04/05/2026 às 12:49
advogado ‧ Foto: divulgação
Alguns disseram que era esperado, outros que não era uma certeza, muitos apostaram no lógico que estava acordado, outros tantos estranharam e a maioria concluiu: o negócio azedou de vez. O certo é que a indicação do advogado Messias para uma vaga no STF foi um marco, afinal depois de mais de 100 anos um nome ser rejeitado pelo senado, é por si, excepcional. Lula apertou a mão do centrão e o centrão foi confraternizar com os neofascistas.
Faz pouco tempo que esta escolha do presidente, que mescla um componente de notório saber jurídico com um elemento político, tem se inclinado mais para este último. Uma pista disso é a diminuição da idade dos indicados, pois é esperado mais saber com a experiência entre os que rumam pelos campos da sensatez. O governo passado radicalizou na proposta e transformou seus indicados em representantes do governo na suprema corte. Uma aberração. Lula, vendo isso e lembrando que alguns de seus indicados anteriores votaram por sua condenação, resolveu carregar na confiança política e pessoal como critério decisivo. Estava dando certo, até que os ânimos ficaram acirrados por certos eventos, o custo da operação ficou alto demais e o governo não conseguiu cobrir a aposta.
A suprema corte existe para zelar pelos princípios maiores da sociedade, que estão consolidados na constituição da república, e seus componentes devem ser referências da área jurídica, pois são a última instância jurisdicional. Ocorre que, sendo a principal de poucas alçadas com influência política oficial (as outras são STJ, TST e TSE), é afetada pelo ambiente político, que na periferia frequentemente é contaminado pelo inverso: o que há de pior na sociedade. Uma contradição específica dentro da contradição maior. A disputa política geralmente é dura quando a sociedade tem alto nível de exclusão social e pobreza, a elite quer se perpetuar no comando dos destinos da nação mesmo não encaminhado soluções para os problemas socioeconômicos por séculos, mas consegue se desviando da responsabilidade histórica e apontando outros culpados, imaginários, continuando a se apropriar da esfera pública para fazer por meio da política, mais negócios e aumentar patrimônio.
A derrubada do nome indicado por Lula, passou pelas mesmas politicagens às quais Lula está acostumado e tem se submetido desde que assumiu pela segunda vez a presidência, já que na primeira tinha maioria no congresso e precisou descer a esse nível poucas vezes. Provavelmente havia um acordo e foi traído pelo maior bloco de congressistas, o escorregadio/fisiologista/oportunista centrão, pois um presidente não pode arriscar ganhar por um discurso irretocável do indicado e convencimento dos senadores, ainda que o discurso de Messias tenha sido muito conservador: isso já era esperado para agradar a numerosa da oposição. O caso é que, mesmo sendo evangélico, era tido como nome de confiança do presidente, ou seja, Lula bancou algo que poderia ter sido resolvido com alguém menos ligado diretamente a ele.
A participação de integrantes da suprema corte nessa pá de cal é uma hipótese bem complicada que alguns estão colocando naturalmente. Alguns ministros também estariam sendo movidos pelo vil metal, uma vez que interesses maiores seus precisavam ser preservados da investigação de escândalos mais recentes (leia-se caso master), o que exigiria um nome que passasse pelo crivo deles. Torço para que isso não seja verdade, até porque as informações divulgadas não envolvem ilegalidades, mas suspeitas foram levantadas sobre aqueles que deveriam estar acima de qualquer suspeita, e são aproveitadas por pessoas de caráter bem abaixo da média.
Membros do supremo não devem dar pano pra manga, mas infelizmente há uma predominância de famílias no direito, ramo que lida com altos valores, e muitos indicados vêm delas, trazendo um rastro de negócios diversos. Não é à toa que Mandeville começa a elencar os degenerados em sua fábula com os advogados... O supremo prestou um serviço inestimável à nação processando e condenando os participantes da tentativa de golpe militar recente e do evento da depredação das sedes dos 3 poderes, mas não fizeram mais do que sua obrigação: zelar pelas instituições. Espero que continuem à altura do cargo, mantendo a estabilidade política e social nacional.
