
18/09/2026 às 07:30
Luiz Carlos começou no jogo na década de 1980, com as máquinas de videopôquer. Ainda quando o mundo não era digital.

"Saía do jogo 4, 5 horas da manhã, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava lá, jogando novamente".
A dependência de Luiz Carlos é a mesma de quem aposta online, como Rogério, Rodrigo e Carla:
"Eu jogava quando meus filhos estavam comigo. Eu perdi um relacionamento, uma esposa, por conta de jogo".
"É difícil perceber que precisamos de ajuda. Acontece geralmente quando já estamos no fundo do poço".
"Não entende que aquilo é uma doença. Você acha que, ah, eu jogo, mas eu paro quando eu quero. Mas não é assim".
Luiz Carlos está sem jogar há 15 anos. Carla está longe do vício há um ano e dois meses; Rogério, há um ano e um mês, enquanto Rodrigo, há seis meses. A abstinência foi conquistada graças aos Jogadores Anônimos.
Carla diz que a família é fundamental na busca por socorro. Ela acredita que há muitos casos em que o gatilho que leva ao jogo está dentro de casa.
"Às vezes não tá feliz no casamento, no trabalho, às vezes tá com algum problema e acaba virando tudo gatilho. Então, quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente tá passando, tudo fica mais fácil".
Para a psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, a família tem que agir no momento em que perceber o problema.
"Quando a família percebe esse conjunto - dinheiro, segredo, humor, isolamento - não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização, porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio".
O psiquiatra forense Hewdy Lobo destaca a permissividade familiar no controle do tempo de jogo de crianças e adolescentes como um dos fatores que pode levar ao vício. E cita outros.
"Aqueles que alguns familiares já tiverem desenvolvido esse tipo de dependência e especialmente aqueles que já possuem um histórico de adoecimento mental, como por exemplo transtornos ansiosos, depressivos, insônia, anorexia nervosa, bulimia nervosa. Porque é fator de risco para o desenvolvimento de um determinado adoecimento mental ter outro adoecimento não tratado".
Para a "advogada gamer" Luana Mendes, especialista em direito digital, desportivo e dos games, não é o relógio, mas o comportamento que determina a dependência.
"Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar um acompanhamento profissional".
É importante buscar o psicólogo, o psiquiatra ou os dois. Em alguns casos, é necessário o uso de medicamentos. Para Carla Xavier, muitas vezes é preciso ir além do fundo do poço para entender que é preciso de ajuda.
"Ela só vai se dar conta disso a hora que ela chegar no fundo do poço, cavar mais um pouquinho, e aí ela vai entender que sem a ajuda dos seus iguais, ela não vai conseguir sair dessa situação".
Longe do vício, Carla voltou a ser quem era antes de conhecer os jogos.
"Hoje eu voltei a ter minha autoconfiança, voltei a ter um trabalho digno, honesto, e a vida só tem me dado surpresas boas".
Graças ao Jogadores Anônimos, Luiz Carlos está sem jogar.
"O acolhimento é muito grande. Todo mundo te abraça, ninguém aponta um dedo para esses problemas. Porque quando você chega, você mesmo se acha um inútil. Um sem caráter, um sem vergonha, um mentiroso. E quando você chega lá dentro, você vê que todo mundo é igual".
O apoio gratuito está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece teleatendimento psicológico acessível pelo portal Meu SUS Digital, além de atendimento presencial em unidades básicas de saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs).
Você também pode buscar grupos de apoio como o Jogadores Anônimos, em reuniões presenciais ou online.
Existe também uma sala, uma irmandade paralela para familiares. E tem ainda o Centro de Valorização da Vida (CVV) no número 188.
E o recadinho final para quem está tentando se manter longe das apostas é da Carla Xavier:
"Desejo 24 horas de paz, seriedade e abstinência a todos".
Reportagem: Ana Lúcia Caldas
Edição: Paula de Castro
Produção: Luciene Cruz
Sonoplastia: Egberty Martins
Edição web: Sumaia Villela
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