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opinião

Que política, cara pálida?       por: Alexandre Lyra*

Há um fundamento do sistema democrático que é desprezado nas periferias ocidentais

Por Alexandre Lyra • Política

17/08/2026 às 14:53

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Imagem São as contradições sociais

São as contradições sociais ‧ Foto: Divulgação

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Ontem (16/08) foi aberta oficialmente a temporada de caça aos votos, e temos pela frente um curto período até as eleições, de disputa acirrada com regras, mas também com apelação de quinta categoria (fakes), especialmente agora que os meios virtuais entraram para (muitas vezes) decidir o jogo. Alguns falam em festa da democracia, porém festa é comemoração, e muitos não acham que tem o que comemorar dela. O que está errado?

Há um fundamento do sistema democrático que é desprezado nas periferias ocidentais, Brasil incluso, em grande parte devido à promoção de seu desgaste pelas experiências autoritárias locais. Me refiro ao exercício da política propriamente, que comumente é associado à uma prática menor, inferior, degradante, fazendo muitas pessoas preferirem se autodeclarar apolíticas. Uma pesquisa recente feita pela folha de São Paulo colocou uma informação que corrobora com esse comportamento, ao constatar que quase 80% dos entrevistados não se lembra em quem votou na última eleição para os cargos do legislativo (https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/06/29/datafolha-lembranca-voto-em-2022.ghtml). Se fossem mais envolvidas com a atividade política, acompanhariam mais as disputas e provavelmente lembrariam.

Inicialmente, é preciso ressaltar que numa sociedade moderna e democrática, todos são políticos, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente. A indiferença alegada por muitos é, em última instância, também uma posição política, a de acreditar que todos políticos são parecidos, vão se aproveitar do sistema, prolongar os mecanismos, as manobras, e não vai fazer diferença a manifestação de uma vontade insignificante, a sua. Acontece que é justamente esse pensamento que reelege mandatários e suas formas criticadas de legislar e administrar o Estado. São as contradições sociais: o sujeito acha que tem muita coisa errada, mas contribui para manter a situação porque foi convencido de sua impotência, da inutilidade, da subversão da organização política, ou porque é alienado e crê em promessas ocas contadas por políticos tradicionais de tradicionais famílias, que mantém seus privilégios. Essa ‘Escola’ continua reprovando alunos que repetem de ano seguidas vezes por não entender seu papel no processo, por terem sido expostos a longos processos de detração da atividade política, ainda dominantes nas periferias, onde golpes militares são acionados toda vez que há algum avanço nos movimentos sociais por uma sociedade... justamente mais democrática, política e economicamente.

De uma forma geral, as intervenções militares terminam bem avaliadas nas periferias devido a ações concretas tomadas pelos gestores e ao apoio decisivo de muita propaganda oficial, sem chance de críticas em razão da censura (https://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2011/resumos/R25-0835-1.pdf).  Há diferenças significativas, contudo, entre os dois últimos ciclos de governos militares no Brasil, o primeiro, comandado por Vargas, foi nacionalista e desenvolvimentista, tinha um projeto para o país e o modernizou significativamente, internalizando tecnologia. Já a segunda fase, entre 1964 e 1984, foi apenas desenvolvimentista, deixando um legado de estouro da dívida externa, dependência tecnológica do capital estrangeiro e arrocho salarial (há vários artigos demonstrando esses aspectos).

O saldo positivo das forças armadas nas periferias resultou numa valorização desproporcional dessas, para além de suas funções constitucionais previstas. Nesse processo, os movimentos sociais que buscaram melhorar o quadro socioeconômico, mesmo que dentro da perspectiva ocidental de mercado, foram demonizados e combatidos. Quando a democracia volta, os políticos tradicionais retornam, apoiados pelas forças econômicas conservadoras, com uma oposição enfraquecida (pois as organizações políticas alternativas, mais ou menos reformistas, foram desmanteladas), e assim, as virtudes do sistema democrático são depreciadas e seus vícios são ressaltados. O sentimento de impotência se instala e episódios frequentes de eliminação de ativistas de causas populares (Chico Mendes, Marielle Franco...) confirmam o risco de se meter em atividade política contestatória, fazendo boa parte da população ‘preferir’ evitar o envolvimento em causas mais populares.

