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sociedade

Identidade, identitarismo e identificações distorcidas       por: Alexandre Lyra*

A simpatia à qual Smith se refere é a identidade moral com o outro, que compartilha de conduta similar em pontos centrais

Por Alexandre Lyra • Política

21/09/2026 às 12:38

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Imagem A simpatia à qual Smith se refere é a identidade moral com o outro

A simpatia à qual Smith se refere é a identidade moral com o outro ‧ Foto: Divulgação

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Na metade do século XVIII Adam Smith defendeu a tese de que as pessoas se organizam harmonicamente numa sociedade livre a partir da simpatia, do reconhecimento mútuo de valores fundamentais, ponto de partida para o diálogo das demais questões relativas ao convívio social. A simpatia à qual Smith se refere é a identidade moral com o outro, que compartilha de conduta similar em pontos centrais. Esta é a concepção moral do sistema liberal, que parte do suposto da consciência individual manifesta na capacidade de discernimento de cada um. Alternativamente, Marx propõe uma racionalidade superior de grupos sociais, na qual um deles tem condição privilegiada para propagar uma concepção de convívio social onde seus interesses econômicos sejam preservados, usando para isso a manipulação dos demais valores sociais. Para Marx, a identidade em torno dos valores é construída para a manutenção das bases econômicas deste.

A construção das identidades por muito tempo foi simples em toda humanidade, centrada em valores religiosos e costumes seculares. Até a metade do século XX, tanto nas sociedades liberais quanto nas sociedades socialistas, que estavam centradas na construção do projeto econômico, o horizonte das identidades era estreito. Ao longo do século, as lutas sociais aproximaram mais o conceito da democracia à realidade, nisso novas perspectivas emergiram, outras questões vieram à tona e concessões tiveram que ser feitas. Uma nova concepção de identidade, afirmativa, começou a ser construída já dentro do espectro liberal hegemônico, enfrentando a resistência esperada dos conservadores.

Os costumes ditam a ordem, até segunda ordem não se mexe em princípios morais para evitar atritos desnecessários, seguindo como lemes da nau social. Porém, também não deve se esquivar de evoluir e repensar certos valores importantes, uma vez que alguns valores referenciais da sociedade anteriormente aceitos como regra, com o tempo deixam de ser e se tornam anacrônicos, como o escravismo ou o voto exclusivamente masculino. Dessa forma, é preciso fazer revisões que considerem, por exemplo, a formação do povo e acatar as matrizes ancestrais, e aceitar a igualdade de gêneros e a diversidade dos grupos LGBTs, abrigando todos como cidadãos que têm a contribuir para a nação. O identitarismo, no entanto, é variável social, tangenciando questões econômicas. Estas últimas possuem uma categoria própria, a identificação socioeconômica, que é pouco discutida e é tão relevante quanto a anterior.

A identificação socioeconômica é mais subjetiva e sujeita a sujestionamentos convenientes. Ela gira em torno da percepção das pessoas, e suas respectivas rendas, de como se encaixam em relação às camadas socioeconômicas principais existentes. De maneira mais geral, temos quatro classes A, B, C e D, sendo a primeira correspondendo à classe alta, a segunda a segmentos de renda média, a terceira de renda média baixa e a última de renda baixa. Embora a classe média na atualidade tenha formação superior e algum esclarecimento sobre a sociedade liberal, dada a proximidade em padrões de consumo, com alguma frequência, indivíduos e famílias se identificam com a primeira e isso os torna mais próximos também de seus valores, o que é relevante, pois essa camada tem forte influência sobre os segmentos abaixo. As duas últimas camadas, mais populares, têm mais clareza de sua inserção social, porém alimentam a possibilidade de progressão, gerando uma identificação com seu segmento e ao mesmo tempo com os valores liberais da economia de mercado.

