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Mulheres que não desejam ter filhos ainda sofrem com o preconceito

Rádio Agência

03/03/2026 às 11:34

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O desejo de ser mãe não é igual para todas as mulheres. Algumas sentem essa vontade desde ainda bem novas, muitas vezes motivadas pela família. Já outras, desenvolvem o sonho quando estão maduras e realizadas. Outras vezes, a gravidez ocorre de forma não planejada, e traz um mundo inteiramente diferente para a mulher. Mas e quando a opção é pela não maternidade?

De acordo com o Censo 2000, nas últimas duas décadas, quase dobrou a proporção de famílias formadas por casais sem filhos. Além de não quererem ser mães, muitas preferem também não casar, focando a atenção em outros aspectos da vida.

Mas a decisão muitas vezes gera polêmica. Cercada de tabus, a escolha por não ser mãe esbarra no preconceito. E por isso, o assunto tem sido cada vez mais discutido, em pesquisas e nos meios de comunicação.

Foi na leitura de um livro que a professora universitária Carla Bastos descobriu que não queria ser mãe.

“No mestrado, quando eu tinha 27 para 28 anos, eu comecei a participar de um clube do livro. E a gente começou a ler a Clarissa Pinkola Estés, aquele “Mulheres que correm com os lobos”. E a gente debatia capítulo por capítulo, e no capítulo sobre maternidade, o conto ele faz justamente essa pergunta para você, sobre essa avaliação, de onde é que vem esse desejo. E após parar e refletir sobre essa pergunta, eu vi que não era um desejo genuinamente meu”.

Carla conta ainda que percebeu que costumava pensar na maternidade desde criança, como uma forma de pertencimento social.

“Eu, como uma menina negra, no meio majoritariamente branco, né? Não era a principal escolha do sexo masculino, então tinha dificuldade de ter relacionamentos, isso baixava minha autoestima e eu achava que a solução de tudo, o sentir pertencimento, sentir sucesso, ter sucesso era ser mãe e casar, né?”

Para ela, o mais complicado não foi decidir, e sim encarar a reação de outras pessoas, especialmente da própria mãe.

“A decisão em si não foi difícil de ser tomada. Ela pareceu como uma grande verdade que eu apenas não conseguia enxergar. O difícil foi assumir essa decisão perante família. Por exemplo, minha mãe. Minha mãe é uma senhora idosa que já tem netos do outro filho, mas ela queria os meus netos. Ela queria o neto da filha mulher”.

Um fator que muitas vezes pesa na escolha de diversas mulheres sobre a maternidade é a dificuldade no acesso e no crescimento no mercado de trabalho. Estudos apontam que a decisão de contratar uma mulher ainda considera de forma negativa a maternidade, como explica a professora de Comportamento Organizacional e Liderança da UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Liliane Furtado.

“As pesquisas que investigam, por exemplo, esse tipo de tomada de decisão, conseguem depois identificar esses aspectos, por exemplo, mulher engravida, a mulher muitas vezes é responsável pelo cuidado dos filhos, e isso pode atrapalhar ali, na percepção dessas pessoas, dos tomadores de decisão Poderia atrapalhar no desempenho dela nas empresas. Isso acaba sendo, acaba aparecendo como justificativa, mas não é normalmente a justificativa que é trazida a priori, porque hoje já se entende socialmente que isso não está correto”.

Reconhecidos nacional e internacionalmente, os direitos reprodutivos garantem às mulheres a decisão, de forma livre e responsável, de ter ou não ter filhos, quantos filhos desejam ter e em que momento de suas vidas. Incluem ainda o direito a informações, meios, métodos e técnicas de reprodução e prevenção da gravidez, além do direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, imposição e violência.

*Com sonoplastia de Jailton Sodré e produção de Dayana Vitor.
 

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