18/05/2026 às 09:23
Jovens e Velhos ‧ Foto: Criação de IA
Algumas ilusões estão nas bases das organizações sociais, uma delas é a de que os jovens são naturalmente transgressores e tendem a querer mudar radicalmente convenções sociais e costumes, mas se fosse assim, a sociedade viveria sob constante tensão, o que nem sempre ocorre. Na realidade, as forças conservadoras são potentes e atuam também nesse segmento etário, contendo o eclodir de muitos hormônios. Sua inquietude pode ser uma fagulha para contaminar o resto da sociedade, mas é um equívoco depositar anseios de mudança social apenas nos mais novos, porque entre eles há revoltados, conformados, reformistas, conservadores, entre outras variantes, ainda que historicamente se observe algum predomínio no primeiro grupo. Se queremos mudança social, todas faixas de idade têm de se mobilizar e se envolver no processo de mudança, então tiremos esse peso das costas deles.
Pesquisa realizada recentemente mostra que há um percentual da população no país que acredita na necessidade de mudanças radicais no país a ponto de precisar de uma revolução, mas essa revolução seria de direita, ou seja, cerca de um terço da população está convencida que precisamos de mais liberdade, social e econômica, e que temos restrições do Estado que travam o progresso social (https://iclnoticias.com.br/fernanda-melchiona-dados-revelam-um-pais-em-disputa-aberta/ ). Dentre eles, muitos jovens. Essa perspectiva foi capturada pela extrema direita no mundo e no Brasil, onde ela está imbricada com as milícias de maneira assumida, já que há discursos de seus principais líderes enaltecendo milicias ( https://www.intercept.com.br/2019/01/22/bolsonaros-milicias/ ) e milicianos ( https://blogs.oglobo.globo.com/bernardo-mello-franco/post/em-discursos-bolsonaro-ja-exaltou-milicias-e-grupos-de-exterminio.html ), ou seja, estão pensando em entregar a defesa da liberdade para apoiadores de organizações criminosas.
Indo além, a contemporaneidade atingiu o paradoxo em que essa parte da sociedade acredita que os problemas socioeconômicos vão ser resolvidos por quem os causa: o mercado. O capital tem conduzido os destinos das economias de mercado, tanto nos países centrais como nas periferias, sendo que aqui as regras são diferentes, cabe mais liberdade de ação para exploração e um certo caos social com escalada de segmentos criminosos. O mal funcionamento do Estado se deve ao aprisionamento dele por grupos dominantes diversos que fazem ele funcionar para manter seus privilégios, e ainda convencem a sociedade de que temos que ter mais mercado. Criam a insegurança, porque essa é consequência da má gestão do Estado na área, para ter mercado de segurança privada. Nas comunidades mais carentes a ‘segurança’ vem com a milícia. A bandidagem conseguiu capturar a revolta de parte da população.
A sociedade como um todo tem menosprezado a seriedade do problema, elegendo crescentemente pessoas que prometem mundos novos mas se comprometem com marginais. A Paraíba, tão pacífica um dia, quem diria, está consolidando seu papel no mapa do crime organizado a ponto de merecer matéria no fantástico no último domingo (https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/05/10/cabedelo-paraiba-destino-turistico-e-tomado-pelo-crime-e-vigiado-24-horas-por-cameras-instaladas-por-bandidos.ghtml ).
No caso brasileiro contemporâneo, se a condição de vida e as oportunidades de trabalho são precárias para os jovens, a quem recorrer? A desilusão em relação ao quadro atual decorre principalmente da pouca entrega do governo petista atual, particularmente em relação aos mesmos governos petistas de anos atrás. Os jovens não têm mais as perspectivas que tinham até pouco tempo, agora as oportunidades de emprego são precárias e há muito endividamento, mas a sociedade contribuiu para a dificuldade do governo em encaminhar os problemas elegendo um congresso de maioria oposicionista conservador/reacionário/liberal. Nesse contexto, as respostas no sentido da radicalização do mercado têm conquistado corações, isso porque há uma rendição ao mercado, à sua hegemonia. Se não pode enfrentar o inimigo, se junte a ele.
Em vários países centrais ocidentais e outros orientais, porém, o mercado é forçado a conviver com restrições aos seus abusos, e não há caso de sucesso econômico baseado em liberação econômica maior. Isso é coisa de tempos remotos de exploração muito maior dos trabalhadores. Hoje os capitais fazem pressão, mas geralmente são detidos nas economias centrais. A China é mais radical nessas limitações, por um lado o partido comunista manda, e por outro, admite o capital privado, mas mediante condições (principalmente o repasse do know-how e observação contínua da economia pelo governo), que a permitiu desenvolver capital local, e hoje ela pouco precisa do capital estrangeiro. Esse ponto faz toda diferença.
Nem a juventude necessariamente é rebelde, nem o envelhecimento, como diria Nelson Rodrigues, resolve o problema. A juventude às vezes é contestadora na história, mas isso é resultado de um contexto específico, resta ter as condições para haver predomínio da inquietação, não é o envelhecimento que muda as pessoas, e sim a reflexão crítica e consequente. Entre os mais velhos há mais simpatizantes da esquerda no Brasil, contribuindo decisivamente para isso a memória dos bons governos petistas recentes, quando eram jovens, e aí temos o paradoxo dos jovens conservadores e mais velhos progressistas. O fato é que o atual governo petista não tem despertado muitas paixões porque não tem estado à altura dos desafios periféricos, estancou as transformações e sustenta a reedição de políticas públicas compensatórias. A sociedade precisa e quer mais que isso. Mesmo a conservação de um progressismo tímido é insuficiente. Cada momento histórico tem suas demandas e as expectativas aumentam com o tempo.
De engano em engano, de ilusão em ilusão, o país do futuro vai ficando para trás, no passado. Um país que era predominantemente jovem vai ficando mais velho e conformado em sua inquietude irresponsável à direita ou no progressismo limitado e conservador. Muitos das gerações mais novas estão desiludidos pela situação concreta e caem no conto da informação desvirtuada, como várias outras gerações anteriores, com promessas de soluções fáceis. Mudar mesmo exige encarar as coisas como são, um tanto complexas, e é preciso um certo esforço cognitivo para isso, que muitos abdicam, para entender que há necessidade de projetos de nação de longo prazo guiados pelos interesses nacionais, seja de que matriz política for. O inconformismo pode brotar em qualquer faixa etária, mas tem de contaminar a maioria da sociedade de forma consistente para transformá-la. Jovens e velhos, uni-vos na construção de um projeto autenticamente nacional, amplamente discutido democraticamente.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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