvolvimento socioeconômico para todos. Nação com párias é uma pátria triste.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.
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