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A direita pode continuar dormindo sossegada​​ - por: Alexandre Lyra*

O desleixo em relação ao espaço aberto a adversários escorregadios já vem se manifestando em governos de centro/esquerda no país, como nos petistas, por exemplo

Por Alexandre Lyra • Política

24/02/2026 às 14:27

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Indicadores enconomicos ‧ Foto: divulgação

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Estava dentro de meu carro, me deslocando dentro da capital, quando, como de costume, liguei o rádio para ouvir algo chegando pelo ar. O aparelho estava sintonizado na emissora do governo do Estado, começava um noticiário e a apresentadora anunciava as manchetes. Entre os destaques citou uma entrevista, sobre indicadores econômicos do governo Lula, e o entrevistado, que me causou surpresa, pois era um simpatizante/colaborador do bolsonarismo. Devo estar desatualizado: teria o governo inclinado à direita? Sim, sei, mas nem tanto assim. O governo estadual ainda tem um perfil de centro democrático (sua porção esquerda anda bem reduzida) pelo qual deveria zelar, colocando alguns parâmetros nos seus meios de comunicação, entre os quais, um certamente seria não dar voz a indivíduos que tenham alguma relação comprovada com um campo antidemocrático, pois como sabemos, as democracias são corroídas por dentro na medida em que seus antagonistas se infiltram nas instituições. Então a presença daquela voz discrepante significa algo.

Uma coisa é a necessidade de composição com outros campos políticos no legislativo ou executivo para obter governabilidade, necessária numa democracia, outra é abrir espaço na sua mídia oficial para opositores que podem até ser diplomáticos ou técnicos em certas áreas e meios de comunicação, mas contribuem efetivamente com vertentes de autoritarismo, manifesto em intolerância política ou social. Não se trata de discussão moral, o caso é de apagão ou ingenuidade, em suma: desleixo. Ou foi falta de checagem acerca do histórico do entrevistado, particularmente no período do governo Bolsonaro, ou, conhecendo seu histórico, optaram por uma escolha meramente ‘técnica’. Vale lembrar que os conservadores autocratas já têm algo que a esquerda não tem: boa parte da mídia comercial a seu dispor. Ambas alternativas revelam falta de inteligência; estratégica ou política.

Dar voz ao campo oposto é até desejável, como acontecia na emissora tv cultura, do Estado de São Paulo. Tanto o antigo Roda viva, quanto os jornalísticos tinha participação plural, no tempo em que existia uma direita democrática, resultando em discussões produtivas, mas com as administrações recentes de inspiração extremista acabou a independência da área jornalística e progressivamente, os que discordavam uma linha das máximas de extrema direita passou a ser excluído. A imprensa e a comunicação destacam a moral dos governos, no campo ético existem algumas possibilidades de desleixo, mas como a esquerda tem maiores compromissos morais com a população, tem mais armadilhas a evitar.

Toda pessoa pública tem obrigação de ser reta, não se corromper e propor medidas para melhorar o convívio social, se não fazem isso enquanto congressista ou gestor, cometem crimes contra a administração pública. Os políticos e gestores de esquerda, no entanto, têm que ir além, não devem ser arrogantes, por exemplo, pois isso os coloca numa posição acima do povo e de desprezo desse. Esse, infelizmente, tem sido o traço de alguns homens e mulheres de esquerda que faz os eleitores desconfiarem deles. Me lembro do caso de um secretário de Estado na Paraíba, de governo progressista, que não fazia questão de esconder isso no dia a dia, embora nunca assumisse publicamente, circulando pelos corredores da secretaria com sua empáfia explícita. Deve ter empurrado alguns eleitores para a extrema direita. Já os simplesmente democratas, têm o compromisso mínimo de não se envolver com extremistas, seja de direita ou de esquerda... mas se envolvem. Exemplo disso é um portal local que se reivindica independente e democrático que sistematicamente tem contribuição de simpatizantes da extrema de direita. Essa é uma das estratégias históricas que a extrema direita usa constantemente: se infiltrar na mídia corrente.

O desleixo em relação ao espaço aberto a adversários escorregadios já vem se manifestando em governos de centro/esquerda no país, como nos petistas, por exemplo. O partido dos trabalhadores tem expandido suas alianças para garantir governabilidade no governo federal, e alguns desses políticos mesmo no governo continuam a prestigiar adversários. O atual governador conservador de São Paulo integrava o governo Dilma, que também tinha um time no banco central muito afinado com a elite do mercado financeiro. Erros crassos. Se é para entrar, que entre no time, trabalhe em equipe e defenda o governo e suas concepções, como fizeram os vices de Lula, e como não fez o vice de Dilma. É preciso saber escolher os parceiros, principalmente no meio político, onde muitos podem estar apenas esperando a oportunidade para lhe sabotar, especialmente se forem de campos opostos.

Não se trata de falta de quadros, sei que há muita gente competente de esquerda no meio político, nas universidades, em vários órgãos públicos ou no meio privado mesmo, portanto é uma opção por uma linha conciliatória demais que descaracteriza o governo, conferindo tons liberais e minimizando a porção trabalhadora. Essa timidez acaba reforçando os adversários liberais, sempre tão falantes e orgulhosos em seus discursos morais genéricos e clássicos sobre costumes. Não pode haver vergonha na defesa de suas bandeiras, senão é melhor aposentá-las.

O PSB do governador tem acatado em suas fileiras nomes definitivamente nada socialistas, num redirecionamento à direita que permite a esta avançar no processo de apropriação de uma nomenclatura que deveria ser cara ao ideal. Alkmin passou toda sua vida política abrigado num partido fundado como de centro esquerda (PSDB) e convertido em centro direita ao chegar à presidência com Fernando Henrique, mas depois preferiu ir para um PSB do que estar num partido que se ajoelhou à extrema direita. Se o PSDB falasse, talvez alertasse ao PSB: cuidado com esse caminho. A direita é mestra em se apoderar de nomes e siglas. No caso do progressistas (PP), um partido estritamente conservador, a posse do nome associado à modernidade, exatamente o contrário de sua essência, ocorreu desde a fundação.

A esquerda moderada tem dificuldade de sustentar suas propostas na contemporaneidade com o assédio dos conservadores liberais por todos os lados, e vai cedendo cargos, partidos e no fim até os anéis. Os dedos que sobram vão fundar outro partido, ‘autêntico’, para dar continuidade à sua titubeante sina. O PT resiste a esse processo, mas cede demais nas suas gestões, correndo o risco de se descaracterizar. Alguns analistas políticos já o definem com partido de centro. Falta clareza, propósito e um mínimo de inteligência, melhor ser mais afirmativo, senão os senhores da direita podem continuar dormindo sossegados na sombra de um dos terraços espaçosos de uma mansão qualquer.

* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.

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