05/10/2026 às 17:14
A porção diminuiu em alguns pontos minúsculos a altura dos brasileiros ‧ Foto: Divulgação
O país amanheceu menor. Algo foi derramado, caiu no oceano, rios e em alguns mananciais que abastecem a população. Muita gente tomou pela água uma porção envenenada que reduziu discretamente a atura média da população. A região mais seca, notadamente, foi a menos afetada, a desidratação relativa fez seus habitantes escaparem do encolhimento, não se sabe por quanto tempo. A porção diminuiu em alguns pontos minúsculos a altura dos brasileiros, mas ao se verificar mais detidamente, foi constatado que a perda foi decorrente de uma substância que atingiu a coluna, que fez as pessoas não conseguirem mais se erguer completamente. Ficaram um pouco arqueadas, envergadas, retirando alguns milímetros preciosos do corpo.
O problema maior, literalmente, foi a diminuição dos seres como gente, sem perceber começaram a trocar princípios, mudar atitudes, substituindo altivez por imediatismos, honestidade por oportunismo, calor humano por frio interior. O estrago na estatura moral foi grande e a responsável parecia ser apenas uma família encastelada em montanhas de um vale obscuro, que, na mesma medida em que o caldeirão borbulhava, ocorria uma ebulição patrimonial, mas uma investigação mais profunda descobriu que o principal ingrediente da porção preparada era uma espécie bem específica de frutos do mar, Lulas, que se acanharam e diminuíram suas próprias proporções no meio do mar profundo.
O efeito deletério é durador e outros indivíduos em lugares próximos descobriram seu poder intoxicador e potencial alterador de mudança das pessoas por dentro. A ingestão da gororoba processada bagunça os pensamentos, acelera a fala, atropela o raciocínio, turvando a realidade gerando uma perda de paciência, uma pulsão egoísta, uma compulsão por estragar a organização social. Toda uma região continental é contaminada por essa desgraça que se alastra como vírus, porém não há mais pandemia, a endemia agora é de outra ordem e não tem concorrente biológico, é só de ideias. Na América do Morte encontraram substâncias primas em cavernas inexploradas anteriormente, e essas também endureceram os coitados, mas com efeito dimensional contrário, esticador, verticalizaram a coluna em 90 graus, de modo que não conseguem mais olhar para baixo. Ficando sebosos passaram a se achar integrantes de um primado, com direitos sob outras terras no além-mar. Antes divulgavam o diálogo, agora só querem vassalos.
Quem poderá consertar todo esse estrago senão os restantes? Ou então a própria realidade e muito sofrimento real sabe lá até quando. Os que restaram têm dificuldades em encontrar o antídoto que faça retorcer a coluna, destravar a base da cabeça e chacoalhar o cérebro, as ideias e depois de uma tontura violenta fazer a pessoa perceber o buraco em que se meteu. Havia um, desenvolvido décadas atrás depois do primeiro caso de envenenamento coletivo, mais restrito, controlado a duras penas juntando potências adversárias, mas está vencido. Agora o princípio ativo mutou, está mais forte, ativista, mais resistente.
É sempre possível encontrar novos caminhos, mas como achá-los enfrentando uma maré com uma ressaca daquelas? Haja ânimo. As ondas se revelam armadilhas que empurram muitas pessoas numa corrente firme, nos resta aproximar o barco, adentrar o oceano e ter muito fôlego para nadar contra a maré e trazê-las de volta à embarcação democrática, combalida por tiros de canhão que a fazem adernar. Precisa de reparos, porém como reconstruí-la para voltar a deslizar suavemente pelas águas? Temos que descobrir, ou melhor, redescobrir o país, relembrar o que alguém já dizia... navegar é preciso. Nunca foi tanto.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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