
24/04/2026 às 09:01
Quando o assunto é desconstrução do machismo, grupos, cursos, rodas de conversa e campanhas tentam ajudar, engajando mais os homens no combate à violência contra a mulher e na construção de uma sociedade com mais igualdade.

Inclusive, está na Lei Maria da Penha: os agressores devem frequentar cursos de reeducação e de acompanhamento psicossocial. Mesmo que haja muita resistência por parte desses homens — como conta o psicólogo Flavio Urra, do programa “E agora José?”, que trabalha na reeducação de autores de agressão.
“Deles a resistência é maior ainda, porque eles se sentem injustiçados por estarem ali obrigados a participar do grupo por uma juíza, um juiz que colocou a pena dele para participar do grupo”.
São necessários 20 encontros de duas horas para que os homens comecem a perceber as mudanças. E ao fim do projeto, segundo Flávio Urra, é unânime a percepção deles de que se tornaram pessoas melhores.
“Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso que houve uma mudança ali. Se a gente for pensar que já passaram pra nós cerca de 2 mil homens e se a gente conseguir afetar de alguma forma afetar a vida desses 2 mil homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está tendo uma mudança na sociedade”.
Felipe Requião, que atua há 7 anos como facilitador de grupos de homens e consultor em empresas, conta que no mundo corporativo os homens também resistem aos treinamentos.
“Tem uma (resistência) que é muito recorrente que é a sensação de perda de espaço. Poxa, agora vão tirar espaço dos homens. Ou, agora eu não posso mais, não serei considerado para determinadas posições, promoções, etc”.
Felipe Requião ressalta a importância do envolvimento das lideranças na defesa das pautas de diversidade, inclusão e pertencimento. E que seja uma jornada contínua; não apenas uma palestra, aula ou roda de conversa. Segundo ele, os homens começam a se implicar no problema depois de três ou quatro encontros reflexivos.
Carlos Augusto Souza Carvalho levou para sua empresa de Engenharia a experiência que aprendeu em um grupo de homens.
“Ponho palestra para eles sobre masculinidade, e o que sai dessas reuniões é impressionante, é realmente enriquecedor. E a gente vê o quanto todos os homens, independente de classe social, condição financeira, posição no mundo, de opção sexual. O quanto todos têm para falar”.
Na educação dos jovens, um exemplo de prática positiva é o programa Maria da Penha Vai à Escola, que é realizado no Distrito Federal há 10 anos pelo TJDFT, Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Recentemente, se tornou uma das ações previstas no Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio envolvendo os Três Poderes.
Já o movimento global Laço Branco estabeleceu no Brasil o 6 de dezembro como Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.
A campanha promove ações o ano todo, como o projeto Homens de Honra, que forma multiplicadores. Segundo Patricia Zapponi, fundadora e diretora do Instituto Laço Branco Brasil, faz toda diferença quanto é o homem que fala sobre enfrentamento ao machismo em clubes, escolas e templos.
“Quando você leva o homem seja para uma escola, para um canteiro de obra, você muda o olhar. Então é um desafio, porque é um homem na prática, na grande maioria, ele é o agente da violência, mas ele passa a ser o agente do enfrentamento. Então ele tem mais voz para falar para o próprio ofensor para, que isso aqui está feio”.
Para Patricia Zapponi, o engajamento dos homens nos projetos é um dos destaques:
"Nosso número de voluntários homens é quase o dobro do número de voluntárias mulheres E olha que todos eles passam por uma severa inspeção no CPF deles, para a gente saber se não é nenhum ofensor querendo se chegar perto da questão”.
Na internet, existe um espaço terapêutico online e de graça, oferecido desde 2017 pelo psicólogo Alexandre Coimbra do Amaral. Ele diz que a melhora já começa quando os homens percebem que têm um espaço onde podem expor suas dores, ou apenas testemunhar conversas sobre machismo e masculinidades.
O terapeuta defende também que pais conversem sobre o assunto com outros pais, nos grupos de mensagens da escola. Para descobrir como eles agem quando os filhos passam do ponto e construir parâmetros comuns. Construir comunidade em torno do tema.
“Construir parâmetros comuns que vão para além da família, escutar a escola, perceber na escola um lugar possível para construir também essas pontes. Então acho que a formação de comunidade, que é uma coisa em baixa no nosso século, é fundamental para a gente produzir discursos que vão além da família. A comunidade é esse meio do caminho entre a família e as políticas públicas e a lei".
E a mensagem de conclusão desta reportagem fica por conta do engenheiro Carlos Augusto Carvalho:
"Espero que essas palavras cheguem a quem precisa ouvir, quem precisa se reconstruir ou se desconstruir".
De 20 a 25 de abril, a Rádio Nacional veicula, em cinco episódios, a série Machismo: como desconstruí-lo. Confira os episódios:
Educação familiar é essencial na redução do machismo e feminicídios
Escola, espaço de enfrentamento ao machismo e não de risco às meninas
Crescem discursos misóginos e machistas nas redes sociais
Legislação contra violência de gênero avança, mas crimes seguem altos
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