16/03/2026 às 10:32
Desde a redemocratização as eleições nacionais têm sido muito disputadas ‧ Foto: reporterpb
A conjuntura política varia sem a previsibilidade das marés, mas tem seus maremotos. Ao menos enquanto as distancias da terra para a lua e o sol sejam as mesmas, sabemos a que horas a maré vai estar vazante ou enchente, já os humores da conjuntura política são mais difíceis de prever. Até pouco tempo o presidente tinha um panorama favorável, após o desgaste constante da principal vertente política opositora do país, a extrema direita, que culminou com a condenação e prisão do ex-presidente Bolsonaro. Além disso, Lula tempera bem seu feijão com arroz macroeconômico com políticas públicas que compõem pequenos avanços sociais que melhoram um pouco a condição de vida dos mais fragilizados e garantem alguma aprovação pública.
Até o agressivo presidente dos EUA, parecia estar sob controle depois de sua tentativa de tumultuar os mercados mundiais com aumentos de impostos de exportação. Passadas essas intempéries, no entanto, eis que a maré conjuntural começa a encher, acrescentando a possibilidade de temporais adiante. Interessante como tudo soma, mas alguns acontecimentos são de responsabilidade do próprio governo, ou de relacionados seus, como a homenagem de uma escola de samba ao presidente, que não precisava acontecer nesse momento, nem ter a presença do presidente (recaindo a sombra de campanha eleitoral antes do tempo, dinheiro gasto, etc.) e a suspeita do filho do presidente estar envolvido com negócios escusos com INSS. De outro lado, dificilmente irregularidades, flagrantes, e fragilidades, patentes, colam no adversário, como as rachadinhas ou a rede que circula o escândalo do banco Master.
Só esses eventos já foram suficientes para fazer crescer a intenção de voto nas pesquisas de seu adversário definido a relativamente pouco tempo. Antes insignificante nas consultas ao público, o filho de Bolsonaro foi crescendo aos poucos até empatar com Lula no segundo turno. Se fatos novos e significativos não ocorrerem, o cenário final, diga-se de passagem, provavelmente será muito parecido com esse, afinal, a sociedade brasileira tem-se mostrado dividida entre centro-esquerda e direita, sendo que ultimamente o primeiro se configura mais como centro democrático e o segundo como extrema direita. Terá o governo alguma carta na manga? Precisará mais do que uma isenção maior do imposto de renda...
No plano internacional o panorama começa a azedar muito para o governo por esses dias. A guerra dos EUA com Israel contra o Irã já começa a afetar os preços do petróleo, e o líder supremo da potência norte-americana está se encaminhando no sentido de declarar que as organizações que controlam o tráfico de drogas no país (CV e PCC) podem ser equiparadas a organizações terroristas, abrindo espaço para uma eventual, e inédita, invasão militar. Antecedentes mostram a capacidade do governo do momento nos EUA em cometer disparates e quebrar qualquer regra de direito internacional para exercer sua capacidade de subjugação, usando desculpas esfarrapadas (pois trata-se sempre de desrespeito à soberania nacional). Um enviado deles estava prestes a vir para, entre outras coisas, se encontrar com Bolsonaro na prisão, mas foi barrado (por visto negado). Com guerra ou sem guerra no oriente médio, o contexto não será bom, pois o encerramento do conflito desocuparia as forças armadas para ameaçar outras plagas e a continuação faria os preços do petróleo subir significativamente. O fato é que o pato resolveu tomar partido, e quando patos cismam de voar, quem fica em baixo que se safe.
Desde a redemocratização as eleições nacionais têm sido muito disputadas e assim continua com a chegada da extrema direita, que é um sinal de parte do eleitorado dizendo que perdeu a paciência com o mainstream, postergador incorrigível de mudanças que levem a uma realidade social melhor. O crescimento do neofascismo sempre resulta disso, pois uma desses tem intensificado a migração para países centrais, gerando os extremistas lá, e a outra reage internamente recorrendo a políticos que acenam contra o sistema, impulsionando a intolerância dentro das periferias. No Brasil redemocratizado, o povo primeiro deu uma chance ao PSDB, depois ao PT, e não se satisfez com os resultados, esperava mais. Como não adiantou acreditar nos cultos e bem formados ou nos trabalhadores organizados, assumiu o cinismo de neofascistas. Desses não há muito o que esperar, a não ser algum enfrentamento ao sistema, mesmo que esse gere uma administração pífia e consequências negativas para a maioria. Essas pessoas sabem que os culpados estão principalmente no legislativo (no grupo designado como ‘centrão’), mas seu desencanto os encaminha para respostas mais fáceis, que lhes levam à extrema direita e à condenação e punição radical das instituições, e não dos responsáveis históricos, de direita tradicional, que se alinham amigavelmente com os extremistas.
A política geralmente é muito dura, é uma guerra particular que não perdoa vacilos, algo que a esquerda faz com relativa frequência (a inaptidão para lidar com as redes é crônica). Não deveria envolver, entretanto, armas propriamente ditas, mas elas estão rondando, desde o fim do governo passado, que tentou articular um golpe de Estado. Agora a ameaça vem de fora, e só a ameaça já representa a entrada no jogo. Dias conturbados. Infelizmente ainda há muitas pessoas (extremistas) que preferem conturbar os processos sociais ao invés de se submeter às regras e jogar limpo. Desrespeitando regras qualquer um vence o jogo e perde a sociedade como um todo. Para completar, o juiz do próximo processo eleitoral, o presidente do supremo tribunal eleitoral em outubro, será um dos nomeados por Bolsonaro. Vai ser uma prova daquelas para a dita República federativa do Brasil. Tempestade quase perfeita, porque não existe perfeição...
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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