28/04/2026 às 13:04
Dolar ‧ Foto: divulgação
Nos últimos dias o preço do dólar ganhou destaque no noticiário econômico brasileiro por ter caído abaixo de 5 reais (https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/04/17/dolar-ibovespa.ghtml ). Hoje se comemora a ultrapassagem dessa barreira, porém o dólar chegou a custar 0,98 reais em alguns momentos entre 1994 e 1998 ( https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2022/03/29/real-ja-valeu-mais-que-o-dolar-veja-maiores-e-menores-cotacoes-da-historia.htm ). Como pode a cotação de uma moeda variar tanto? Qual é o real preço do real em termos do dólar
A cotação das moedas estrangeiras (divisas) num país é resultado de um mercado, o mercado de divisas, onde o valor de uma moeda (local) é dado em termos de outra moeda (internacional). O valor das divisas depende das quantidades ofertadas e demandadas dessa moeda no país, sendo que os maiores ofertantes são os exportadores, que recebem em dólar, seguidos dos turistas estrangeiros no país, que trazem dólares e precisam convertê-los para pagar os custos diversos da estadia. De outro lado, os principais demandantes são importadores e turistas brasileiros, que precisam de dólar para comprar mercadorias fora do país.
O dólar ainda é a principal moeda usada nas transações internacionais, porém estamos em um momento de transição em que países (principalmente emergentes) intensificam suas compras de ouro (https://neofeed.com.br/negocios/na-nova-corrida-ao-ouro-os-paises-emergentes-puxam-a-fila/), mudando qualitativamente a forma de acumular reservas e iniciam preparativos para adoção de uma moeda alternativa nos BRICS (https://www12.senado.leg.br/tv/programas/agenda-economica/2024/11/paises-dos-brics-discutem-a-adocao-de-uma-moeda-comum-para-realizar-comercio-sem-o-dolar ).
Ocorre que o mercado de divisas sem interferências é susceptível a flutuações significativas, de maneira que os governos geralmente colocam limites na sua variação, atuando na oferta ou demanda, para garantir cotações máximas e mínimas de divisas (caracterizando o regime das chamadas bandas cambiais). Nesse sistema, muito adotado no mundo, o governo precisa ter reservas de divisas para atuar no mercado, e quanto mais tiver, mais cacife tem para dar mais estabilidade à cotação. Alguns governos, entretanto, preferem seguir a orientação neoclássica (liberal), que indica intervenção mínima possível no mercado, permitindo variações maiores para o mercado se ajustar, mas assim, negócios podem deixar se ser realizados por essas variações na taxa de câmbio e instabilidades consequentes.
Além dos fatores econômicos, há componentes de ordem política e estrutural que também influenciam o custo do dólar num país. Cada dólar exportado por um país periférico envolve uma quantidade bem maior de mão de obra desqualificada, enquanto o dólar exportado pelo centro tem mais investimento e tecnologia. As periferias atuam em mercados de alta concorrência, com suas mercadorias mais simples e baratas que muitos ofertam, e nesse contexto o câmbio desvalorizado é aliado importante, enquanto o centro oferece mais mercadorias diferenciadas, que independem de taxa de câmbio para serem atrativas.
Além da balança comercial, há a balança de serviços, que mostra o movimento de empréstimos (seus juros e amortizações) e royalties, que nas periferias é significativamente deficitário, pressionando a cotação para a desvalorização. Quando a dependência financeira externa é alta, o volume de pagamentos de serviços de juros e amortizações correspondentes à dívida externa também é elevado, forçando o país a obter dólares via exportações. O Brasil já esteve nessa condição por muito tempo, mas resolveu esse ponto, saldando sua dívida externa na segunda década dos anos 2000. O envio de royalties, porém, continua.
A estabilidade política também afeta o mercado de divisas, pois há uma interação direta da concepção e do projeto político com a economia. A cotação cambial é impactada por turbulências políticas. Os negócios, como um todo, se beneficiam da estabilidade, e instabilidades afetam a cotação, o que está acontecendo nesse momento com a moeda norte-americana. A gestão predatória de Donald pode estar gerando lucro para setores específicos nos EUA, porém em geral a economia está perdendo mercado com as atitudes intempestivas do líder alvoroçado. Seus parceiros comerciais tradicionais são estimulados a buscar outros países para contornar a imprevisibilidade preferencial norte-americana, e isto está derrubando a cotação do dólar em todo mundo. É um movimento político conjuntural que só poderá ser revertido numa próxima gestão mais equilibrada, que terá que correr atrás para recuperar os mercados perdidos.
Internamente, as reservas brasileiras de dólares estão muito altas, são mais de 350 bilhões de dólares (https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/reservasinternacionais ), o que já levou alguns economistas e políticos sugerirem usar uma parte, menor, para propósitos específicos, seja abater a dívida interna ou para realizar investimentos estruturantes ( https://www.cartacapital.com.br/economia/ciro-e-pt-defendem-uso-de-reservas-bilionarias-para-retomada-economica/ ). A venda de dólares no mercado de câmbio, por sua vez, permitiria ao governo baixar a cotação do dólar, trazendo-a para um nível, real, menos desvalorizado, já que essas reservas decorrem de acumulação recente de divisas, decorrentes de bons resultados comerciais seguidos no passado. A taxa de câmbio de mercado nacional está desvalorizada excessivamente, seu nível real envolve alguma valorização da moeda local, e vender parte das reservas só ajudaria a aproximar desse valor real. O país não precisa mais depreciar tanto o câmbio para atrair capitais ou estimular exportações, ademais, os capitais devem vir apenas em condições favoráveis para o país (deixando tecnologia).
As exportações pouco seriam afetadas por essa valorização, uma vez que a taxa de 5 para 1 é muito elevada e dá muita vantagem comercial, em parte artificial, a produtores locais. Alguns poucos iriam perder mercado, mas uma taxa de câmbio menos desvalorizada estimula o desenvolvimento técnico do país, melhorando a competitividade do país em setores mais avançados. Os cidadãos brasileiros teriam uma moeda um pouco mais forte, o que apenas refletiria a economia um pouco mais robusta do presente século. Seria um incentivo para continuar no processo de melhora estrutural para sair da condição periférica adiante. Um pequeno passo dessa humanidade para encarar a caminhada mais dura, a travessia para uma economia mais produtiva e competitiva em itens tecnológicos que beneficiaria mais seus cidadãos do que os estrangeiros com o envio de mercadorias predominantemente primárias mais baratas.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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