Lá pelos idos do século XVIII os filósofos da ilustração discutiam os fundamentos da sociedade livre moderna e Montesquieu deu sua contribuição expondo os princípios morais por trás da lógica da organização em torno da liberdade, entrando para a história como um marco teórico do movimento, ao lado de pensadores como Voltaire. Numa parte de seus estudos, Montesquieu enfatizou a existência de elementos éticos universais na natureza humana, e, portanto, atemporais e poli espaciais, para sustentar as construções sociais, que, logicamente, também deveriam estar presentes na sociedade moderna. O Nordeste hoje, como o Brasil, não é 100% moderno, é híbrido em sua conjunção de costumes e tradições com as práticas contemporâneas, e nisso guarda em suas entranhas uma característica universal que transborda nas eleições.
As eleições recém-concluídas de 2026 confirmaram a supremacia de Lula no Nordeste, sua terra de origem. A preferência é acachapante. Se do ponto de vista do executivo federal pode-se dizer que a região está na vanguarda política possível do país, de outro lado, é conservadora na escolha dos políticos para ocupar as cadeiras do legislativo, ainda que, predominantemente, não tenha caído nos braços da extrema direita (especialmente na eleição dos representantes para o senado). Nossa região detém uma ambiguidade que pode ser explicada de diferentes formas, mas conjecturo que o elemento econômico não pode ser desprezado como hipótese maior, que, por sua vez, pode ser conectada a um princípio moral fundamental. Explico.
O Nordeste passou pouco tempo sendo protagonista econômico no país, nos instantes iniciais de sua descoberta, pouco depois o ciclo da cana havia sido superado e a dinâmica produtiva se dirigiu ao centro-sul. Foram séculos em que suas características climáticas adversas não foram combatidas, o que, unido à escassez de riquezas naturais mais valorizadas, propiciou a disseminação da pobreza e uma baixa produtividade relativa nas atividades desenvolvidas. Conforme Gonçalves e Araújo, 2015, p. 201 (https://seer.faccat.br/index.php/coloquio/article/view/229/197) no final do século XX, “Com cerca de 27% da população nacional, essa região atingiu uma participação, na população formalmente ocupada brasileira, de 18,1%, produzindo uma média de 13,1% do PIB nacional”.
No século XXI vieram a estabilização econômica e os governos petistas, que implementaram políticas públicas que melhoraram indicadores sociais diversos e promoveram pequenos acréscimos no desempenho econômico. Segundo a fonte citada no parágrafo anterior, na produção agregada, “... enquanto a região (nordestina) cresceu 4% ao ano, entre 2001-2010, o Brasil evoluiu em média 3,7%.”. É necessário crescimento mais robusto para superação do déficit acumulado de crescimento econômico no Nordeste, mas a falta de água têm sido combatida com políticas públicas como bolsa família e construção de cisternas, suficientes para eliminar a fome nas caatingas (e também periferias urbanas): “Em 2008, o programa Bolsa-Família destinou mais de 52% dos seus benefícios para o Nordeste”. Segundo Barros e Athias (2013), foi justamente o impacto maior desse programa na atividade produtiva local em relação à política para o salário mínimo (que pesou mais no resto do país), que gerou esse resultado (https://www.scielo.br/j/rep/a/sbsVD5BBN9hJfqJMhxk8HFz/?lang=pt).
Sendo fundamental para melhoria das condições de vida, os programas sociais não vieram acompanhados nem de transformação produtiva expressiva, como realização de reforma agrária ampla e diversificação industrial (como aponta Aquino, at alli, 2017, https://www.bnb.gov.br/revista/ren/article/view/612/694), nem de politização da população para provocar uma reformulação da concepção assistencial historicamente enraizada, viabilizando novas lideranças sintonizadas com projetos sociais e econômicos mais ousados, focados na geração de uma economia mais forte e autônoma. O Nordeste predominantemente se manteve fiel a seus políticos tradicionais e a Lula, diferentemente das regiões abaixo, que se deixaram levar pela maré da nova direita de maneira consistente (elegendo governos e maiorias parlamentares).
O alcance limitado das políticas públicas explica a manutenção de um perfil conservador no legislativo no NE. As lideranças tradicionais também dão algo, pouco que seja (favores, benfeitorias, cestas básicas, etc.), para a população fragilizada das periferias, urbanas ou do alto sertão, e este espaço se mantém sem a modernização política e econômica. Aqui entra o princípio universal de Montesquieu, que explica a contradição nas preferências eleitorais: a gratidão. Montesquieu dizia que só a gratidão e a proporção entre crime e pena são princípios morais maiores existentes em qualquer civilização. A gratidão é forte em particular nos mais fragilizados, onde o que está em questão é a luta pela vida no dia a dia. O nordestino é grato aos que amenizam seu sofrimento material, mas ainda não sabe bem distinguir e trilhar o caminho que leva a uma redenção econômica.
Disso vem um desafio particular de Lula para a próxima gestão. Sendo filho da terra, conhece na pele seus dilemas, e por isso teve objetivo eliminar a fome, que mais abate seus conterrâneos do que os outros compatriotas. Agora é preciso ir além, além da eliminação da fome com programas sociais e políticas públicas que não alteram as estruturas econômicas e sociais. Dessa forma, uma parcela significativa da população vai continuar dependente dos programas, que não representam grande coisa para os cofres públicos, mas alcançar plenamente seus objetivos, como bem está previsto nas próprias políticas, é superá-las. Adotá-los foi relativamente simples, há um certo consenso acerca dessa medida de caráter humanitário e as elites tradicionais, do NE e do resto do país, não se opuseram porque não afetava seus altos ganhos em geral. Já transformações estruturais mexem, mas é preciso distribuir melhor a concentrada renda desse país, uma parte significativa da elite precisa aceitar isso e mudar de mentalidade para o país deslanchar, precisa deixar de ser exclusivista e aceitar a inclusão de todos na base produtiva. Só assim, não só a fome, como também as contradições, serão pouco a pouco superadas.
Até agora Lula tem cedido muito para fechar acordos com oligarcas, industriais e financistas, preservando seus ganhos elevados. É chegada a hora de ceder menos e bater na mesa para defender a maioria da população de renda mais baixa. Estará ele à altura do desafio ou optará pelos tradicionais arranjos que tem feito, que acomodam todos, mas mantém os mais fragilizados em seus cantos, só um pouco menos pobres. É seu último mandato, a conjuntura política está em parte favorável (como despertar dos progressistas) e em parte desfavorável (a nova direita tem força no parlamento), reescrever o roteiro que seguiu até hoje será difícil, mas possível se tiver claro que é necessário.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.