01/09/2026 às 07:34
Universidade Federal da Paraiba ‧ Foto: Divulgação
No artigo anterior expus a discussão em torno das despesas e da dívida da pública, demonstrando que há espaço para expansão dos gastos particularmente em países periféricos, mas é necessário mudar sua composição. Na semana passada foi anunciada a criação de 15 novos cursos na UFPB, entre capital e interior, sendo que alguns já vão iniciar em 2027 (https://www.ufpb.br/oportunidades/ufpb-tem-15-novos-cursos-aprovados-pelo-programa-universidades-transformadoras/). O maior gasto em educação pode ser considerado (em parte) investimento, na medida em que a qualificação da força de trabalho gera melhores resultados na produção e circulação de mercadorias, seja na forma de mais qualidade ou em produtividade propriamente, porém esse gasto deve passar por critérios mais rigorosos.
O investimento em educação pode ser feito nas esferas iniciais, intermediárias e finais da formação, todas elas etapas importantes. A universidade é o último elo do processo, e só nela há a pesquisa, elemento diferencial relevante, porém seu desempenho depende dos estágios anteriores, tornando as demais fases também significativas. Por um tempo, o foco governamental no ensino superior foi o aumento na quantidade dos formados, dada a defasagem nesse indicador, mas nas últimas décadas se tornou fundamental melhorar a qualidade propriamente, pois os processos produtivos acumulam inovações de forma acelerada e um aumento de produtividade expressivo.
A qualidade sempre deveria ser uma baliza, mas agora é crucial, temos que priorizar a qualidade, especialmente se temos em mente um papel relevante do país na divisão internacional do trabalho. Precisamos melhorar muito os indicadores de desempenho educacional e mudar a forma como a educação é vista. Os resultados em testes nacionais e internacionais só vão melhorar quando o professor for mais valorizado, quando alterarmos a forma de ensinar a ciência desde o ensino básico, deixando a forma convencional e protocolar, para adotar métodos e meios que a tornem mais interessante, ao mesmo tempo em que passarmos a cobrar mais a qualidade do profissional formado por meio dos ENADES.
Nossa tradição é de baixa leitura, cola, desrespeito a professores, comportamentos e atitudes que têm piorado nas últimas décadas. A valorização do diploma por sua vez, mais do que a formação do curso em si, tem diminuído, fazendo reduzir o interesse dos alunos pelas salas de aula. As boas oportunidades de trabalho têm minguado com a chegada de robôs e IA, encolhendo as expectativas dos estudantes, que não estão evoluindo como os pais em termos de renda. Eles já não associam anos de estudo a melhores oportunidades, mesmo os estudos confirmando a correlação existente entre essas variáveis (https://www.scielo.br/j/es/a/S4zzTrcT95THQFK8CvzmX4F/?lang=pt).
Ainda que a educação contribua decisivamente na formação cívica e de valores, seu retorno crucial para os estudantes, que pode ser adiado com a pós-graduação, é financeiro. Prova disso é o alto interesse dos candidatos pelo curso de medicina, que não é devido à vocação, mas apenas na colocação posterior no mercado. Isso não significa que a UFPB deva multiplicar as vagas do curso de medicina, ou criar mais desses cursos, mas que o ajuste ao mercado e às pretensões estratégicas do Estado devem ser os principais norte para expansão de cursos, e isso envolve uma articulação com toda estrutura econômica que se tem e que se quer ter. A educação é parte central do planejamento governamental.
Em 2007 o governo federal criou o REUNI, programa de expansão das universidades públicas e de seus cursos, paralelamente facilitou a criação de novas universidades e faculdades privadas, proporcionando aumento expressivo da quantidade de estudantes em nível superior, bem como os orçamentos das UFs (https://memorialdademocracia.com.br/card/expansao-do-ensino-superior). A política pública federal tinha, e pelo visto, continua tendo, bem mais objetivos quantitativos, dada a falta de correspondência com o mercado de trabalho. Excesso de oferta desconexo favorece não o graduando, mas o empregador, que tem argumentos adicionais para baixar os salários oferecidos. Deveriam ser feitos estudos de absorção de mão de obra no mercado para embasar a criação de novos cursos e universidades a fim de evitar a situação corrente de subempregados em ocupações aquém da qualificação, desempregados qualificados e queixas dos empresários em relação à qualidade dos profissionais formados.
A economia precisa crescer e distribuir vagas por várias regiões, desconcentrando os grandes centros e suas superpopulações disfuncionais, nesse processo os institutos de ensino superior devem ser chamados para atender às demandas de um crescimento planejado, articulado. A economia precisa da educação e essa da primeira, mas a economia é a base para uma estrutura educacional, não dá para achar que formando mais profissionais, sempre mercados serão criados por eles. O crescimento baixo da economia brasileira nas últimas décadas, sem transformação estrutural demanda uma igualmente baixa expansão de ensino superior, o que reforça a conclusão do último texto: cabe aumento nos gastos públicos, porém de forma mais criteriosa, já que recursos são preciosos.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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