
13/07/2026 às 08:33
O Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, lançado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) na quinta-feira (9), aponta que a cada aumento de 0,1 °C na temperatura média global, a economia brasileira pode registrar prejuízos de até R$ 5,6 bilhões em decorrência de desastres naturais. A análise foi apresentada durante o evento Indústria Resiliente: Estratégias de Adaptação à Mudança do Clima, que reuniu representantes do governo, da indústria e de instituições parceiras em Brasília.
A publicação traz uma avaliação dos efeitos da crise climática sobre as cadeias produtivas e sugere práticas para reduzir os riscos físicos e os desafios associados à transição para uma economia de baixo carbono — fatores que podem afetar a competitividade do setor industrial brasileiro.
Dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), reunidos pela CNI, mostram que o Brasil registrou mais de 16 mil eventos climáticos extremos entre 2020 e 2023, com uma média anual de 4 mil ocorrências. Entre esses registros, as secas representaram 50 %, seguidas por inundações e enchentes (27 %) e tempestades (19 %).
Riscos e preparo empresarial
O gerente de Recursos Naturais da CNI, Mario Augusto Cardoso, destacou que a maior frequência de eventos extremos exige que as empresas incorporem a adaptação climática em suas estratégias de negócio. Segundo ele, a análise dos riscos ambientais deve fazer parte do planejamento corporativo para mitigar impactos sobre produção, cadeia de suprimentos e competitividade.
“Como a empresa vai lidar, por exemplo, com o corte na cadeia de suprimentos? E quando há pouco acesso à água, há muitas vezes problema de fornecimento de energia. É preciso analisar cada possibilidade de evento, verificar se a empresa está preparada e qual será o impacto para sua atividade”, explicou Cardoso.
Setores com maior exposição
O guia dedica recomendações específicas a setores que possuem maior exposição aos riscos climáticos:
Óleo e gás:
Empresas com ativos costeiros ou marítimos, como plataformas e refinarias, podem ser afetadas por tempestades, ressacas e elevação do nível do mar. Recomendações incluem reforço da infraestrutura e revisão de critérios de engenharia para eventos extremos, além de iniciativas como reúso e dessalinização de água.
Alimentos:
A indústria alimentícia é sensível a variações de clima devido à dependência de chuvas e disponibilidade hídrica. O guia recomenda práticas de agricultura regenerativa, conservação de solo e água, adoção de tecnologias de previsão climática e modernização da infraestrutura de armazenagem e logística.
Têxtil:
Na cadeia têxtil, a produção de fibras naturais e processos como tingimento e lavagem dependem intensamente de recursos hídricos e energia. O documento sugere uso de sistemas de reúso de água, modernização de equipamentos, ampliação do uso de fontes renováveis e estratégias de economia circular.
Transição regulatória e competitividade
O texto também aborda a transição regulatória, como a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/24, que estabelecerá limites de emissões e mecanismos de compensação via créditos de carbono. A CNI recomenda que as empresas antecipem a elaboração de inventários de emissões e incorporem estratégias de adaptação e mitigação no planejamento.
Consumidores e mercados internacionais têm exigido maior transparência ambiental. Empresas que não apresentarem práticas sustentáveis podem enfrentar restrições de acesso a financiamentos e barreiras comerciais.
O guia também identifica oportunidades de competitividade, incluindo estratégias de atração de investimentos industriais baseadas na disponibilidade de energia limpa no Brasil e o uso de instrumentos financeiros verdes para apoiar a modernização tecnológica.
Evento debate adaptação e futuro da indústria
O lançamento do guia ocorreu durante o evento Indústria Resiliente, com participação de representantes do governo, indústrias, associações setoriais e instituições parceiras. Debates reforçaram que o custo da inação tende a ser maior do que os investimentos necessários para adaptação e mitigação dos impactos climáticos.
O coordenador‑geral de Ciência do Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Márcio Rojas, afirmou que a falta de medidas pode levar a perdas de cerca de R$ 17,1 trilhões no PIB brasileiro até 2050 e à eliminação de cerca de 4,4 milhões de empregos.
Especialistas também destacaram que a cooperação entre setor produtivo e poder público é essencial para ampliar a capacidade de resposta do país a secas, enchentes, ondas de calor e escassez hídrica. Entre os instrumentos mencionados está o Plano Clima Adaptação, estratégia nacional que orienta setores, cidades e territórios sobre ações para enfrentar os efeitos das mudanças do clima.
Fonte: Repórter PB
Para ler no celular, basta apontar a câmera