20/07/2026 às 12:09
O problema é que o mercado contemporâneo tem disfarçado a condição trabalhadora ‧ Foto: Divulgação
O empreendedorismo é colocado pelas mídias no dia a dia como positivo para a economia, estimulando novos negócios a todo momento. A grande maioria dos países escolheu o mercado como forma econômica central para o funcionamento da atividade produtiva, colhendo os frutos e espinhos dessa árvore ambígua. Há quem defenda até a inserção do conteúdo ‘empreendedorismo’ nas escolas para despertar em todos a visão empresarial, porém, discordo dessa leitura, uma vez que a necessidade das pessoas é saber administrar sua renda, independe de que tipo for, salário ou lucro, o que remete à importância de conteúdo distinto: finanças pessoais ou economia doméstica. O problema é que o mercado contemporâneo tem disfarçado a condição trabalhadora por meio do fenômeno da pejotização (https://periodicos.ufrn.br/ambiente/article/view/24079/15851).
A sobrevivência de uma empresa no mercado depende de uma variável chave: geração de lucro. O desempenho empresarial depende de uma série de fatores que vão desde a habilidade dos vendedores (a começar pela do próprio dono), passando pela situação da economia (alguns negócios não suportam crises maiores), pela conjuntura internacional, entre outros, porém há ponto de partida fundamental para firmas nascentes resultado de iniciativas empreendedoras: o cálculo da viabilidade econômica.
Já foi a época em que a decisão de abrir uma empresa era algo pessoal e unilateral, compartilhado apenas com a família e amigos, ainda que alguns ainda insistam nesse modelo instintivo. A motivação da criação pode variar da necessidade a um insight, tecnológico ou de percepção de lacunas existentes no mercado, mas mesmo que a ideia seja inicialmente promissora em termos de perspectivas de ter/atender/criar uma demanda, é preciso cuidado com os rompantes e as paixões, pois o mercado é feroz, o risco é elemento sempre presente e pode fazer fracassar negócios, seja por jogo pesado da concorrência, por inaptidão em atingir o mercado, ou por superestimação da demanda. Todas são hipóteses que vão além da boa capacidade de administração cotidiana do proprietário.
A projeção de resultados com o funcionamento do negócio é muito importante para a decisão de dar o ponta pé de partida na jornada de administrar uma empresa, mas esse passo não tem merecido a devida atenção por algumas razões. Retirando a empáfia de alguns empreendedores muito confiantes que não fazem estudos preliminares, a maior parte sofre com a insuficiência do plano de negócios do SEBRAE ou com o custo mais elevado de um projeto de viabilidade econômica. Esses estudos são referenciais no Brasil para estimar a lucratividade de uma ideia de negócio em sua futura atividade, e devem ser considerados em suas virtudes e seus problemas.
As pequenas empresas são a clientela maior dos planos de negócios (https://bibliotecas.sebrae.com.br/chronus/ARQUIVOS_CHRONUS/bds/bds.nsf/5f6dba19baaf17a98b4763d4327bfb6c/$File/2021.pdf), documentos simplificados de estimativa de lucros que tendem ao estímulo excessivo dos negócios pela exclusão de variáveis importantes. Esses trabalhos pouco críticos consideram de maneira insuficiente as adversidades que podem ocorrer no mercado, relevando elementos-chave do plano macro para a viabilidade operacional das empresas (o enfoque é microeconômico), como especificidades setoriais ou sazonais, tendência de sustentabilidade da mercadoria no médio prazo (devido a inovações tecnológicas em especial), elementos da conjuntura econômica geral e específica do setor, local e mundialmente.
Os estudos de viabilidade econômica (https://www.senairs.org.br/sites/default/files/documents/manual_estudo_de_viabilidade_economica.pdf), por sua vez, são detalhados, diminuindo a abstração e aumentando a consideração de variáveis que podem interferir na vida da empresa, mas mesmo com a eliminação da seção relativa à atualização monetária (devido à redução expressiva da inflação pós estabilização 1994), ainda são trabalhosos e dispendiosos. Numa economia em que muitos negócios morrem nos primeiros anos de operação (estimativas são de 60% em 5 anos: https://www.cartacapital.com.br/do-micro-ao-macro/mortalidade-empresarial-de-60-em-cinco-anos-revela-falhas-de-gestao-e-planejamento/), torna-se muito recomendável a realização desses estudos. É frustrante ver negócios ‘patinando’ por anos, chegando a se consolidar no mercado, para depois fecharem.
É preciso dar mais atenção à sustentabilidade dos negócios, o que também significa pesar a concorrência desproporcional de empresas maiores em ramos onde antes predominavam negócios de menor monta, como as farmácias e supermercados, de redes locais, onde hoje há o domínio de redes nacionais ou internacionais. O estímulo responsável não é empurrar o inexperiente para o meio da selva da concorrência com palavras motivadoras e odes à livre iniciativa respaldado por cálculos simples de lucratividade, o mercado moderno é exigente (pela demanda e pelas regulamentações governamentais), complexo e frequentemente pouco competitivo. Se é para estimular novos negócios, o Estado deve ser parte interessada em sua sustentabilidade, tomando iniciativas como abrir um setor (na secretaria de planejamento) composto basicamente por economistas para realizar estudos de mercado realistas e oferecer acompanhamento nos primeiros anos para propostas de novos empreendimentos.
Esta é uma dimensão de projetos que precisa ser retomada. É preciso um maior planejamento econômico efetivo de médio-longo prazo para a economia brasileira retomar a trilha do desenvolvimento. Ao menos num primeiro momento, enquanto ainda estamos no estágio periférico, isto se faz necessário, saindo dessa condição pode-se discutir sua redução. Estamos desperdiçando recursos humanos com parâmetros educacionais frágeis e falta de encaminhamento adequado para o mercado de empresários e trabalhadores. É uma questão de eficiência de mercado que o governo pode contribuir significativamente.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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