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As elites mais chinfrins do mundo ​​​​ - por: Alexandre Lyra*

Elites deveriam ser segmentos da população que representam o melhor dela em algumas áreas ou para a sociedade como um todo

Por Alexandre Lyra • Política

04/02/2026 às 12:23

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Imagem A pobreza é sempre relativa

A pobreza é sempre relativa ‧ Foto: divulgação

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O ano começou acelerado com a notícia da prisão do presidente da Venezuela pelas forças militares dos Estados Unidos da América, o que desencadeou instabilidade não só na América do Sul como também no mundo, pois no embalo o presidente dos EUA voltou a reforçar sua intenção de se apossar da Groenlândia. Vários líderes se pronunciaram e começaram a se movimentar no sentido de articular alguma reação às peripécias imperialistas norte-americanas. Não as maiores patentes da direita local, que se apressaram em elogiar a prisão e lamber os sapatos de Donald. A qualidade dos grupos que têm despontado se propondo a conduzir projetos sociais pelo lado da direita se deteriorou muito, mas é o que temos para hoje.

Elites deveriam ser segmentos da população que representam o melhor dela em algumas áreas ou para a sociedade como um todo, e as elites políticas são as principais responsáveis pela condução da sociedade ao longo do tempo e pela interação com outros países. Grandes líderes deixaram seu legado histórico, associado a evoluções sociais significativas de certas nações, o que reflete visão e concepção acurada de seu tempo e do que vem pela frente. As piores elites políticas, ao contrário, são as lideranças que conseguem estragar o que começaram, podendo acentuar, ao invés de diminuir, uma condição de pobreza e submissão externa. Esses seriam parâmetros fundamentais num campeonato de ufanismo às avessas: qual seriam as piores elites do mundo?

A pobreza é sempre relativa, afinal as elites sempre escaparão dela, então o importante é considerar a distribuição de renda (DR), na qual o Brasil tem sido consistentemente um dos ganhadores do troféu ao longo de vários anos. Recentemente, por exemplo, um texto da Unicamp discutindo a DR quando considera o critério patrimônio, conclui que “a participação na distribuição de patrimônio dos 10% superior do Brasil é somente inferior à observada na África do Sul” (https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/05/29/um-pais-economicamente-desigual-e-injusto-a-escandalosa-distribuicao-da-riqueza-no-brasil/ ). A submissão, por outro lado, geralmente é bem disfarçada, mas a atual geração da direita conservadora no país assumiu sua defesa, levantando a bandeira norte-americana. Não se pode servir a dois senhores...

Mas sempre foi assim? Colocando em perspectiva histórica, vamos considerar apenas a fase mais recente para simplificar. No caso do Brasil, poucos governos apresentaram e procuraram implementar projetos de algum cunho nacionalista no século XX, e a maioria dos historiadores e economistas sérios identificariam apenas em Vargas a versão mais robusta disso, dada sua extensão temporal e seus resultados (em distribuição de renda e diversos outros indicadores e fatos, como a implantação do voto feminino). Ocorre que ele contou com a ajuda de uma janela de oportunidade que foi a segunda guerra mundial, que mobilizou os capitais internacionais. Jango tentou algo próximo num contexto de ‘normalidade democrática’ e as elites conservadoras, predominantes no país, conturbaram o processo e recorreram ao golpe de Estado.

Os outros governos, até o século presente, não conseguiram emplacar algum projeto soberano propriamente, que fizesse o país se destacar internacionalmente como gerador de tecnologia, com uma classe capitalista autônoma e pungente, gerando maior renda para a população, sendo referencial em educação e saúde (ainda que o SUS seja muito importante). Os governos petistas trouxeram um pouco de desenvolvimento socioeconômico, mas sem reformas estruturais fundamentais para dar algum caráter autônomo ao projeto, se conformando com políticas públicas correcionais. A marca da maioria foi o entreguismo em relação ao capital externo em alguma medida, e aí chegamos aos dias de hoje com o crescimento da extrema direita mundialmente, o que é um salto qualitativo involutivo inequívoco.

Em muitos países a direita mostra suas garras através de projetos ultra conservadores muito simples, tanto do ponto de vista econômico quanto social, mas sempre reivindicando um nacionalismo exacerbado para proteger da invasasão de estrangeiros. A direita radical local, por sua vez, prefere a submissão. O que antes era sutil agora é explícito, não esconde a vergonhosa falta de nacionalismo. É difícil competir. O que já se manifestava discretamente ao longo da história agora grita e temos a elite mais chinfrim do mundo, a que pede para os outros nos invadirem, a que pede para prenderem nosso presidente. Só vamos encontrar rivais à altura em nossos vizinhos, como o país que é liderado por um sujeito que se orgulha em ser mal-educado e uma outra que entrega um prêmio Nobel ao presidente dos EUA, mas mesmo assim os líderes sul-americanos não competem conosco por seus países terem relevância socioeconômica bem menor. Nenhum dos outros têm as dimensões nem as riquezas que temos, o que revela nossa significativa pequenez relativamente a nosso potencial econômico.

Os rumos da nossa nova elite conservadora apontam para uma radicalização do anacrônico. Desejam um país comandado por uma família que suprimiria ou seria superior aos outros poderes, cercada por uma elite agrária restringindo a produção do valor agregado da produção e de uma elite religiosa com tendências fundamentalistas. Seríamos algo como um neo/sub-império ocidental, que na essência seria um neocolonialismo pós-moderno. Enfim, qualquer terminologia não esgota o esgoto, posto o chorume que corre céu aberto. Acho que o título é nosso.

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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