
17/08/2026 às 08:51
Ô mãe, ô mãe, Bernadete de Oloxum pague, Orixá deu incumbência e é Obaluaê quem vai cobrar...

Por trás de qualquer pessoa que representa liderança e resistência, existe o lado que a história desconhece: o afeto de quem era dentro do próprio lar. Há três anos a violência voltou à família Pacífico, tirando a vida de Mãe Bernadete. O Quilombo Pitanga dos Palmares perdeu uma liderança. Mas, além de todas essas referências de força e legado, o filho dela, Jurandy Pacífico, destaca a perda da mãe.
Minha mãe não só era só minha mãe, era tudo para mim, para a família. Principalmente do ponto de vista emocional e afetivo. Sua ausência significa a perda de uma mãe, de uma avó, de uma amiga. É uma referência de união, de proteção, de orientação. Mesmo após sua morte, que dói no peito de todos nós até hoje, o seu carinho, seus ensinamentos, sua história e seu legado permanecem vivos na memória dos familiares e das novas gerações.
Enquanto algumas pessoas vivem o luto em silêncio, a realidade da família Pacífico é o oposto: para quem convive com a saudade de Maria Bernadete Pacífico, se calar não é uma opção. Jurandy não substituiu a dor, mas somou a ela a indignação e a vontade de fazer justiça pela mãe e pelo irmão.
A pós-morte de minha mãe, a família passou a enfrentar um período marcado pelo luto, pela busca por justiça e pela necessidade de reconstruir a vida sem suas principais referências. Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, que foi assassinado brutalmente no dia 19 de setembro de 2017 por buscar políticas públicas para as comunidades quilombolas da Bahia. E eu nunca pensei que ia passar por isso: no dia 17 de agosto de 2023, minha mãe também foi brutalmente assassinada. Alguns já foram condenados, mas a realidade da família após a morte fica sintetizada por três dimensões: luto, busca por justiça e reconstrução da família.
Em 17 de agosto de 2023, homens armados invadiram a casa de Mãe Bernadete, no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador. Renderam os netos da ialorixá e a executaram com mais de 20 tiros. Aos 72 anos, silenciaram a voz de Mãe Bernadete porque ela incomodava o tráfico e o interesse pelo território quilombola. A ialorixá também era coordenadora nacional da CONAQ, Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. A articuladora política e coordenadora do coletivo de mulheres da entidade, Selma Dealdina, era próxima a Mãe Bernadete, com quem frequentemente convivia.
Eu me me me me emociono muito para falar porque é uma falta que não é preenchida. Eu tô indo para lá agora para a missa de três anos. Toda vez que eu desço no aeroporto de Salvador, eu tenho a sensação que ao chegar em Pitanga de Palmares eu vou encontrar com ela com a mão na cintura, na varanda da casa dela esperando a gente, sempre com comida, sempre com abraço, com sorriso. Porque, apesar de toda a tristeza e amazelas do que a sociedade fez ela passar, ela tinha muita esperança e muito desejo de vida. Mãe Bernadete não desejava a morte, ela queria tá viva.
Em abril deste ano, a Justiça baiana deu o primeiro passo: dois dos executores de Mãe Bernadete foram condenados pelo júri popular. Outros três acusados seguem aguardando julgamento. Para o Quilombo Pitanga dos Palmares e ativistas de Direitos Humanos, ainda há muito o que se fazer. Nestes três anos de morte de uma liderança mulher e negra, o dia a dia da família se divide, conforme disse Jurandy Pacífico, entre luto, a busca por justiça e a tentativa de se reconstruir.
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