Em suma, o governo mediu mal seu cacife e um evento que normalmente é secundário na vida pública, tornou-se central. Lula se acostumou com o jogo rebaixado da politicagem, do balcão de negócios e confiou em quem não podia confiar, afinal o que esperar de quem se move basicamente por recompensas financeiras? Esses querem sempre mais, e assim, cedendo a esse povo, o presidente construiu um congresso monstro, que comanda parte significativa do que sobra para ser administrado pelo governo depois de pagas suas diversas obrigações. Analistas ponderados têm dito que só resta a Lula partir para o enfrentamento, declarar guerra, mas qual a credibilidade de uma atitude dessas vindo de alguém que só quis conciliar? É uma tentativa, mas me parece um tanto desesperada a poucos meses da eleição.
Assim ele retomaria o caminho que deveria ter trilhado desde o começo, defendido por vertentes internas minoritárias de seu partido: fazer política de qualidade para discutir os problemas concretos e estruturais do país, chamando o povo para as ruas, pautar grandes causas, transformadoras, que precisam ser colocadas para o Brasil sair da condição periférica, que exclui sistematicamente milhões e condena a maioria à pobreza. Na primeira vez que chegou ao poder, Lula estava com a faca e queijo na mão, mas perdeu as condições ideais para fazer isso, agora as administrações petistas estão desgastadas por décadas de gestões conservadoras e conciliadoras, como convencer a sociedade que quer realmente mudar a realidade? Como reconquistar a credibilidade perdida?
O percentual da população que se inclina para propostas contra o sistema cresce lentamente a ponto da defesa da democracia e políticas públicas pontuais não vão garantir vitória. O povo está desesperado e agora o governo também está ficando... quem sabe se encontram? Há, porém, um problema nesse raciocínio: desespero não é bom conselheiro, leva a atitudes estabanadas. Mudemos a analogia: seria uma tempestade, algo que envolve alguma previsibilidade, há uma noção das proporções do perigo, parâmetros de ação, e somos forçados a tomar providências concretas para sobreviver, de modo que há um certo controle dos danos e costuma resultar em algo produtivo, com superação parcial dos problemas. Tempestades destroem muito, mas se salva, o desespero desnorteia.
Uma das principais críticas, correta, que a esquerda faz à direita é que ela não pode externalizar suas reais intenções, pois são contra o povo. O petismo, no entanto, também incorreu nessa falha na medida em que não disse ao povo que seus projetos eram mais pretensiosos e tiveram que ser contidos em nome de uma governabilidade possível, no fim se orgulhou tanto de seus governos ‘possíveis’ que todos ligaram eles à concepção de governo do PT. Um rompimento com o status quo que participou e participa tem de ser muito bem articulado para ser absorvido pela opinião pública, particularmente pelos que oscilam entre um lado e outro do espectro político. O povo tem de ver o governo saindo da tempestade inteiro e integro, sem desespero. Arranhado, mas altivo. Disposto a se reconstruir para começar um novo capítulo.
O episódio é um marco de um processo já iniciado, marcado pelo rompimento dos tradicionais acordos pelos conservadores, e transição desses para um protagonismo via legislativo, deixando a eleição para essa esfera mais importante do que tem sido. As trovoadas devem continuar até outubro, com tendências à intensificação. É momento de equipar bem os barcos para a travessia, orientar bem a tripulação para operar com precisão e coordenação os instrumentos de navegação. O governo tem de aplacar o desespero das pessoas que simpatizam com neofascistas e mostrar que há uma tempestade a ser superada com determinação, e que para isso precisa não só de um bom timoneiro, mas de toda uma equipe de auxiliares e congressistas para dar conta do desafio.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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