Sousa/PB -
bolha social

As cascas grossas​​​​​​ - por: Alexandre Lyra*

O fato dessas pessoas viverem em universos paralelos fez surgir a metáfora das bolhas para explicar esses processos sociais

Por Alexandre Lyra • Política

09/02/2026 às 15:20

Ads 970x250
Imagem As primeiras foram as ‘bolhas’ financeiras,

As primeiras foram as ‘bolhas’ financeiras, ‧ Foto: reporterpb

Tamanho da Fonte

Dias atrás um certo deputado promoveu uma longa passeata para pedir basicamente a liberdade de Bolsonaro. Até aí apenas mais alguns acordes do samba de uma nota só. As coisas, porém, não se desenrolaram exatamente como previsto porque no final caiu uma chuva forte e com ela veio um raio que feriu várias pessoas. Evidentemente que o episódio foi devidamente explorado, Deus estava do lado deles e blá blá blá. Sempre impressiona o grau de alienação envolvido, as ideias rasteiras que circulam entre os que participam desses eventos, tudo é superlativo, bipolar e absoluto, o bem e o mal, Deus e a liberdade, quando é básico que a liberdade absoluta serve principalmente a criminosos, mas a força da moral em territórios onde prevalece a educação precária é grande. Muitas vezes maior que a que a maior tese ou descoberta científica, e sempre tem alguém para capitalizar isso.

O fato dessas pessoas viverem em universos paralelos fez surgir a metáfora das bolhas para explicar esses processos sociais, como outros já ocorridos. As inofensivas bolhas de água e sabão se formam naturalmente com o uso dos detergentes ou aparecem como resultado do sopro de um canudo, num movimento proposital para diversão dos menores, crescendo facilmente e estourando assim também, sem ter um tamanho certo para isso, dependendo da habilidade do operador ou da sorte/azar em cada tentativa de formar uma bolha. Algumas dessas características fizeram com que elas fossem adotadas como analogias úteis para ajudar a visualizar crises financeiras e o advento dos grupos políticos extremistas.

As primeiras foram as ‘bolhas’ financeiras, devido ao componente especulativo geralmente contido em processos de crescimento econômico que ocorrem nas economias de mercado. Nas primeiras grandes crises foram principalmente as ações em bolsa e fundos de ações que se elevaram e depois despencaram, ‘estourando’ a bolha, já nas crises posteriores outros componentes se somaram a esses, como o setor imobiliário ou as empresas virtuais. A economia começa a crescer demais, estimulada por baixas taxas de juro e desregulamentação, gera um clima de otimismo excessivo que contagia a quase todos, que não ouvem os poucos que aparecem para querer estragar a festa tentando explicar os riscos devidamente ignorados. Vence a ilusão do ganho expressivo, que se torna perda num segundo momento. A fina membrana de sabão representa a fronteira entre a ilusão e a realidade, sutilmente separadas, até que a pressão da realidade vence e estoura a bolha.

Na economia, como na realidade social, não há milagres, embora alguns economistas tentem dourar a pílula, lustrando o brilho artificial das economias de mercado, que são feitas para negociantes profissionais se darem bem, diariamente às custas de trabalhadores na labuta ou eventualmente, de forma mais dramática, em oportunidades específicas como as grandes crises. Das primeiras crises para cá, o patrimônio financeiro da humanidade aumentou muito (está cerca de 4 vezes a produção real) e as autoridades monetárias passaram a acompanhar com mais cautela os movimentos dos ativos financeiros (https://www.scielo.br/j/nec/a/Tn53n6xsSgDmhbB3cFgL6Bh/?format=pdf&lang=pt), mas isso não é tão certo assim em algumas economias mais liberais.

De outro lado, mais recentemente as bolhas também passaram a ser usadas para explicar o isolamento dos grupos sociais frente à segmentação da informação da internet. O fenômeno da net diminuiu substancialmente a importância das mídias tradicionais, escritas e televisionadas, fazendo com que o mainstream tivesse alguma dificuldade em manter o status quo, particularmente em determinar a produção da moral predominante. Com a informação livre nos meios virtuais, muitas pessoas descobriram que estavam sendo manipuladas, e várias dessas passaram a ser manipuladas por pessoas que dizem não manipular, professando apenas mensagens libertadoras, que na verdade são discursos requentados de histórica intolerância social de alguma matriz. Como no caso econômico, também há ilusão aqui, já que ambos não querem se abrir para o mundo real, mais complexo, à volta.

