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A quadratura da bola murcha de Flávio​​​ Por: Alexandre Lyra*

De fato, não haveria, se os valores mencionados fossem muito mais modestos, e se o ponto fosse exclusivamente esse, mas não é

Por Alexandre Lyra • Política

20/05/2026 às 17:26

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O pré-candidato da extrema direita pisou na bola. Seu esquálido futebol de resultado, baseado no chute das canelas alheias, foi surpreendido por uma (notícia) voadora que desmantelou seu esquema tático. De novo, como se fosse novidade. O lance foi um áudio com um pedido de dinheiro seu ao maldito da hora, Daniel Vorcaro, para pagar ‘custos’ de um filme sobre o pai, ex-presidente condenado por tentativa de golpe. O próprio admitiu e disse não haver problema numa transação de ordem exclusivamente privada. De fato, não haveria, se os valores mencionados fossem muito mais modestos, e se o ponto fosse exclusivamente esse, mas não é.

O volume de dinheiro solicitado por Flávio ao banqueiro agora preso é significativo. É muito superior a orçamentos de filmes comerciais expressivos: seriam 134 milhões de reais no total, sendo 61 relativos ao pedido específico do áudio e 2,3 já repassados para a empresa realizadora do projeto (https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/13/flavio-bolsonaro-pediu-dinheiro-de-vorcaro-para-filme-sobre-o-pai-mostram-mensagens-divulgadas-por-site.ghtml  ), mas trata-se apenas de um filme encomendado sobre a vida de Bolsonaro. A apuração do fato está em andamento, os realizadores dizem que não receberam sequer o valor que a receita federal detectou com seus instrumentos de investigação financeira, o que apenas reafirma as suspeitas de que o alto orçamento de filme só pode ser explicado porque o dinheiro teria outras destinações; indevidas.

Os recursos seriam ou para financiar a dispendiosa estadia do irmão deputado nos EUA, ou para abastecer a campanha do próprio Flávio, ou para as duas coisas. O clássico caixa dois agora em versão cinematográfica. E como nada que está ruim não pode piorar, acabou de ser lançado um outro filme sobre o pai recentemente condenado de ambos (https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2026/05/15/documentario-sobre-bolsonaro-estreia-com-sessoes-vazias-exalta-ex-presidente-ignora-michelle-e-omite-derrota-e-tentativa-de-golpe.ghtml ). A conjuntura não ajudou, mas as salas vazias ecoam a qualidade sofrível da película, que não se sabe até agora quanto custou, por acaso...

O episódio estremeceu os pilares da postulação do herdeiro mais velho do golpista mor, porém as interpretações variam. Ha quem diga que foi fatal, outros preferem não arriscar, apostando num desgaste intermediário, e há os que afirmam que os danos são mínimos. Há argumento para todas leituras, mas sempre considerando que elas se referem a apenas um percentual menor dos que intencionam votar na extrema direita, pois a maioria de seus aderentes está comprometida com a causa espúria até o pescoço e não volta atrás por nada, geralmente porque tem noção do disparate em que se enroscou e não aguentaria o tamanho da vergonha. A volta para a complexa realidade é sempre bem-vinda, mas é difícil.

Alguns decisivos eleitores abandonariam a família ungida porque tudo tem limite, e um desses limites é a corrupção, tema importante em qualquer agremiação política, mas sagrado no fascismo. Armas, violência, truculência, desprezo para com a saúde de terceiros, tudo pode ser relativizado, menos a corrupção. Tenho dúvidas em relação a isso, pois o postulante à presidência em questão tem em seu currículo um histórico de ‘rachadinhas’, cujos objetivos também são os mesmos: enriquecimento ilícito ou caixa 2, aqui numa versão tradicional. Também se sabe de sua loja de chocolate extremamente ‘rentável’ e do impressionante patrimônio construído por ele, só menos conhecido do que sua capacidade de se desviar desses assuntos e escapar de processos associados a esses calcanhares. Muitos eleitores seus acham que é assim mesmo, tem que aproveitar a hora para acumular riqueza indevidamente.

O certo é que o ocorrido desagradou muito as elites comprometidas com a direita, que detém praticamente o monopólio dos grandes veículos de comunicação no país. A consciência do eleitorado depende em grande parte dos esclarecimentos prestados pela grande mídia, da pauta selecionada por ela e principalmente da forma como é colocada e interpretada, além da repercussão em outros veículos de massa relacionados, como as igrejas politizadas e seus líderes vociferantes. O ideal é uma explicação razoável para o episódio, mas isso parece tão provável quanto a demonstração da quadratura do círculo. As informações adicionais que vão surgindo só complicam o imbróglio, como uma casa comprada no Texas pelo advogado de Eduardo Bolsonaro ( https://www.infomoney.com.br/politica/fundo-de-advogado-e-aliado-de-eduardo-bolsonaro-comprou-casa-em-cidade-em-que-ele-vive-nos-eua/ ).

O que vai decidir a manutenção ou a mudança da candidatura no campo (pseudo)liberal são as pesquisas eleitorais que começam a sair, pois só elas dimensionam melhor o tamanho do estrago. Os primeiros levantamentos apontam perda de cerca de 7 pontos percentuais perdidos nas pesquisas (https://www.cartacapital.com.br/politica/efeito-vorcaro-flavio-bolsonaro-despenca-e-ve-lula-abrir-vantagem-mostra-atlas/ ), um impacto razoável, mas a mídia predominante já não toca no tema. A memória dos brasileiros é curta, alguns, que não assistem nada de propaganda eleitoral, podem esquecer, porém uma parte do estrago é definitivo, dado a proximidade das eleições. Em última instância, seja quem for o candidato conservador escolhido, estará associado ao episódio, e o banqueiro ainda nem abriu a boca...

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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