Ele é mineiro, como Juscelino e Tancredo, outros nomes importantes na história do país, mas definitivamente sua ênfase não é a tradição, ele está sintonizado em seu tempo, no mundo virtual e nas redes sociais que o cercam. Ele é mineiro, mas poderia ser Nortista, do centro-sul ou do Nordeste, porque ele é universal e extrapola as barreiras geográficas. É de um Estado, porém vai muito além, via linguagem digital, onde o sotaque é um detalhe menor, chega em todas praças. Ele é André Janones, o homem decisivo para a reeleição de Lula.
O histórico quarto mandato de Lula não estava no horizonte no final do primeiro turno. A derrota abateu o campo político progressista, que já fazia uma campanha morna, que não conseguia animar a militância e os simpatizantes. Havia uma certa confiança demasiada no bom senso da população, de que não iria entregar o país a um sujeito (o adversário) que tinha boas relações com a milícia, mesmo não aprovando muito a administração do presidente. O resultado mostrou que a insatisfação era tanta em alguns, que foi suficiente para superar os que apostavam na continuidade governamental e institucional, se deixando levar por apelos vagos e inconsistentes do representante de uma família que capturou a extrema direita no país. O campo progressista ficou desnorteado com o resultado relativamente esperado (previsto pelas pesquisas), e tinha tudo para manter a trajetória de figurante no turno decisivo das eleições. Eis que surge um personagem insólito.
André Janones é um deputado por seu Estado, também reeleito para a próxima legislatura. Começou em um partido de centro direita, o avante (de Cury), mas desde o início possuía características relacionadas ao extremismo, dada a habilidade no uso da comunicação nas redes sociais virtuais. As redes sociais na internet guardam similaridades com a sociabilidade real, pois as pessoas que estão por trás dos computadores e celulares são de carne e osso do mesmo jeito, mas tem especificidades, principalmente no que diz respeito ao fato de serem capitaneadas por capitais gigantes que querem interferir nas leis para obterem melhores condições de aumentar seu domínio e lucratividade. Nesse sentido, facilitam toda atividade dos liberais, em particular dos mais extremados, e dificultam os movimentos, já incipientes, de progressistas ou esquerdistas. É nesse cenário adverso que Janones aparece para subverter essa tendência, usando a própria lógica das redes virtuais.
Janones fez com maestria basicamente o mesmo que alguns outros personagens da esquerda, mais radical, já esboçam: dominar a comunicação digital, se apropriando dela para operar contra as forças poderosas que a comandam, apostando numa comunicação direta e coloquial para explicar as reais motivações dos grupos dominantes tradicionais na política e na economia por trás das suas narrativas ‘libertárias’. Isso que pode ser chamado de guerrilha digital é uma estratégia em que a eficiência carrega um componente de histrionismo e outro de agressividade, e sofre contra-ataque constante das big techs, que derruba portais e publicações com alegações frágeis e duvidosas. No ambiente muito concorrido das redes virtuais (dada a disseminação da internet), o engajamento só vem com concisão e ênfase numa disputa quantitativa acirrada pela atenção, onde a diferenciação tem que ter apelo popular. O circo é atualizado.
O mineiro em questão transitou para a centro-esquerda há cerca de seis anos e começou a atuar como apenas mais um entre aliados, agora integrando o partido ‘rede’, coligado, por meio de federação, ao PT. De seu passado direitista ainda traz a mesma igreja (batista da Lagoinha) de outros líderes de direita (https://pt.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Janones), um detalhe menor diante de sua adesão e contribuição ao campo progressista. Lula deve seu quarto mandato a ele, único responsável por encontrar o canal de comunicação com a população que permitiu reverter uma derrota que se anunciava. Certamente vai ter papel importante no próximo governo e se coloca desde já como nome para sucessão (dada a ausência de nomes competitivos na esquerda), desde que migre para o PT, uma vez que esse partido de estrutura mais rígida e historicamente dominante não lida bem com nomes principais de chapa fora do partido, para poder ter um controle maior da gestão (em especial a nível federal).
Contra Janones pesa a falta de raizes no campo progressista, a favor, sua capacidade de liderança em tempos onde a comunicação de massa passa por aparelhos que cabem na palma da mão, que até agora era dominada apenas pela extrema direita, que conquistou todos países que nos cercam. Nessa balança onde entram outros ingredientes, o governo terá de se superar para produzir resultados convincentes, principalmente nas áreas econômica e de segurança, sob sabotagem sistemática de uma direita neofascista bem representada no parlamento e de Trump, que aguarda a eleição para renovação do congresso no próximo mês. Para isso, precisará de atrair a população para seus projetos. A forma de se comunicar já achou, resta Lula, quem diria, colocar novamente seu exército nas ruas... para continuar zelando pela democracia e construir um país economicamente sólido para garantir a soberania.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.