As pessoas se instalam nesses grupos virtuais, se aconchegam entre si e se abstraem da diversidade humana possível lá fora, estranhado e repugnando comportamentos diferentes do que encontram na sua bolha de ar condicionado de um quarto pequeno. Essa bolha tem algo diferente das bolhas originais: uma crosta grossa, reforçada, a ponto de ser uma blindagem, só que ideológica. Diferentemente da bolha econômica, essa não tem prazo previsível para explodir, pode perdurar por muito tempo. É um manto invisível que bloqueia a reflexão mais básica, porque a pessoa tem todas respostas, ainda que as mais toscas possíveis, para suas limitadas perguntas. Antes das respostas, o problema são as perguntas, equivocadas, que precisam ser substituídas para que comecem a ver a inconveniência das respostas, e possa levá-las a furar a bolha para procurar informações diferentes das que conhece em lugares distintos.

O mundo encantado composto por pessoas semelhantes que reforçam ideias preconcebidas é um mundo quentinho, quase perfeito, infelizmente é muito difícil tirar pessoas dos lençóis macios dessa cama, desse sono profundo, porque o edredom que as envolve é uma casca grossa, pesada. Por esse prisma, a analogia da bolha fica inadequada, devendo ser substituída por algo como um casulo, ou um box blindado, para ser menos sutil, afinal as pessoas ficam paralisadas, presas e inacessíveis. O casulo tem uma crosta dura que permite o desenvolvimento da larva, um inseto em formação, mas a idade adulta é caracterizada pelo rompimento da membrana protetora, só que os adeptos de extremismos não se formam e estagnam, não rompem a casca. Um box blindado, por sua vez, é muito resistente, embora transparente, e ali se vê sem enxergar. As pessoas ficam hermeticamente presas e são presas fáceis de doutrinas morais historicamente simplórias e eficientes.

As questões morais são mais resistentes e complexas que as questões objetivas da economia. A economia tem suas crises de longa duração, mas elas são passíveis de resolução e abreviação por meios das políticas econômicas, já os movimentos morais não têm instrumentos objetivos e diretos de intervenção em sociedades modernas e democráticas. O problema pode persistir por muito tempo exigindo uma administração cuidadosa, diferente do menosprezo que frequentemente o fez gerar.

A humanidade avançou muito, mas não conseguiu trazer muitas pessoas para a contemporaneidade, afinal não é o consumo de coisas modernas que confere cidadania e sim a aceitação do modelo de convivência social. Ao contrário, algumas das coisas produzidas pela modernidade até contribuem para o isolamento e regressão social. Precisamos continuar tentando abrir a mente dessas pessoas com evidências, mostrando o que está na frente delas e não conseguem ou não querem ver. Talvez dizer que estão fazendo as perguntas erradas ajude, propondo outras, que podem ser como diamantes, afiadíssimos, para cortar essa grossa camada instalada de sentenças prontas e pontos de exclamação, como: os interesses e condutas individuais e coletivas dos líderes de extrema direita são compatíveis? Porque o outro não pode ser diferente, se isso não lhe diz respeito? Porque existem tantos criminosos cristãos?

A convivência no sistema democrático moderno é difícil mesmo e agora até sociedades mais desenvolvidas estão afundadas em contradições mal resolvidas que cresceram e apareceram. Uma delas é a produção dessas grossas cascas/casulos morais. Já não dá mais pra dormir com esse barulho, temos que discutir o problema, senão o estapafúrdio vai acabar nos engolindo.

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

Ads 728x90

QR Code

Para ler no celular, basta apontar a câmera

Comentários

Aviso Legal:Qualquer texto publicado na internet através do Repórter PB, não reflete a opinião deste site ou de seus autores e é de responsabilidade dos leitores que publicam.