03/03/2026 às 07:57
A de ordem mais geral é: até que ponto o mainstream pode conter o neofascismo? ‧ Foto: divulgação
Novamente o executivo dos EUA resolveu atacar outro país, seguindo em sua opção de política externa bélica quando se trata de países menos desenvolvidos, ocidentais ou orientais. A vítima agora é o Irã, mas o motivo é basicamente o mesmo da última investida, riquezas econômicas, mas nas mídias vai o discurso para inglês ver de que o objetivo é a libertação política e social da população, ou seja, derrubada do regime fundamentalista islâmico para instalação de uma democracia moderna. Nem eles próprios são exemplo de democracia moderna, como podem querer propagar esse modelo?
As riquezas podem já estar sendo exploradas ou ainda estarem em estágio de exploração, com potencial futuro, mas sempre se trata de passar a uma condição de superioridade pela força para obter posteriormente resultados da produção aos menores preços possíveis. Na última ação militar, o presidente da Venezuela foi sequestrado, enquanto agora no Irã a operação matou o aiatolá Khamenei, líder maior do país, comandante, inclusive, das forças armadas. Algumas questões emergem após esses ataques, e o preço no petróleo não é a principal.
A de ordem mais geral é: até que ponto o mainstream pode conter o neofascismo? O mainstream é formado pelos principais grupos econômicos e políticos da sociedade, compondo a uma elite que está presente constantemente nos principais postos de comando dos setores público e privado, ou possui linha direta com esses, e assim, em alguma medida é decisiva para os rumos socioeconômicos dos países. O mainstream ao mesmo tempo reflete as variações políticas do momento e poda excessos, articula as forças para manter o status quo, o funcionamento corrente da sociedade e do mercado. Há vários exemplos históricos desses movimentos, como a acomodação do capital às gestões petistas, até o rompimento no segundo governo de Dilma, e as várias contenções colocadas ao governo Bolsonaro (principalmente no âmbito do congresso).
A atual administração norte-americana tem contornos fascistas claros. Trata-se de governo de extrema direita que simpatiza muito com a ideia da expansão territorial e econômica, e tem muita dificuldade em respeitar os marcos institucionais modernos, particularmente a lei, os processos judiciais e direito de defesa, optando frequentemente por impor sua sistemática para dar o encaminhamento que julga correto nas pendências sociais e econômicas diversas. Internamente, a forma como o ICE, o departamento policial específico para migrantes, atua, é uma mostra da truculência habitual prevista nas diretrizes governamentais para lidar com pessoas que definem como diferentes e não merecedoras de estar no território norte-americano. A violência e a intolerância são banalizadas e incorporadas ao cotidiano.
Na década de 1930 o mundo viu essa vertente política surgir em um país deteriorado pela guerra, que voltou a demonstrar poder econômico e especialmente bélico, pouco tempo depois. O nazifascismo só foi detido pela união de capitalistas e comunistas, decisivos para consolidar a derrota do projeto alemão. Esse consenso vigorou por décadas até o fim do século XX, quando a exposição ao liberalismo de forma hegemônica proporcionou o crescimento de fluxos migratórios nas nações desenvolvidas e permanência de níveis altos de pobreza nos países periféricos ocidentais, fazendo reascender o interesse de grupos sociais pelas ideias fascistas, e agora temos que voltar a lidar com esse problema sério que por algum tempo a humanidade tinha dado como resolvido. Porque algo tão pernicioso volta à tona? A resposta pode ser complexa, mas para simplificar, a capacidade de aprendizagem do ser humano não resiste à precarização das condições de vida e o forte argumento histórico é esquecido ou relegado em troca de explicações fáceis e até mesmo fugidias da realidade.
Tendo voltado as ideias fascistas, alguns grupos com essa inspiração têm conseguido até ingressar em governos de países importantes, contaminando o próprio mainstream econômico, que se encantou com a possibilidade de aumentar lucros, mesmo que para isso tivesse que ‘costear o alambrado’ e deixar fluir a xenofobia para evitar líderes moderados que dialogam demais e cedem a trabalhadores. Um evento, entretanto, é invadir a Venezuela, indefeso país sul-americano, outro é adentrar numa potência nuclear oriental que é o Irã. O oriente médio gravita em torno de um frágil equilíbrio e o Irã é uma das peças principais desse tabuleiro. É certo que foi precedida por outras investidas em vizinhos, que já proclamam apoio aos EUA em várias circunstâncias, mas é sempre perigoso apostar fichas na destruição e na ameaça quando o antagonista pode reagir só ou acompanhado por outros agentes solidários à justa causa da autonomia oriental, em geral, ou islâmica, especificamente.
É preocupante ver que o governo norte-americano, para uns, está passando dos limites e, para outros, já passou dos limites, mas resta esperar que o mainstream internacional, de países normalmente aliados aos EUA, atine para o problema e acione seus diplomatas para desarmar essa bomba, que pode ser relógio ou de efeito retardado. Até hoje as pessoas mais influentes nesses grupos têm conseguido agir e administrar essas situações limites, mas o crescimento da extrema direita é uma novidade perigosa que desafia o bom senso e coloca em risco a própria humanidade. É preciso parar de cultivar as ideias neofascistas para que possamos ter claro o amanhã.
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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