Como consequência da depreciação acumulada do civismo, o que acaba predominando é o exercício precário da política na forma da politicagem, É a politicagem que dá vida longa ao fisiologismo, ao patrimonialismo e à corrupção inerente a essas formas anacrônicas de cooptação social. O cotidiano é cheio de maus exemplos que respaldam e reforçam as práticas predatórias dos eleitos, seguidas de muita impunidade. Novas gerações de politiqueiros renovam esses costumes, elaborando variações do discurso sem mudar nada em suas atuações conservadoras: as novas politicagens travestidas com roupas da moda, como liberalismos afoitos.

Temos alguns políticos sérios, mas a maioria de nossos representantes não são dessa estirpe, são politiqueiros, pessoas que se utilizam da atividade política para fazer politicagem, uma política mais rasteira, com manipulações diversas do eleitorado através de uma oratória interessante e conservadora, desviando de pontos importantes da discussão política, efetivamente transformadores, para manter a desigualdade socioeconômica. São grupos de mentalidade estreita que não concebem discutir um projeto de país para a população como um todo, porque para eles são suficientes os projetos pessoais e familiares, muito bem-sucedidos, às custas da marginalização da maioria da população.

A maioria da população entra nessa ciranda e acaba reproduzindo a politicagem, especialmente no âmbito legislativo, e assinando em baixo dos costumes eleitoreiros viciados. Na esfera executiva isso muda um pouco, pois sendo apenas uma pessoa que vai comandar a máquina governamental, há uma ilusão de que o poder se concentra ali, quando as câmaras legislativas são decisivas para a governabilidade. Trocar a politicagem por política consequente não é simples por envolver uma variável cultural enraizada e passa pelo interesse maior na escolha dos representantes para o legislativo. Para isso, é necessário politizar o dia a dia, entender como as relações sociais estão nas fundações da economia e, portanto, por meio da conscientização da participação de cada um na totalidade, gerar a possibilidade de viabilizar um modelo que englobe todos, e não apenas uma pequena elite da sociedade. Exemplo disso, entretanto, é fácil: basta ver os países ocidentais mais desenvolvidos.

Enfim, a politização, esse valor básico das democracias, segue sendo amaldiçoada, politiqueiros continuam a dominar o poder político e manter o status quo. É preciso discutir os problemas centrais, ouvir todos segmentos e interesses, colocar as propostas e perceber as proposições transformadoras e os respectivos históricos dos políticos por trás delas. Neste ano teremos mais uma oportunidade para trocar as propostas vazias e secundárias por pautas concretas, relevantes, que possam colocar o país em outro trilho e outro patamar frente ao contexto mundial no médio/longo prazo, ou seja, trocar a politicagem por politização, politiqueiros por políticos sérios para vislumbrar o país numa posição coerente com sua riqueza material e humana.

Na democracia não há saída fora da política, mas ela também comporta essas alternativas precárias, as politicagens. A busca por uma saída de qualidade é uma batalha dura. A organização política ameaça decolar no país, mas vem sendo em parte cooptada por grupos liberais que simpatizam com estruturas autoritárias. De novo as contradições do processo... embasadas na força da cultura arraigada. Outros com visão mais abrangente aparecem e crescem mais lentamente, mas consistentemente. Avanços podem vir na próxima eleição, certamente tímidos, mas, como disse, é processo de longo prazo, quem sabe lá na frente chegamos a um movimento mais substancial e uma sociedade mais desenvolvida social e economicamente.

 

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba

 

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