Sousa/PB -
economia

Brasil: uma economia forte, mas travada -   por: Alexandre Lyra*

Há muitas reservas internacionais que garantem relativa estabilidade cambial, há respeito aos contratos que levam à tranquilidade jurídica

Por Alexandre Lyra • Política

13/07/2026 às 12:10

Ads 970x250
Imagem Economia do Brasil

Economia do Brasil ‧ Foto: Divulgação

Tamanho da Fonte

Há cerca de um mês discuti nesse espaço a economia argentina, aproveitando o ensejo do campeonato mundial que ora se desenrola e fazendo uma menção à situação do futebol dos nossos vizinhos, concluindo que sua economia estava ruim, ao contrário da situação brasileira, em que o selecionado nacional vai mal e a economia bem. Volto à questão, e mais especificamente à qualificação da economia brasileira, porque a conclusão merece um mínimo de detalhamento.

Podemos dizer que a atividade produtiva brasileira possui bons indicadores macroeconômicos principais, de modo a ser vigorosa e garantir certa estabilidade econômica para a população, empresários e investidores em geral nos próximos 2 ou 3 anos (excluindo a ocorrência de algum fato novo relevante). Há muitas reservas internacionais que garantem relativa estabilidade cambial, há respeito aos contratos que levam à tranquilidade jurídica, há crescimento lento do endividamento público com respeito à capacidade de pagamento dos compromissos, há estabilidade nos preços combinada com produção farta de grandes safras, há crédito para todos segmentos de consumidores e ofertantes, de curto e longo prazo, etc. Enfim, há uma série de indicadores que corroboram com boas expectativas conjunturais de curto-médio prazo, às quais podemos acrescentar formação estrutural razoável que dá sustentação a essas informações. Com ressalvas.

O diagnóstico positivo da economia brasileira é suficiente para manter um crescimento residual do PIB, e isso significa que estacionamos numa condição econômica razoável, mas que os problemas/pendências estruturais travam o desenvolvimento de médio longo prazo, o que pode ser visto por alguns indicadores que mostram a inviabilidade de qualquer salto de maior fôlego da economia. Falo principalmente da excepcionalmente alta taxa de juros praticada, da estrutura fundiária ainda concentrada, da capacidade instalada da matriz energética, da bancada conservadora/fisiologista/patrimonialista no congresso, do orçamento secreto, entre outras sinucas de bico.

Tudo isso é sintetizado na baixa expressão do capital nacional frente ao capital externo, na desindustrialização do país e em sua ausência na pesquisa e produção de ponta nas vertentes da nova economia digital, que geram dependência tecnológica. Esses dados engessam o país numa condição socioeconômica intermediária de alta desigualdade de renda, de oportunidades de trabalho e salários limitados de um lado e insatisfação também do lado empreendedor pela deficiente infraestrutura disponível, pelo nível de impostos e outras restrições à iniciativa empresarial.

Estamos bem melhor que a Argentina, mas estamos bem atrás de qualquer economia minimamente desenvolvida. O que compõe o lado forte da economia decorre de esforços feitos no passado, insuficientes, que necessitam ser complementados, porém não há espaço para novos esforços estruturais na contemporaneidade em razão dos elementos colocados acima. Investimentos estruturais são elevados e o orçamento público está sufocado por juros altos e emendas impositivas/PIX. O diagnóstico é estrutural, mas todas concepções políticas, das mais às menos liberais, devem apresentar suas propostas para a saída desse xeque mate que está sufocando a economia há décadas. Conseguimos nos livrar da superinflação no fim dos anos 1990, das obrigações com empréstimos externos na década de 2010, mas entramos e adernamos nos empréstimos internos, também a altos juros, que agora podem ser administrados, sem haver, contudo, nenhuma iniciativa de qualquer governo para enfrentar o capital financeiro, que é transnacional.

É necessário propostas e ação para os sistemas econômico e democrático dar respostas à sociedade e essa não tergiversar para soluções demagógicas, fantasmagóricas e simplórias do passado que resultam apenas em regressão política e social sem resolver nada. Estamos desperdiçando a relativa boa conjuntura para dar mais um passo maior necessário e se acomodando a uma situação que tende a apresentar algum problema no médio prazo por falta de encaminhamento às questões estruturais. Que nosso futebol esteja ruim e a CBF não consiga articular um bom projeto para a seleção nacional é emblemático do todo maior onde ela está inserida. Um time esportivo capenga dá para suportar, mas uma economia que não consegue sair da condição periférica, não, e o time da população brasileira tem que mudar o jogo para reverter esse empate frustrante dentro do tempo regulamentar da política.

 

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

 

Ads 728x90

QR Code

Para ler no celular, basta apontar a câmera

Comentários

Aviso Legal:Qualquer texto publicado na internet através do Repórter PB, não reflete a opinião deste site ou de seus autores e é de responsabilidade dos leitores que publicam.