A classe A é essencialmente composta por empresários, enquanto nas demais há trabalhadores e empresários. Os rendimentos (as vezes altos) da classe B confundem seus integrantes, mas nas outras classes todos têm rendimentos para sobrevivência (mais ou menos confortável), compatíveis com a condição trabalhadora, ainda que possam ser autônomos, e como tal, se identifiquem com empresários. Enquanto a economia dá retorno à população em termos de oportunidades satisfatórias de trabalho e renda, as classes inferiores tendem a acompanhar uma linha mais liberal/conservadora, mas à medida que essas oportunidades minguam, há comportamento divergente. Até o século passado essa reação vinha com engajamento nas fileiras da esquerda, mas no presente século muitos têm deixado esse caminho.

A hegemonia do liberalismo a partir de 1990 foi um marco decisivo, tornando obsoleto o socialismo e dificultando a articulação em torno de reformas pró trabalhadores, apesar da atualidade vir acompanhada da destruição gradativa de postos de trabalho, que são compensados pelo surgimento de novas oportunidades cada vez mais precárias (sem vínculo formal). As novas ocupações reforçam o caráter empreendedor, gerando uma identificação pessoal com os valores liberais, apesar do rendimento ser correspondente ao de um trabalhador, sua verdadeira essência, pois ele trabalha para sobreviver e não para acumular capital.

A novidade no presente século é que grande contingente de pequenos empresários, motoristas/entregadores de aplicativos e congêneres têm claro que o cerco está se fechando e que não há lugar ao sol para todos, levando muitos a apoiarem incondicionalmente políticos neofacistas. Tanto aqui quanto no resto do mundo, o discurso protecionista tem seduzido milhares, embora com fundamentação inadequada para economias modernas (pois são pré-liberais), que leva elas a desacelerações produtivas. Hoje a ilusão é menor, deu lugar ao cinismo. Ainda há uma parte que se ilude às antigas, centrando sua identidade nos valores familiares e religiosos e achando que as oportunidades de negócios são para todos, mas uma parcela significativa abandonou as travas morais e aderem agressivamente à defesa de contestações ao ordenamento do Estado moderno de direito, cuspindo no prato em que comem. Dentro dessa ótica é lógico que pautas identitárias não têm espaço.

Apesar de estarem cientes das mentiras alardeadas, continuam sendo enganados, de outra forma, pois não é garantida a entrada no novo clube. Muito pelo contrário. Quantos imigrantes com direito a voto ou apoiadores contribuíram com a eleição de Trump e hoje são perseguidos pelo ICE, presos e/ou deportados (https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/28/detencoes-de-imigrantes-sem-condenacoes-criminais-pelo-ice-explode-nos-eua-diz-jornal.ghtml)?  Quantos trabalhadores perdem renda relativamente enquanto megaempresários nos EUA aumentam seus lucros (https://veja.abril.com.br/economia/lucro-de-empresas-dos-eua-bate-recorde-enquanto-trabalhadores-perdem-renda/) Quantos clamam por segurança, apoiam Bukele em El Salvador e depois são presos nos mega presídios (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/05/colombianos-admiradores-de-bukele-viajam-a-el-salvador-e-acabam-presos.shtml )? Quantos entusiastas de Milei hoje perambulam desempregados ou passaram a trabalhar informalmente pelas ruas da Argentina (https://veja.abril.com.br/economia/argentina-elimina-241-mil-empregos-e-futuro-de-milei-na-politica-fica-em-risco/)?

É preciso ter cuidado com o que e quem se identifica, depositando esperanças de construção de um projeto social. A agressividade e o cinismo podem se voltar contra a pessoa, quando ela não presta muita atenção no que é dito e no que não é dito por políticos, pois muitos omitem sua opinião sobre temas importantes, particularmente em relação a rendimentos e direitos da maioria da população. Quando não se tem a decência de defender o Estado moderno de direito então. é porque há alguma coisa muito errada, e não se deve ter ilusão de que apoiando esse tipo de gente se estará a salvo de futuras ações arbitrárias. Vários integrantes do próprio exército brasileiro provaram esse gosto amargo quando apoiaram o presidente anterior e este os destratou quando não quiseram atender a caprichos ou arbitrariedades suas. Infelizmente esse aprendizado depende muito da memória, mas isso já é assunto para outro texto.

 

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

 

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