09/09/2026 às 09:56
O território da política é um mar revolto ‧ Foto: Divulgação
O filme ‘A odisseia’ se destacou dos demais nas últimas semanas, levando um público maior às salas de cinema. É um épico clássico com efeitos especiais de ponta, e como tal, é satisfação garantida, desde que o diretor não perca a mão (o que foi o caso para um punhado de críticos relevantes). No meio de tanto mais do mesmo de terror ou animações gráficas, a estória grega dispara o nível do entretenimento esporádico. Numa parte da trama original, atravessando mares, Odisseu e a tripulação começa a ouvir o canto das sereias, que é irresistível e faz ouvintes pularem no mar atrás delas para depois definharem e morrerem. O canto é uma sedução extrema e um engodo. O território da política é um mar revolto onde nem sempre a mentira tem pernas curtas, basta ser repetida à exaustão que vira uma ladainha de sereia. Os vídeos podem ser um meio para combater elas, mas também já eram usados como extorsão, e hoje, há os artificiais, facilmente manipulados, que podem ser, eles próprios, mentirosos.
A campanha para as eleições 2026 vai mostrando as armas dos candidatos e seus respectivos ‘entornos’ mais ou menos engajados, entre os quais o principal: a mídia. A disputa adentra pelo horário eleitoral obrigatório, que hoje é mais eco do que corre nos meios digitais, nas redes sociais e nos corredores dos grandes veículos de comunicação, um tanto enfraquecidos, mas presentes. A população já foi apenas uma ovelha do grande pastor ‘global’, que pronunciando palavras medidas e divulgando imagens pescadas fisgava o cardume todo, colocava na rede (real) e entregava de bandeja os peixes para os clientes capitais. Com a virtualização da realidade, fontes digitais sem filtros alertaram a muitos que estavam sendo usados por pequenos grupos, sem perceber que boa parte delas também queriam fazer o mesmo, de outra forma. Foram despertados do sedutor canto da sereia, por outra...
É preciso tocar os sensíveis corações humanos com mensagens que alcancem seus desejos em algum lugar e alguns mais que outros sabem como chegar ao âmago do eleitor, para conquistá-lo e conquistar o poder. Uns fazem isso reforçando, apelando ao conservadorismo dos eleitores, seu universo, seu mundo subjetivo de princípios morais, o defendendo de supostas ameaças, frequentmente ameaçando os inimigos elencados. Outros enfatizam mais a velha e dura realidade objetiva, precária para a maioria, que precisa ser mudada, mas parecem meio ultrapassados num tempo pós-moderno onde a tecnologia dita o ritmo das ideias rápidas, simplórias, escorregadias, e o mercado cruel parece não ter alternativa.
O país que se deseja pode ser discutido, mas muitas vezes detalhes, deslizes e armadilhas parecem decidir a eleição com o voto de última hora de indecisos, e nisso muitos políticos preferem fazer as cabeças do que estimular a consciência crítica consistente para trabalhar com ela. A comunicação é o X nesse jogo baixo e os políticos tradicionais encontram novos pacotes para conteúdos retocados, continuando a capturar o eleitor médio com neologismos, gerando um ‘neoconservadorismo’ 4.0 a proteger a família de extrapolações nos costumes, mais claras com os avanços das políticas afirmativas e o designado ‘politicamente correto’. A paciência já era, é explícita a intolerância e a luta ficou mais agressiva do que nunca, incorporando mentiras acintosas, apoiadas por IAs e as famigeradas bolhas digitais.
Historicamente os compromissos da centro-esquerda para com a sociedade sempre foram maiores que os da direita, o que resulta maior cobrança moral. Quanto mais se pretende, mais tem para se cobrar, o que não é problema quando se tem para mostrar à sociedade, dentro da perspectiva ou kantiana do ‘não faça aquilo que não tem como explicar’. Estas concepções filosóficas também cabem na direita, mas não na direita tradicional oligarca, fisiologista e em extremismos, onde a direita recentemente caiu, se aproximando dos que ressaltam a pequenez e a capacidade desagregadora como essências humanas, bandeando para referências como Hobbes ou Schopenhauer. Para esses, o homem não presta e precisa de princípios e normas rígidas para conduzi-lo, como Igreja e Estado fortes e repressivos. A liberdade do discurso é pelo direito de reprimir o outro. E também para mentir...
