10/08/2026 às 16:22
Campanha Eleitoral ‧ Foto: Divulgação
Domingo retrasado (02/08) foram encerradas as convenções partidárias para definição dos candidatos à presidência, e no outro dia quem sintonizou a rede globo pela manhã soube que houve a reunião do PT confirmando Lula, e também, o encontro do partido missão, que indicou Renan Santos. É de se registrar que a emissora deu praticamente o mesmo tempo de cobertura às duas candidaturas, falando sobre o histórico de ambos, como se houvesse comparação. Um vai disputar a presidência pela sétima vez, depois do terceiro mandato como chefe do executivo nacional, o outro nunca disputou nada, e está num partido fundado no ano passado que tem 1 representante no congresso (contra vários do PT espalhados pela câmara e senado). Além disso também deu uma entrevista completa do indivíduo em seu canal de notícias 24h. É muito espaço.
O tempo destinado à cobertura da história de Lula mal deu para falar o básico do básico: origem, passagem por sindicato, pela câmara e pela presidência (poderia falar e discutir seu legado nas passagens pela presidência, o cargo em questão), já no caso do novato, sobrou tempo para falar da minúscula pauta reacionária sobre segurança pública, flertando com a ilegalidade ao afirmar que não cumprirá decisão ilegal (não cabe nem ao presidente discutir decisão judicial) e destacando ao final sua defesa da pena de morte. O extremista de direita vem do movimento Brasil livre (MBL), que tem desenvoltura no trânsito virtual, mas ainda é pouco conhecido fora de seu nicho eleitoral na realidade de carne e osso. A globo fez sua parte para furar essa bolha.
Sabe-se que o plano A da direita enfrenta dificuldades relevantes, talvez insuperáveis, daí porque muitos acham que os liberais locais eternamente insatisfeitos com o bom ambiente de negócios proporcionado pelo governo Lula, estão se preparando para pular para outro cavalo selado. A primeira aposta desse plano B seria Ronaldo Caiado, fundador da união democrática ruralista (UDR), mas esse parece (e é) político tradicional, apesar de suficientemente agressivo para defender os latifundiários, falta-lhe representatividade para defender a ruptura que os bolsonaristas cobram, de modo que não descola dos insignificantes pontos conquistados nas pesquisas até agora. Já Renan, o plano C que pode vir a ser B, toda vez que os institutos de pesquisa colocam seu nome entre os candidatos, mais alguns entrevistados optam por ele, como mostra seu crescimento contra Lula no segundo turno na pesquisa divulgada pela quaest em 05/08 (https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/08/05/quaest-2o-turno-lula-flavio-bolsonaro-agosto-2026.ghtml).
De alguma forma Renan (que não é o filho) é um novo Bolsonaro, só que mais autêntico, encarnando efetivamente a revolta liberal contra o sistema, que propõe mudanças radicais no sentido de liberar a economia e acabar com a impunidade e a criminalidade. E só, mas é bem mais articulado, e o discurso é consistente com as premissas. Sinal dos tempos. Pauta salvacionista para desesperado aglutinando Bukele e Milei, que cola em economias devastadas, como Argentina e Equador, para deixá-las ainda mais periféricas. O salvacionismo ainda tem eco aqui porque empacamos em políticas públicas reparatórias, que dão conta de amenizar o quadro social, mas a economia aderna, sem superar problemas crônicos históricos que produzem uma massa de sub-remunerados e desempregados. Principalmente jovens ávidos por oportunidades de trabalho.
Enquanto isso, o candidato do plano A fechou o parceiro de chapa, um provável plano F. Havia várias mulheres na fila antes dele, um deputado conservador do próprio partido (Alfredo Gaspar) pouco conhecido, com manchas (suspeitas e investigações) de corrupção e abuso no currículo, que pouco agrega e talvez até prejudique o time. No final, parece que não houve muita convicção na busca por uma vice, acreditam ter coisas mais importantes que a companhia feminina na chapa, o certo é que um pouco de news estratégicas (como a revelação de investigações do filho de Lula) já melhoram levemente seu desempenho nas pesquisas. Estão agonizantes, mas estão se mexendo.
Saindo do lado do campo enlameado, para o dos que jogam no campo democrático, a ex-esquerda e hoje centro progressista, o PT só tem um plano pessoal, Lula, e uma prioridade renovada, pequena de saída, mas significativa considerando o contexto da maré neoreacionária: manter a precária institucionalidade para preservar os princípios políticos e econômicos básicos da sociedade. Esse ainda parece mote suficiente, adiando propostas e ações efetivas que apontem mais parâmetros para o futuro. Por enquanto, o nome do presidente tem força suficiente para esse embate desigual, e ele tem ressaltado a necessidade de mais investimentos na defesa nacional para amparar a soberania frente aos desvarios imperiais da (ainda) maior potência global. Essa pauta restrita é arriscada quando a população espera mais, mas o outro lado também assume risco com podres e trapalhadas estourando de tempos em tempos. Ambos carregam riscos aparentemente insuperáveis. Os riscos que comportam.
A globo não é mais aquela do século passado, perdeu audiência para concorrentes e para a internet, mas ainda é um player na formação de parte da opinião pública, e, como tal, poderia usar seu tempo com mais responsabilidade, dando, pelo menos, tempo proporcional para as carreiras desses candidatos. Quando opta por igualar o tempo entre eles, joga luzes num extremista muito menos conhecido (radicais do outro lado não merecem espaço), dando oportunidade para sua mensagem pouco republicana chegar a mais pessoas. O episódio mostra quem é a globo, aquela que tem se esforçado para adotar uma pauta inclusiva, politicamente correta, moderna, acenado, ao mesmo tempo, para extremistas de direita com tendências autocráticas, que, via liberalismo acéfalo, só reforçam o poder do capital estrangeiro nas periferias, mudando para pior o quadro social. O que interessa é ficar bem com quem quer que venha, preferindo sempre liberais ou conservadores. Mesmo que o centrismo lulista seja ordeiro e a direita flerte com rompimento institucional.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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