
19/02/2026 às 13:46
Dados recentes do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas apontam que o consumo abusivo de álcool cresceu entre mulheres nas capitais brasileiras, passando de 9,2% para 15,7% nos últimos dez anos. A pesquisa é resultado de uma parceria entre o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Na Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo, iniciada nesta quarta-feira (18), especialistas alertam que, apesar da gravidade, a dependência feminina ainda enfrenta invisibilidade e preconceito maiores do que entre os homens.
Para a psicóloga Jaira Freixiela, especialista em tratamento e prevenção à dependência química e terapeuta de família, mulheres são mais estigmatizadas.
"As pessoas dizem 'ah, homem bêbado é feio, mas uma mulher bêbada é horrível! Como é que ela não tem vergonha na cara com os filhos dela pequenos?'. Então tem um estigma muito maior, porque você pensa na mulher, pensa na maternidade. E o medo da mulher de ser julgada leva ela a um beber muito solitário. Eu digo que existe uma solidão alcoólica na vida das mulheres com dependência do álcool."
Jogando luz à essa questão, o grupo Alcoólicos Anônimos criou o Colcha de Retalhos, iniciativa voltada para elas, como explica Jaira Freixiela.
"Nós tivemos um momento muito desafiador que foi no período da pandemia. Muita gente ficou assim: 'e agora? Os grupos de AA se fecharam'. E o que é que aconteceu? Se abriram as reuniões online. Aí a Colcha de Retalhos aproveitou esse momento e começou a se expandir. E hoje nós temos 65 reuniões online, que a gente chama de composição feminina. Só participam mulheres."
Segundo Jaira, mulheres entre 35 e 44 anos representam 42,6% dos contatos.
"São mulheres que estão entrando numa fase da vida, no climatério, e logo em seguida na menopausa. Ela está naquela sobrecarga toda, muitas ainda com filhos pequenos, numa tripla jornada de trabalho, e ela se dá conta. E aí, naquela opressão toda, o álcool vem muitas vezes como um alívio."
A psicóloga alerta que o alcoolismo é uma doença e que, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, mais de 7% das brasileiras preenchem critérios para o diagnóstico. Segundo ela, é preciso perceber os sinais.
"Observe se para aquela pessoa tudo é sinônimo de beber. Outro critério: a "saideira"; "não, é só mais uma", e não sai daquilo. O desleixo com a pessoa; ela começa a mostrar que não tem um cuidado muito com ela. E a mudança de estado de humor."
Somente no ano passado, cerca de 7 mil mulheres entraram em contato pelos canais de ajuda da Colcha de Retalhos. Um crescimento de quase 270% em relação a 2024.
A maior procura foi registrada entre mulheres do estado de São Paulo, seguido por Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro.
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