A direita e a grande mídia sempre transitaram no debate institucional, mas por trás operavam abaixo da canela, lançando mão de manipulações, pequenas armadilhas, atuando no limite do alambrado, como versificam magistralmente Sá e Guarabira em ‘verdades e mentiras’, que embalou personagens de ‘Roque santeiro’ em Asa Branca, uma outra Sucupira a representar as cidades do país, pequenas ou grandes, afinal não foi no Estado de São Paulo que o então candidato Tarcísio declarou ‘de passagem’ no dia da eleição que uma facção criminosa (o PCC) teria orientado voto em Boulos e ganhou o pleito?
A extrema direita contemporânea, como se vê, levou esses recursos a outro nível, pulou o muro e escolheu a mentira como método, deixando qualquer escrúpulo de lado. Seus eleitores em parte têm a mesma natureza e acreditam que vale tudo para conquistar o poder, contudo uma outra fração só ouve o canto da sereia. Como um todo, compõem um núcleo duro de aproximadamente 25% do eleitorado, a partir do qual procuram mais associados entre insatisfeitos com o governo, conservadores clássicos e a old mídia, que sucumbe a essa lógica com seus escorregadios métodos para escolha e tratamento da pauta, resultando em constrangimentos presentes ou posteriores (como o fatídico power point da globo news tentando ligar Lula ao caso do banco Master).
Já a centro esquerda democrática, que tem seu núcleo duro de aproximadamente 30% do eleitorado, também parte desse para alargar seu espectro por meio de comunicação civilizada, tentando reforçar suas propostas. Sendo atacada, porém, tem que atacar, ainda que civilizadamente. Talvez não reste alternativa e deva assumir estratégias mais agressivas de vez. Na política não há inocência, o jogo sempre foi duro, pontuado por ameaças e mortes no processo, a diferença é que agora a violência é explícita, as armas de fogo estão à disposição de muitos grupos e a linguagem é rasteira. O contexto exige mudança de postura, mas como escapar à baixaria e às caneladas?
A esquerda foi adentrando pelo centro para conseguir chegar ao poder e hoje sofre com as consequências das concessões que teve que fazer, cedendo ao método das negociatas (corruptas) de políticos tradicionais. Ao não explicitar isso pecou por omissão, que é uma mentira calada. Se gabar pela narrativa correta com uma postura moral elevada pede fala convincente. Lá atrás o PT era oposição, podia jogar pedra a vontade, mas não é mais faz tempo, tanto que os jovens só o conhecem como vidraça. Precisa explicar como passou a adotar práticas que combatia e a ceder tanto nas composições com adversários. As composições são da política, mas essas não deveriam comprometer os métodos e objetivos maiores do projeto. O eleitor mais humilde entende assim. Como nesse processo não politizou o eleitorado, acomodado ao poder, não acumulou capital político.
O PT não conta com a mídia tradicional, que se vende como independente, mas sempre teve lado, e continua a insistir nas meia verdades, se equilibrando no limite da objetividade ao colocar sua pauta pinçada e sua versão dos fatos. O exemplo mais recente é a falsa equivalência da investigação das suspeitas do filho do presidente, vagas, com o envolvimento direto de Flávio B. com Vorcaro, primeiro negado, depois admitido e até hoje sem maiores explicações do destino dos milhões envolvidos (que não são apenas privados). Junte-se a cobertura das decisões e vazamentos seletivos nos ‘entornos’ dos ministros de Jair na suprema corte e está pronto o caldo. Os fakes de um lado vão continuar valendo (como os vídeos produzidos com IA associando o PT ao crime organizado) e do outro, verdades esclarecedoras permanecerão barradas (como o vídeo de Lindberg mostrando o histórico documentado das boas relações de Flávio com milícias).
As pesquisas têm evidenciado que o centro democrático só garante vitória com derrapagens flagrantes da extrema direita, que os eleitores não engajados nos dois blocos principais não perdoam. Depender dos erros do adversário sem dúvida é arriscado, ainda que a elite local dessa vertente demonstre certa incapacidade em processar seus erros, não abrindo mão deles, mas estão envolvendo o STF no processo, criando uma crise num nível inédito. É preciso dominar a comunicação para adequá-la à sua opção semiótica: verdade, mentira e/ou meias verdades. A direita se resolve bem em sua opção pelo fake, a esquerda escolhe a via mais difícil e correta moralmente, mas tem tido dificuldade em sustentar o discurso por ter perdido lugar de fala (se abraçando com políticos tradicionais). Não dá para enfrentar o inimigo? Explique melhor, o povo é sensível a essa incoerência, de modo que precisa ser claro escolhendo bem as palavras, que hoje têm de ser certeiras, breves, para colar. Faça isso enquanto o eleitor ouve um canto de sereias forte, bem próximo, ecoando por supremos corredores.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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