Sousa/PB -

Extras

Torcedor do Congo homenageia líder anticolonial na Copa

Rádio Agência

26/06/2026 às 07:41

Tamanho da Fonte

A Colômbia garantiu uma vaga na Copa do Mundo, após vencer a República Democrática do Congo na terça-feira, dia 23. E foi deste jogo que veio uma das imagens mais icônicas do mundial: a de um homem negro vestido de terno e gravata. Imóvel durante todo o jogo, ele ficou como uma estátua.

A performance é do torcedor congolês Michel Nkuka Mboladinga, encarna Patrice Lumumba, líder da independência e primeiro chefe de governo daquele país, após um longo domínio colonial da Bélgica, país europeu.

Defensor da soberania no Congo, ou seja, do direito de decidir sobre os rumos do próprio país, Lumumba foi deposto e assassinado com cumplicidade de autoridades da Bélgica e dos Estados Unidos, que não concordavam com o líder.

Inspirado nesse legado, o torcedor congolês leva para os estádios da Copa na América do Norte a mesma pose da estátua de Lumumba instalada em Kinshasa, a capital do país africano, como ocorreu no jogo contra a Colômbia, em Guadalajara, no México.

Antes, Michel Mboladinga tentou entrar nos Estados Unidos para ver a estreia do Congo na Copa, mas foi barrado por conta da epidemia de ebola no seu país de origem.

Sem o visto norte-americano, Mboladinga deve retornar a Kinshasa, onde vai assistir ao próximo jogo da seleção congolesa no sábado, dia 27, contra o Uzbequistão.

Mesmo ausente nos estádios, o torcedor já passou o seu recado ao rememorar o legado de Lumumba e representar a insurgência dos povos africanos. A avaliação é da coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, Maria do Carmo Rebouças, da Universidade Federal do Sul da Bahia.

"A trajetória de Lumumba expressa a luta ativa dos países africanos pela autodeterminação, pela soberania política, pelo controle dos próprios recursos e, consequentemente, pelo futuro. Então a performance Lumumba Vive, ela pode ser compreendida como um gesto simples que carrega todo o continente".

Para a professora Maria do Carmo, a performance de Lumumba é um gesto simples que carrega todo o continente e, por isso, o artista coleciona fãs.

"Acredito ainda que a performance de Mboladinga conseguiu ainda deslocar o futebol do campo do entretenimento para o da reflexão sobre o legado do passado colonial".

O ato ainda confronta movimentos que tentam apagar o histórico de lutas anticoloniais, segundo a professora, como ocorreu quando a Federação Internacional de Futebol, a Fifa, vetou a camisa da seleção do Haiti na Copa por causa de uma referência que o uniforme fazia à independência do país caribenho.

"Esse fã sustenta ainda uma imagem silenciosa, mas com grande peso: a de que o Congo não esqueceu, a de que a África não esqueceu e a de que a independência política, sem soberania econômica e no modo de pensar, é inconclusiva".

O professor de História da África da Universidade Federal Fluminense, Felipe Paiva, acrescenta que o torcedor congolês também referencializa outras histórias de luta anticolonial no continente africano ao lembrar Lumumba.

O pesquisador lembrou que vários líderes nacionalistas seguiram os passos do primeiro-ministro congolês, embora também tenham sido assassinados. É o caso de Thomas Sankara, em Burkina Faso, e Amílcar Cabral, em Cabo Verde, país que, inclusive, disputa sua primeira Copa em 2026.

"Qual a importância disso no contexto atual? Tá a importância de sempre, né? Lembrar que as independências africanas e o foram foram conquistadas a sangue, suor e lágrimas. E que ela teve os seus mártires, inclusive como outros processos de independência ao redor do mundo também tiveram seus mártires. E que essa essa importância da memória é fundamental".

Em referência ao cenário atual, no jogo contra a Colômbia, Mboladinga se moveu uma única vez, quando colocou um dedo na têmpora e a mão esquerda sobre a boca. O movimento fez alusão ao silêncio da comunidade internacional em relação à situação atual no país africano, de guerras e pilhagem de seus recursos naturais.

Lumumba foi o primeiro governante do Congo eleito democraticamente após a independência da Bélgica, em 1960. Por suas ideias, se tornou símbolo do pan-africanismo, movimento que defende a união dos povos africanos.

Para Lumumba, a riqueza do país em recursos naturais deveria ser gerenciada em favor dos congoleses. Após sua morte, no entanto, o Congo mergulhou em décadas de conflitos pelo controle da exploração de seus recursos minerais.

Até hoje, o país sofre com guerras internas em torno dessas riquezas, o que agrava crises como a do ebola e mantém a população na pobreza.

Mesmo o político defendendo a neutralidade na Guerra Fria, nos anos 60, ele foi assassinado, acusado de manter relações com a União Soviética. O corpo do líder anticolonial foi dissolvido em ácido, na tentativa de que não fosse reconhecido nem se tornasse um mártir.

Após pressão, em 2022, a Bélgica reconheceu a responsabilidade moral no crime e devolveu à família de Lumumba um dente com coroa de ouro.

O país europeu tem uma longa história de dominação no Congo, que data dos anos 1880, quando o Rei Leopoldo II governou o país como um feudo pessoal, assassinando e mutilando deliberadamente quem se opusesse ao enriquecimento da família real.

Pelos anos de dominação e pelos crimes, o país europeu, como reparação, deveria liderar uma agenda internacional que pusesse fim às guerras na ex-colônia, defendem os especialistas.

Por terem recebido um grande número de pessoas negras, Brasil e Estados Unidos também deveriam se juntar contra o legado da colonização em África, argumentam.

 

6:22

Continuar lendo ...
Ads 728x90

QR Code

Para ler no celular, basta apontar a câmera