
14/09/2026 às 07:30
Um em cada cinco jovens no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos de idade. Número que chega a 78% a partir de 12 anos. Os dados, de 2021, são do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e continuam atuais.

Um em cada cinco estudantes dos ensinos fundamental e médio no Brasil apostou em bets. É o que revela pesquisa da Frente Parlamentar de Mista de Educação. 9,5% deles fizeram a primeira aposta aos 11 anos.
As apostas começam mais cedo. E a busca por ajuda também.
"Chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos, com esse negócio das bets".
O depoimento é de Luiz Carlos, dos Jogadores Anônimos. Ele se mantém longe do vício e conta que começou nas máquinas de vídeo pôquer, quando ainda não existia celular.
"Graças a Deus eu não jogo hoje, porque se eu jogasse, eu estava perdido. Na minha época a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, hoje você carrega um cassino dentro do seu bolso".
Pesquisa do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) mostrou que canais voltados ao público infantil exploram a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais, como destaca o diretor do instituto, Tiago Braga.
"O ibict publicou um estudo em janeiro de 2025, que foi um estudo inclusive citado durante a CPI das Bets, que mostrava como influenciadores estavam utilizando ferramentas online do Facebook, do Twitter, do TikTok e principalmente do YouTube, para influenciar jovens e crianças a aprenderem a apostar online".
A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o jovem é mais vulnerável, pelo cérebro ainda estar em construção.
O núcleo ligado à sensação de prazer e à dopamina funciona em ritmo acelerado, enquanto as regiões que controlam os impulsos e avaliam riscos só terminam de amadurecer aos 20 e poucos anos.
"O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte".
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define Ludopatia como "Transtorno do Jogo" e o Gaming Disorder como "Transtorno de Jogos Eletrônicos". Os dois são listados na Classificação Internacional de Doenças (CID) como dependências comportamentais.
E quais os sinais que um comportamento recreativo passou a ser um transtorno? Com a palavra, o psiquiatra forense e diretor da Vida Mental Perícias, Hewdy Lobo.
"É quando a pessoa jovem, adulta, idoso passa a substituir tempos habitualmente utilizados para convívio familiar, trabalho, diversão, e outras demandas gerais da vida ficam prejudicadas para cada vez mais consumir jogos".
E esse prejuízo pode resultar em distúrbios do sono, inatividade física, isolamento, depressão, ansiedade e até ideação suicida.
Enquanto os jogos eletrônicos servem para entretenimento, cultura, arte e até competições em espaços organizados, como no caso do e-sports, as apostas online envolvem prêmios em dinheiro.
Na opinião da psicóloga Mariana Kehl, a fronteira entre os dois ainda não é nítida.
"Os jogos eletrônicos e as plataformas de apostas compartilham o mesmo esqueleto comportamental, que a psicologia conhece já há bastante tempo, que é um reforçamento de comportamento em razão variável. O que isso quer dizer? Quando a recompensa vem de forma imprevisível, o comportamento se torna extraordinariamente resistente à extinção".
Os jogos de azar e videogames se cruzam quando elementos de apostas e mecânicas baseadas puramente na sorte são inseridos em ambientes digitais de entretenimento, como no caso das loot boxes, caixa de recompensas pagas com conteúdo aleatório.
A especialista em direito digital Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, diz que os riscos são diferentes:
"Tanto os jogos quanto as bets podem utilizar estímulos visuais, recompensas, mecanismos de engajamento, ferramentas que deixam o jogador envolvido e exposto a condições de permanecer na tela por mais tempo do que gostaria. Mas na aposta existe um elemento adicional, muito mais relevante e muito mais perigoso, que é o risco financeiro inerente da própria atividade de apostar".
Na próxima reportagem: o endividamento. Quando apostar se torna um comportamento compulsivo.
Reportagem: Ana Lúcia Caldas
Edição: Paula de Castro
Produção: Luciene Cruz
Sonoplastia: Egberty Martins
Edição web: Sumaia Villela
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