19/10/2026 às 14:54
Lula x Flávio ‧ Foto: Divulgação
Diferentemente de outras eleições presidenciais, há muito em jogo nesta eleição. Há um candidato cujo grupo político tem inclinação autoritária e despreza a democracia, o que ficou materializado na invasão e depredação das instituições na praça dos três poderes (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/manifestantes-furam-bloqueio-e-entram-na-esplanada-em-brasilia/ ), ao mesmo tempo em que ostentam a palavra liberdade, com uma interpretação bem peculiar. À luz de toda tradição liberal moderna balizada por Voltaire e Montesquieu, os tenebrosos fatos mencionados comprovam que não compartilham da concepção do Estado moderno de direito quando defendem liberdade, e sim no conceito de liberdade negativa ampla (https://sdpscp.fflch.usp.br/sites/sdpscp.fflch.usp.br/files/inline-files/48-208-1-PB.pdf), absoluta, a que não tem limites. Referência para utópicos anarquistas que tem isto como ideal, atraindo ingênuos e mau intencionados neofascistas, já que sempre vai haver a possibilidade do ser humano ser levado para caminhos desagregadores, perniciosos e violentos.
Os que optam pela pequenez humana, egoístas radicais e oportunistas diversos, encampam a liberdade absoluta pelo que lhes serve, para poder fazer tudo e não serem punidos, já que não haveria crimes numa sociedade caótica hipotética correspondente. O PL nacional foi cooptado por essa leitura que pretende reduzir o aparato legal a um mínimo para sobrar espaços, vácuos, para operacionalização o que for preciso para se manter no poder e colocar em andamento, sem interrupções, seu projeto econômico. Do outro lado, o PT defende o Estado democrático de direito e um intervencionismo governamental moderado, tanto fiscal quanto normativo, sendo adepto da premissa de centro-esquerda de que o mercado gera muitas distorções que precisam ser corrigidas. Então discutamos as perspectivas para a economia brasileira nos próximos anos a partir desses marcos conceituais que orientam os dois grupos políticos que disputam o segundo turno no próximo domingo.
O programa político do candidato do PL tem por carro-chefe um “tesouraço”, um corte alto de impostos, porém isto não é detalhado no programa, que fala em redução de impostos em termos abstratos e redução da taxa de juros como consequência, para sanear a economia. Há pouco, assessores econômicos começaram a falar em corte de 1,5 a 2% do PPIB (https://www.infomoney.com.br/politica/o-que-muda-na-economia-com-flavio-veja-as-propostas-apresentadas-pelo-candidato/Ç). O valor do corte ficaria entre 200 e 250 bilhões de reais (https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/10/09/rui-costa-cobra-de-flavio-explicacoes-sobre-corte-de-r-250-bi-em-seu-plano-de-ajuste-fiscal.htm ) e se concentraria no corte de excessos do governo e supersalários públicos. Estes, contudo, são amplamente insuficientes para alcançar a meta estabelecida (https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/iuri-pitta/politica/supersalarios-no-setor-publico-custam-ao-brasil-r-20-bi-em-12-meses/), além de se concentrarem no legislativo e no judiciário, que têm autonomia orçamentária, ou seja, o governo não pode interferir, apenas executa suas demandas (a crítica deve ser interna). A lógica é que o corte atinja, como historicamente se verifica, a população mais fragilizada, com contenção de reajustes salariais em geral e restrições em programas sociais diversos. O candidato desmente.
Também é enfatizada a simplificação da burocracia para as empresas, redução de encargos trabalhistas e possibilidade de jornada maior e flexível, alternativamente ao modelo central, agora de 5 X 2. Este ponto complementa o compromisso do partido com os empresários e investidores, para daí gerar mais emprego e potencializar a economia, embora propalem a pauta com uma certa discrição. A maioria ‘liberal’ do congresso pressionará por isso e só poderá ser contida por manifestações fortes da população. Foi isso que garantiu a aprovação da 5 X 2, com o apoio constrangido do próprio PL. Manifestações também ocorreram na Argentina, mas mesmo significativas, não foram suficientes para conter a determinação da nova frente ultraliberal.
Flávio Bolsonaro se inspira no modelo liberal neoclássico que antecedeu a grande crise de 2008, no qual a desregulamentação elevada era peça central, e no do argentino de Milei (que falava, e cumpriu a promessa, em cortar gastos públicos com motosserra), trata-se de receituário de apelo ideológico com repercussões sociais não mencionadas, sendo mais conveniente ressaltar costumes e segurança pública. No governo de seu pai e mentor maior, Jair Bolsonaro, propostas parecidas foram tentadas e algumas poucas colocadas em prática (capitaneadas pelo ministro da economia), pois foram represadas por um congresso dominado pelo ‘centrão’, mas agora o PL tem bem mais deputados e maioria simples no senado, o que viabilizaria a argentinização da economia brasileira no caso de sua vitória.
