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construção social

Memória, desatinos e saúde coletiva    -   por: Alexandre Lyra*

O Estado moderno de direito é o melhor projeto de organização social, porém também é o mais complexo, em especial por exigir a participação e atenção da sociedade

Por Alexandre Lyra • Política

28/09/2026 às 12:55

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Imagem Memorias coletivas

Memorias coletivas ‧ Foto: Imagem - ilustrativa

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As sociedades baseadas no Estado democrático de direito são o modelo mais avançado de construção social e tem sido confirmado como referência da era moderna da humanidade, mas o que foi viabilizado e desenvolvido ao longo de dois séculos (um período relativamente curto do ponto de vista histórico), tem sofrido ataques mais recentemente por saudosistas de regimes autoritários, que têm uma compreensão idealizada do que são projetos autocratas e governos militares, particularmente os de caráter fascista.

O Estado moderno de direito é o melhor projeto de organização social, porém também é o mais complexo, em especial por exigir a participação e atenção da sociedade como um todo na sua construção, o que significa que as respostas que o sistema dá ao grupo e a um cidadão questionador qualquer dependem diretamente do esforço coletivo, inclusive do inquisitor, e sua contribuição para construção social. Também a qualidade das perguntas feitas e capacidade de respondê-las é crucial para o resultado. Esse modelo não permite terceirizar participação, e isso ganha importância ainda maior nos períodos eleitorais como o que vai ser concluído no próximo fim de semana.

Ameaças externas são de se esperar, afinal a história da humanidade é composta quase totalmente, até pouco tempo, de invasões em territórios alheios, mas aqui falo dos estranhamentos internos, que partem de grupos novos ou antigos que tiveram o poder e querem retomá-lo após gerações para não ter de socializa-lo, nem dividir a renda com uma maioria da população. Esses grupos podem surgir eventualmente, têm características similares básicas e um certo padrão de acusar o governo de corrução, falar de uma degeneração dos costumes e propor saídas simples e autoritárias. Sempre termina mal, a história tem alguns casos registrados, sendo os principais o nazismo e o fascismo. Essas experiências liquidadas na segunda guerra mundial levaram ao desastre social em larga escala, alimentados pela intolerância e perseguição, dando margem ao florescimento de tudo que há de mais desprezível no ser humano, mas mesmo assim, elas renasceram das cinzas com seus apelos fáceis e conquistam adeptos fragilizados por novos contextos sociais, o que é uma lástima. O edifício ocidental não está sendo adequadamente construído, e a saudade de um passado mais tranquilo bate mais forte em algumas pessoas.

A memória pessoal é um dos fatores centrais que determina a saúde mental de uma pessoa, se alguém começa a ter lapsos de memória relevantes está começando a ter problemas graves de saúde. O mesmo vale para a sociedade, porém infelizmente esse adoecimento, que nesse último caso pode ser evitado completamente, tem sido frequente. Individualmente, há a indicação do sono regular para diminuir a chance de desenvolver problemas, no caso coletivo a recomendação é inversa, ficar desperto, estar atento aos movimentos sociais. O hábito saudável que afasta o mal social é a observação conectada ao próprio exercício da memória, aqui coletiva.

Não se deve esquecer o processo histórico para evitar repetir erros e falhas sociais graves. Os olhos precisam estar bem abertos porque embora na maioria dos países as instituições tenham proibido a defesa do ideal fascista, bem como a organização em torno dele (e mesmo quando é permitido), precisam ocultá-lo para arrastar mais desavisados às suas fileiras, porque sempre há um pouco de memória do que essa doutrina representou para a história da humanidade. Infelizmente, resultados medíocres das economias têm alimentado a volta de projetos autocratas e chegamos ao paradoxo do ideal fascista estar sendo apropriado por grandes grupos em sociedades que antes se organizaram para combatê-lo e debelá-lo.

A memória não é exclusividade humana, mas entre nós ela adquire proporções maiores, se ligando aos princípios morais que norteiam a vida e dão sentido a ela. Se faz ou deixa de fazer algo em função do peso moral que isso vai ter no futuro sobre a pessoa, quando a pessoa terá de conviver com as lembranças do acontecido. Se o indivíduo perde essa sensibilidade ele se torna cínico, uma categoria abaixo da humanidade, caracterizada pela morte da empatia. Infelizmente fatores específicos, e particularmente os econômicos, podem fazer desenvolver isso.

Condições de fragilidade econômica, como ocorreram depois da primeira guerra na Alemanha, na Itália e no Japão principalmente, entre as décadas de 1930 e 1940, foram o fator central para o aparecimento do fascismo e nazismo. Havia um lastro de destruição e humilhação que fomentou rancor e vingança. As guerras são eventos traumáticos que a humanidade deveria extirpar de sua história, mas isso só pode ocorrer com a contenção da ganância econômica, sua raiz. Séculos atrás, a dominação de outros povos era motivada pela sobrevivência, a escassez produtiva vigorava e a limitação técnica generalizada motivava invasões violentas, mas hoje há excesso de produção, a disputa é por muita riqueza, conforto excessivo, o que torna ela própria um despropósito.

Agora que temos muita competência técnica e científica, essas são enfatizadas na contemporaneidade do homem, destacando dimensões da intelectualidade, que podem até contribuir para um distanciamento da sua sociabilidade. Não é muito difícil ver grandes nomes, sejam cientistas, políticos ou esportistas, serem tomados pelo ego, calcados numa superioridade específica, regredirem em termos de concepções de convívio social, soltando disparates numa área em que em regra são despreparados. Aqui temos a inteligência (pontual) convivendo com a burrice (em outra área), ou com a má fé, se houver a consciência de que apoia um sistema excluidor de cunho autoritário.

A lembrança coletiva dos absurdos cometidos em outras épocas pelo ser humano é decisiva para termos paz consigo mesmos e com os que nos cercam. Só permanecendo atento socialmente a consciência cidadã fica tranquila e podemos dormir bem, diminuindo também a chance de adoecermos individualmente. Se temos problemas diversos (corrupção, imigração, desemprego, desigualdade, etc.) com o presente modelo de convivência social, a resposta óbvia para eles está no aprimoramento do próprio ser humano para estar à altura de um sistema moderno, que supera totalitarismos diversos. A solução está dentro do sistema, no aperfeiçoamento das instituições, não é mudando o sistema que resolveremos os problemas, ao contrário, assim só criamos outros.

No caso do Brasil não precisa ir muito longe na história porque tivemos recentemente um governo com inspiração neofacista, que fez jus a seus princípios. Devemos ver por debaixo das máscaras onde as intolerâncias são maquiadas por apelos morais fáceis e ter clareza acerca de seus valores fundamentais, como a subserviência internacional, que leva o país à regressão socioeconômica em pouco tempo. As últimas décadas têm confirmado que o Brasil um país detentor de riquezas estratégicas com possibilidades de crescer e mudar sua inserção internacional, o que está incomodando tradicionais potências. Ainda falta muito, mas podemos encontrar nosso caminho rumo a uma nação efetiva, com presença forte de capital nacional, em geral e de ponta, atentos ao perigo do neocolonialismo disfarçado. Só ligados no momento atual e assentados na história, as escolhas levarão a um país melhor do que é hoje. Bom voto.

 

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

 

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