
17/09/2026 às 06:39
Olá amigas e amigos deste nosso programa, que hoje se vale da chamada "sétima arte" para saudar as mulheres indígenas que se propõem a filmar o mundo. É o caso de Larissa Tukano, protagonista de uma programação muito especial que acontece hoje a partir das 14 horas, 2 da tarde, na 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Falo do lançamento de duas publicações sobre o cinema nacional indígena. A primeira: Ler o Vento, Filmar o Mundo; e a segunda: Diretrizes para um Audiovisual Ético com Povos Indígenas. Bem-vinda, Larissa Tukano!

Mara Régia, muito obrigada por estar aqui. Estamos aqui representando as mulheres indígenas do mundo do cinema. 92 mulheres, né? E aqui no festival vamos participar em quatro mulheres, né: a Bárbara, Moara, Larissa, Mari Corrêa, pra trazer as vozes das mulheres indígenas de todos os biomas do Brasil, 40 etnias, né, trazendo as nossas realidades, as nossas vidas, as nossas vozes através do nosso livro, que é resultado coletivo, que não tá morto, ele tá em construção e é vivo, né, palavras vivas.
Com a palavra, né? E eu queria saber: de onde é que vem essa inspiração e de que forma essas mulheres indígenas, principalmente as que trabalham com o cinema, leem o vento?
O vento traz muitas coisas boas, né: dá sinal de chuva, do verão... E a gente acompanha através de constelação, né? A estação do ano, o ciclo da natureza... Então, só quem vive mesmo essa realidade no seu território acompanha o ritmo tanto da comunidade, tanto da natureza, tanto da sua vida. A mulher que está lá na comunidade, que está aí na retomada, que está aí na cidade, que é de outros países, né, trazendo sua cultura viva — seja ela no cuidado com a família, no cuidado com a organização da comunidade, nas lutas dos territórios e direitos dos povos indígenas —, ela sempre está aí viva, somando também junto com o homem, mas muitas das vezes invisibilizada. Então, estamos aqui trazendo esse ponto de vista, um outro ângulo das mulheres também.
Bem, sabemos que a publicação Ler o Vento, Filmar o Mundo apresenta dados inéditos que revelam não só a presença, mas a desigualdade marcada por barreiras quase que intransponíveis, como é o caso do preconceito, da discriminação... E como bem exemplifica Mari Corrêa, ela é cineasta, fundadora do Instituto Katūtu Aldeia em Cena (com sede em São Paulo) e coordenadora da Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas Katahirine. Mari, sabemos que na leitura da publicação Ler o Vento, Filmar o Mundo, dados inéditos revelam presença e desigualdade. E eu queria que você exemplificasse essa desigualdade com exemplos.
O que a gente observa — e o mapeamento deixa claro — é que em todo o processo do audiovisual, desde a formação, passando pelas produções, né, pela criação audiovisual e o acesso às políticas públicas, a participação das mulheres como um todo, né (mulheres indígenas e não indígenas), é muito menor do que a dos homens. São os homens que ocupam, na sua maioria, os espaços onde se decidem coisas, né, onde se decidem como o filme será feito, quem faz o roteiro, quem dirige... Esses lugares são ocupados, na maioria, por homens. E as mulheres indígenas têm ainda menos acesso a isso tudo, né? Então, na questão da formação, já é difícil para elas conseguirem participar, né, de muitas formas de formação (que seja por oficinas, que seja por trabalhos dentro da comunidade ou fora mesmo dos territórios). Elas têm mais dificuldade de participar, menos convites, menos propostas, né? Então, toda a cadeia do audiovisual é mais difícil para as mulheres. Quando elas têm crianças pequenas, né, também isso dificulta a saída delas dos territórios, seja para participar de uma formação, seja para participar da produção de um filme, ou seja para ir a um festival apresentar seus filmes, né? Tudo isso exige um cuidado diferente, diferenciado e maior com elas, e isso ainda não existe, né? Então, acho que em termos de desigualdade, é uma desigualdade como um todo das mulheres em relação ao audiovisual, mas dentro do mundo indígena também são as mulheres que têm menos acesso a recursos, a oportunidades, né? Então, a pesquisa e o mapeamento deixam muito claro.
Bom, eu gostaria também de saber quais são os grandes achados da pesquisa, o que você gostaria de destacar, minha amiga?
Para dar um exemplo dessas desigualdades ou dessas dificuldades, tem uma que é bastante evidente: é o acesso aos recursos, ao financiamento, né? Então, dada a dificuldade que as mulheres indígenas enfrentam, não identificam mesmo pra escrever um projeto para um edital devido à burocracia, devido à documentação exigida, à linguagem, enfim, com várias questões ligadas aos próprios editais tal como eles são apresentados, dificulta muito a participação das mulheres, né? Então, a gente tem aqui um dado, por exemplo: quando a gente pergunta "você já leu algum edital e desistiu de participar?", 71% das mulheres entrevistadas tiveram a experiência de desistir de participar. E quando a gente pergunta, né, o porquê, elas elencam, né: a burocracia, os requisitos de participação, linguagem... Enfim, todas essas questões que a gente observa em relação ao acesso a financiamento, né? E uma das questões que a gente levanta como uma luta, né, por políticas públicas é justamente que as cotas, tais como elas foram implementadas, elas não dão conta de suprir essa carência, essa dificuldade. A necessidade de que elas sejam feitas, né — esses editais, esses prêmios —, sejam feitos de forma a que as mulheres, né, numa linguagem e numa lógica que as mulheres indígenas consigam participar. Então essa é uma das questões importantes, porque sem financiamento não há filme, né? Então acho que é um bom exemplo.
Sem dúvida! Agora, para sabermos mais, atenção para quem estiver em Brasília, principalmente: bora lá junto com Mara Régia no Cine Brasília a partir das 2 horas da tarde, não é isso, Mari?
Ah, tem que ir lá no nosso lançamento! Nós vamos fazer uma breve apresentação dos conteúdos, que são bem interessantes. A publicação tá bem bonita, tem ilustrações de uma artista indígena, e nós vamos tá lá com as publicações em livro, né? E depois disso nós vamos disponibilizar via uma publicação digital.
Ai, que beleza! E eu vou estar a partir das 2 horas até às 4:30 lá no Cine Brasília, não no salão da mostra competitiva, mas sim no anexo, né, que é um auditório para 100 lugares, onde a gente vai assistir à apresentação de vocês e, ato contínuo, fazermos uma roda de perguntas. E, de novo, eu vou tá aqui querendo saber mais e mais, porque o nosso desconhecimento tem a dimensão da invisibilidade desse cinema nacional indígena que precisa ganhar telas, que precisa ganhar mundos! Parabéns, mulheres do Brasil, mulheres indígenas! Mari, que prazer conhecê-la, adorei, viu? Espero que o sucesso esteja aí na trilha das suas andanças, você que é diretora do Instituto Katūtu. Alô, alô, São Paulo! E também você, minha querida Larissa Tukano, fale um pouco do seu povo.
É, os povos Yepá Mahsã, conhecidos como povo Tukano, eles se localizam na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas. O Alto Rio Negro tem 23 povos indígenas; uma das etnias é a minha. Então tem Desana, Tariana, Kubeo, Yanomami, Arapaso... 23 povos.
Pois é! Só nessa pesquisa que vocês lançam hoje a partir das 14 horas, são 40 povos indígenas, 35 línguas — não é pouca coisa —, e 60 cineastas ouvidas. Parabéns pelo conjunto da obra, aplausos! Tudo de bom, viu?
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