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A complexa aritmética política eleitoral  - por: Alexandre Lyra*

No fim, houve um movimento de redução do chamado ‘centrão’ no congresso, o agrupamento de vários partidos sem ideologia definida, mas inclinados a uma direita arcaica (de qualquer lugar do país) e fisiologista

Por Alexandre Lyra • Política

12/10/2026 às 19:27

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Imagem Nesse processo, o centrão foi sacrificado,

Nesse processo, o centrão foi sacrificado, ‧ Foto: Divulgação

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Quanto é 100 + 100? Para Caetano poderia ser 120, mas na política depende das alianças e conchavos realizados. Pior ainda se for ver o conteúdo, afinal, na política uma unidade partidária responde por uma sigla, que pode esconder outra essência. O que se declara liberal pode ser neofascista, ou o que é socialista pode ser liberal... Na política tem muita armadilha, e o brasileiro, como em outros lugares, tem caído em algumas clássicas que agora são repassadas digitalmente.

Encerrada a apuração, as eleições revelaram um mapa político um pouco diferente das expectativas. Para o congresso se esperava a sustentação da onda neofascista, mas no senado houve alguns equívocos nos prognósticos baseados nas pesquisas. Também para o poder executivo, muitos chutes passaram longe da trave. As pesquisas em geral acertaram dentro da margem de erro, quando a disputa está acirrada, mas em vários casos projetaram um resultado diferente do final, e em outros erraram mesmo. Sempre há o álibi de que a pesquisa revela as intenções de voto apenas no dia, e nos últimos dias o efeito ‘manada’ pode alterar alguns pontos decisivos. Para o governo do Rio e para o senado em São Paulo em especial, as pesquisas passaram longe do apurado nas urnas, sempre subestimando o desempenho da extrema direita.

No fim, houve um movimento de redução do chamado ‘centrão’ no congresso, o agrupamento de vários partidos sem ideologia definida, mas inclinados a uma direita arcaica (de qualquer lugar do país) e fisiologista. Paralelamente, nas pontas cresceram as bancadas de direita e de esquerda, em números próximos (cerca de 20), mas a esquerda, minoritária, veio em bloco federativo PT-PCdoB-PV, enquanto a extrema direita veio só (o PL) e amentou sua maioria. Outros partidos devem se somar à esquerda (PSOL, REDE e PDT), mas mesmo assim fica bem atrás da direita exclusivamente neofascista acomodada no PL, que levou 121 cadeiras, quase ¼ do todo (https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/122897/pl-elege-121-deputados-e-faz-a-maior-bancada-eleita-em-40-anos) e ainda tem simpatizantes em outros partidos.

Nesse processo, o centrão foi sacrificado, mas ainda tem muitas cadeiras, praticamente a metade do plenário, sendo que dentro desse há infiltrados da extrema direita. O que podia ser uma notícia boa, passou a ser ruim. Seria boa se perdesse para blocos com projetos para o país, coisa que o centrão não tem, afinal seu interesse é basicamente manter suas práticas fisiológicas e as coisas como estão. Acabou perdendo espaço para um bloco que tem projeto liberal periférico, abertamente neocolonial, de sujeição à potência predatória acima do equador. O PL também é maioria no senado, onde vai ter 28 das 81cadeiras, o que corresponde a 1/3 do total, que somado a outros asseclas infiltrados em outras agremiações, atinge a maioria simples na casa, já a maioria qualificada de 54 votos para impedimento de ministro do STF, por exemplo, depende da adesão de outros membros da centro direita fisiológica.

No presente século, o PT foi encolhendo sua representação a cada legislatura até 2018 (91 em 2002, 86 em 2010, 68 em 2014, 54 em 2018  (https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/122897/pl-elege-121-deputados-e-faz-a-maior-bancada-eleita-em-40-anos), mas depois recuperou-se um pouco nas duas últimas: 69 em 2022 e 70 em 2026 (https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/eleicoes-como-fica-o-tamanho-das-bancadas-partidarias-do-congresso/). Agora há uma novidade em seu bloco, o surgimento de um grupo autoproclamado ‘esquerda radical’ (entre os quais se destaca o pernambucano Jones Manuel), que se define como de fundamentação abertamente marxista, um movimento que tem crescido devagar e substancialmente (à margem da mídia oficial e oficiosa), de resistência e contestação ao ideário liberal em geral, e periférico em particular. A tensão (e seu respectivo eco social) entre esse grupo e a gang dos entreguistas de direita deve ser explosiva e determinar os movimentos de maior avanço ou regressão desses blocos nos próximos anos.

Resta o segundo turno à frente. O presidente, que perdeu por quase dois pontos percentuais para Flávio, falou em seu discurso que quer disputar os votos das pessoas que não foram às urnas, 21% do total, algo como 33 milhões de pessoas (https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/eleicoes-abstencao-cresce-216-e-soma-33-milhoes-de-brasileiros ). Será possível? Primeiro é preciso colocar que esse grupo aumentou muito pouco em relação a eleições passadas, o que remete a uma consistência e a uma provável convicção pela ausência de seus integrantes, mas talvez o apelo ao convencimento pela presença ainda não tenha sido tentado com força, como parece ser o momento. É preciso considerar nele subgrupos internos com características próprias, registrando que os votos destinados a Zema e a Caiado migram quase todos para seu oponente, mas alguns votos de Cury e Renan podem ser disputados.

Há subgrupos que não se interessam mais pelo voto, independente do que esteja envolvido. Há os cidadãos desalentados (pedindo emprestado a terminologia do IBJE), e há os que pensavam que as coisas estavam resolvidas e não precisavam votar porque não faria diferença, os cidadãos confiantes em demasia (que tem representantes dos dois lados), além de outros grupos menores. A distribuição desses indicará a viabilidade de uma possível virada, considerando a capacidade de atrair os desalentados, que não têm motivação inicial, e chamar os confiantes que estão propensos a ir para a seção eleitoral (e votar em Lula).

 Segundo, a hipótese é realista também porque é difícil disputar os votos que foram para Lula em 2022 e mudaram de lado em 2026 no primeiro turno. Eles estão associados à queda na popularidade do governo atual e são mais inflexíveis. Reconquistar compromisso perdido é complicado, decepções, desgastes e mágoas criam crosta difícil de remover. Há muita informação fluindo e conhecimento de quem é Flávio e sua biografia de uma página cheia de coisas mal explicadas como o enriquecimento rápido. Talvez a lembrança do plano de governo e suas posições a favor dos empresários e dos governo argentino e norte-americano resulte em algumas conversões, mas mesmo isso pode ter simpatia de outros votantes.

No fim, se Lula ganhar, haverá alguma resistência aos avanços da direita neofascista, e com uma atenuação da correlação de forças se ganha tempo para reorganizar ideias e se reposicionar para o próximo embate eleitoral. Se perder, a população sofrerá as consequências de suas escolhas, pois será instituído um gabinete neocolonial que vai (declaradamente) instrumentalizar a suprema corte, e a economia sofrerá um choque regressivo com uma ‘liberalização’ com afagos para os EUA (governado por aliados), sem uma pandemia para atrapalhar (presente no governo de Bolsonaro pai).  A parada está chegando perto, espero que seja suave para que a viagem siga no busão do Estado moderno e não seja necessário um freio de arrumação no coletivo Brasil, que quebraria o veículo e forçaria todos a embarcar no velho bonde neofascista.,.

 

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