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O Brasil no meio dos faroestes caboclo e yankee​​​ - por: Alexandre Lyra

A decisão do governo estadunidense na semana passada é apenas mais um capítulo, mais grave, de sua história

Por Alexandre Lyra • Política

01/06/2026 às 19:39

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Brasil ‧ Foto: divulgação

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Terrorismo são ações com objetivos políticos ou econômicos (geralmente ambos) que usam de violência e da disseminação do medo (como decorrência da primeira) para alcançar suas metas (https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/terrorismo/). A semana passada começou com a aprovação do fim da escala 6x1 na câmara federal e terminou com o anúncio feito pelo governo norte-americano da inclusão das organizações criminosas brasileiras na classificação de terroristas. É revelador, porque muitas ações do próprio governo estadunidense podem ser classificadas como tal, inclusive essa, já que o enquadramento corresponde à criação de uma justificativa prévia para novas intromissões internacionais.

O histórico de invasões norte-americanas é extenso, associado ao largo uso de violência, trata-se de uma prática histórica desse país que sempre alega razões políticas/sociais para a empreitada, mas depois sempre vem à tona os reais motivos: econômicos. Sua constância dá margem para classificar o terrorismo externo como política de Estado. A decisão do governo estadunidense na semana passada é apenas mais um capítulo, mais grave, de sua história. É no mínimo uma ameaça velada para conseguir vantagens econômicas, na medida em que sinaliza com a possibilidade de ingerência, intervenção ou punição econômica internacional. Cada país faz suas discussões, toma suas decisões e o governo age com seus meios e possibilidades, participação internacional só é válida se solicitada. 

Lula esteve a pouco tempo nos EUA e conversou longamente com o Trump, inclusive apresentando um projeto de combate ao crime organizado e propondo colaboração mutua, mas não foi produzido nenhum documento oficial como resultado concreto da visita. A imprensa especulou, mas pelo menos não houve costumeiros rituais de humilhação de dirigentes estrangeiros. A traição do presidente yankee ocorre logo depois dele receber uma outra ‘visita’ brasileira, essa a jato, de Flávio Bolsonaro, que comemorou o ‘resultado’ da sua breve estadia na América do norte. Ele buscava algo suficientemente chamativo para desviar a atenção dos brasileiros dos vazamentos que comprometem até o pescoço sua já discutível reputação.

Ele conseguiu, mas a que custo? Não faz muito tempo seu irmão comemorou a adoção de medidas (basicamente proibindo a entrada em território norte-americano) contra membros do Supremo tribunal e outros políticos do governo, mas a repercussão disso nas pesquisas não foi satisfatória: o discurso de Lula é melhor aceito nessa seara. Porque agora seria diferente? Eduardo faz esse tipo de coisa porque quer imprimir a pauta a todo custo, e muitos apoiadores disseram que ele era melhor calado. O irmão embarcou na onda, talvez aconselhado pelo pai, e colherá os frutos da disseminação do faroeste yankee.

Não vale a pela conversar com quem é reconhecido como desrespeitoso e mentiroso, e Lula sabe bem disso, pois havendo colaboração dos órgãos de segurança dos dois países, Ramagem, condenado pela justiça brasileira, foi preso em solo americano para ser solto na sequência (https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-04/ex-deputado-ramagem-e-solto-apos-ficar-dois-dias-preso-nos-eua). Fake News são disparadas em série por pistoleiros políticos do século XXI, com suas metralhadoras robóticas internáuticas. Mitômanos se entendem bem com gente da mesma espécie, os extremistas de direita locais que adoram espalhar contos do vigário para a população, sem apresentar um plano, projeto, nem sequer uma vaga ideia de concepção para o futuro do país, apenas garantem proteger a família, a religião e a liberdade, valendo para isso desrespeitar leis e ter relações intimas com milícias. A produção concreta quase nula é uma constante dos deputados dessa vertente, quando não obstruem projetos, estão agitando em redes sociais com discursos inflamados cheios de inverdades.

Na realidade, a segurança interna é o calcanhar de Aquiles das gestões petistas, ainda que haja outras fragilidades menos translúcidas. A esquerda light do PT entende que não pode ter concepção e política de segurança pública mais firme enquanto não oferecer oportunidades de trabalho dignas para a população em geral, e assim fica refém de sua armadilha, já que não quer enfrentar os grandes interesses nacionais e estrangeiros (particularmente financeiros) para efetivamente desenvolver o país, gerando vagas consistentes e maiores remunerações. É preciso resolver suas contradições e crises de identidade. Enquanto não se desenvolve socioeconomicamente, cabe uma preocupação maior com a segurança interna (já que a externa está mais ou menos equacionada), sob pena do problema se avolumar, como tem ocorrido.

No mais, a medida era esperada, o pato já havia prometido, só fez cumprir sua frágil palavra. Nesse momento os EUA só estão mais agressivos, expandindo sua ação para outras praças e aí o Brasil entra no mapa dos abusos yankees, como se já não bastasse nosso faroeste interno, muita violência gratuita contra os mais vulneráveis de uma forma geral. Até hoje o processo sempre transcorreu mais sutilmente por aqui, dada a subserviência predominante, mas houve ameaças, como em 1964, quando uma frota norte-americana chegou a iniciar um deslocamento, mas não foi preciso, o golpe foi concluído internamente (https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/operacao-brother-sam-golpe-de-64-teve-apoio-dos-eua.htm). Agora o caldo dá uma encorpada de novo.

Se fosse só guerra de pauta seria apenas ruim, mas esse faroeste pode resultar em problemas concretos para o país, politicamente e economicamente. O tio San pode tumultuar as eleições ou gerar punições a empresas que fazem negócios com crime organizado, mesmo sem saber, já que elas já se misturaram no mercado, e empresas não são polícia para ficar investigando os outros. O pato infelizmente precisa reafirmar essa agenda constantemente com o desgaste interno de seu governo, e sobra para os demais países. Resta manter um mínimo de compostura, altivez, e denunciar a manobra, mas se preparar para estragos, perdas, torcendo que ele se ocupe com outras coisas, esquecendo um pouco dos países abaixo da linha do Equador.

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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