O governo de Milei tem números proeminentes de fechamento de empresas (30.000, conforme https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-09/argentina-sob-milei-fecha-31-mil-empresas-e-245-mil-empregos-formais), e de queda no número de aposentados (pela metade), cujos rendimentos tiveram reajustes até o limite da inflação (https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/internacional/audio/2026-10/novas-regras-fazem-aposentadoria-na-argentina-cair-pela-metade). As empresas que vendem para o mercado interno definham, enquanto grandes empresas que vendem para fora prosperam às custas da flexibilização do mercado de trabalho, o que atrai investimentos estrangeiros, para os quais a economia vai bem. Para a maioria da população, entretanto, inclusive pequenos e médios empresários locais, vai muito mal. Mesmo com diminuição de impostos, manter a vida ficou difícil por cauda do desemprego e queda do poder aquisitivo (https://www.youtube.com/watch?v=QNeRHJGvVSw). É isso que se espera para o Brasil, caso Flávio vença, pois além do contexto estar favorável, há a diferença geracional, o filho se identifica mais com a pauta econômica, pela qual o pai não morria de amores, já que foi formado e influenciado por governos militares de concepção intervencionista.
Curioso observar que seu grande aliado acima do Equador não compartilha dessa sanha economizadora, pois Trump só fez a dívida aumentar, mesmo sem COVID (segundo mandato). Trump também seguiu a máxima da redução de impostos, mas contribuiu com cerca de 40 trilhões de dólares para a robusta dívida norte americana de cerca de 200 trilhões de dólares (https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/09/06/divida-dos-eua-passa-de-r-200-trilhoes-por-que-trump-nao-consegue-frear-a-alta.ghtml). De novo esse número que parece perseguir os neofascistas... Os republicanos em geral têm sido maus administradores, alardeiam equilíbrio fiscal, entregam déficit e é preciso vir depois um governo democrata para organizar as finanças públicas (ver https://clintonwhitehouse5-archives-gov.translate.goog/WH/Accomplishments/eightyears-03.html?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc para o governo Clinton e https://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADtica_econ%C3%B4mica_do_governo_Barack_Obama para o governo Obama). Quando não o problema não se agrava para uma crise que estoura (caso de Bush filho). É curioso observar como a responsabilidade fiscal é praticada por quem defende maiores gastos...
Do lado de Lula, temos três governos passados seus a considerar. Nos dois primeiros o saldo positivo é expressivo, com bons números de crescimento, inflação e emprego, incluindo o pagamento da dívida externa e superávit fiscal interno (https://revistaforum.com.br/politica/superavit-primario-lula/), porém o terceiro não foi tão exitoso. O governo atual teve alguns problemas adicionais a enfrentar, muitos decorrentes da herança ruim do governo anterior bolsonarista, e também do congresso mais conservador, onde já não tinha maioria, que inibiu o encaminhamento de propostas. Com isso, manteve políticas públicas e preservou a estabilidade econômica, mas só conseguiu reestabelecer o poder de compra dos salários no final do governo, a qualidade dos empregos piorou e o endividamento privado aumentou (https://www.jota.info/eleicoes/eleicoes-2026/lula-mantem-economia-em-terreno-positivo-mas-divida-das-familias-ainda-e-problema). Também houve aumento dos gastos públicos e da dívida pública em seu terceiro governo, mas o nível de impostos como percentual do PIB se manteve estável. No orçamento, os gastos sociais pelos quais se destaca sempre foram residuais, enquanto os altos juros continuaram levando a maior dos recursos públicos (https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/10/04/lula-3-x-bolsonaro.ghtm).
Em relação a um quarto mandato de Lula, podemos fazer alguns prognósticos. Lula tem prezado pela previsibilidade, mantendo a economia nas rédeas, mas a população espera mais e o congresso vai atrapalhar muito as iniciativas governamentais. Deve ser um período de embate em que Lula teria de persistir na defesa da democracia e da soberania (sob forte pressão interna e externa), zelando pela estabilidade econômica e manutenção de políticas públicas, mas o desempenho da economia vai depender da opção entre o controle da dívida com algum aperto fiscal, cedendo à maioria conservadora parlamentar com mais reformas liberais (trabalhistas e fiscais), ou a persistência no endividamento para começar a realizar políticas estruturantes que efetivamente podem fazer a economia efetivamente se desenvolver, superando anacronismos históricos. A segunda alternativa seria viabilizada pelo aumento dos impostos coletados no processo de crescimento, que manteria a capacidade de pagamento da dívida, mas parece muito ousada para seu perfil conciliador, ainda que seja seu último mandato. A primeira possibilidade, portanto, é a mais realista.
O prognóstico mais realista num eventual quarto governo Lula aponta para um cenário econômico próximo ao atual, com a pressão por solução de alguns impasses e tentativas frequentes de sabotamento do governo pelo numeroso grupo político neofascista, puxado por suas lideranças histriônicas mais radicais. Paradoxalmente, podemos ter uma economia morna convivendo com uma realidade política quente, porque a sociedade vai continuar dividida, mesmo considerando eventuais fatos novos (particularmente relacionados ao cenário internacional).
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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