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Viva Maria dá voz ao ativismo trans no 29 de janeiro

Rádio Agência

29/01/2026 às 06:11

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Oi, oi, gente amiga da diversidade! Mais do que nunca, neste 29 de janeiro, data nacional da Visibilidade Trans, nosso programa reafirma seu compromisso com a luta pelo fim dos preconceitos que excluem as pessoas por gênero, raça, etnia e outras tantas manifestações de ódio que se traduzem em transfobia!

E, para que melhor possamos dimensionar a importância desse dia, o Viva Maria conta com a participação de Ludymilla Santiago, mulher negra, publicitária, ativista histórica da luta pela visibilidade trans e integrante da articulação da Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA, tendo sido uma das fundadoras da entidade.

Na tarde de ontem, no auditório da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, ela marcou presença no 1º Trans Encontro, falando sobre movimento e mobilização social. Mas aqui, no nosso Viva Maria, Ludymilla Santiago reconta a história deste 29 de janeiro. Vamos ouvi-la!

“Primeiramente, a gente tem que colocar aqui o 29 de janeiro de 2026. Ele traz aí 22 anos de história, de luta, né? Do processo onde travestis e transexuais invadiram o Congresso Nacional. E aí eu acho muito importante a gente frisar que foi uma invasão, porque, de fato, mesmo com essa invasão, nossos direitos, nossas questões, nossas existências ainda não são consideradas por aquela casa.”

Pois é, e na sua fala você fez questão de frisar que esse Congresso que aí está não foi capaz de elaborar nem votar nenhuma legislação que atenda justamente às pessoas trans.

“Então, e aí por isso é importante a gente colocar esse critério, essa nomenclatura da invasão, porque isso prova que, de fato, de casa do povo, como muito bem é falado, não tem nada. Porque tem uma parcela da população que não é reconhecida. E aí, lógico, a gente está no 29 de janeiro falando sobre visibilidade trans, mas a gente sabe que ainda várias facetas da nossa população ficam descobertas por essa legislatura que está lá para representar essa sociedade e muitas vezes não representa.

Acaba adentrando esse espaço para apenas legislar pelos seus próprios direitos. Mas eu acho que, não só falando desse lugar, falando da potência que esse movimento tem, da espetacularidade que é a vivência das travestilidades e das transexualidades, a marcha que aconteceu agora, domingo, dia 25, organizada pela ANTRA e pelo IBRAT, com várias outras parcerias na organização, só nos mostra o quanto, de fato, enquanto movimento de travestis e transexuais, nós estamos organizadas, organizados e organizadas para pautar os nossos direitos.

E não necessariamente é por conta de um Congresso cafona, retrógrado, antigo, que não evolui. E não numa questão de falar de etarismo, porque não é esse o lugar. Mas a gente sabe que algumas cadeiras viraram patrimônios familiares, que sucessivamente se passam de pai para filho, de avô para neto, e assim vai. E acaba que a gente não adentra esses espaços para legislar pela nossa população. Mas hoje a gente conta com duas grandes parlamentares, que é a Erika Hilton e a Duda Salabert. E eu espero que nessa legislatura a gente consiga trazer mais outras, porque a gente tem potencialidade para isso, que homens trans, que as transmasculinidades também adentrem aquele espaço.

A gente não pode esquecer que todo ano a ANTRA lança um dossiê que versa sobre as violências sofridas por travestis e transexuais no Brasil. Então, esse ano a gente tem uma novidade e um avanço, que a gente entende que a violência diminuiu 34%. Isso é uma vitória, sim. A gente não pode deixar de festejar esse momento. Mas, mesmo com essa baixa de 34% da violência, o Brasil ainda é o primeiro país que mais mata travestis e transexuais. Então, a gente precisa fazer com que esse dossiê alcance a rua, que chegue nas massas, para que a população entenda que, se o Estado não está catalogando essas vítimas, o movimento social vem fazendo isso. E isso só prova que, se o Estado não categoriza isso, não faz essa catalogação, só mostra que ele não está, de fato, atento às nossas existências e às nossas vivências.”

Em que endereço a gente poderá acessar esse relatório?

“Então, o dossiê foi lançado dia 26, junto do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, pela Secretaria Nacional LGBT, junto com a ANTRA. Então, a gente esteve no Ministério, a ANTRA fez o lançamento desse dossiê, e aí todo mundo pode encontrar esse dossiê acessando a página da ANTRA. Tem os links lá, e você acessa não só o dossiê que traz a estatística de 2025, mas todos os outros 15, desde a sua primeira edição. E aproveitem também para conhecer mais sobre a instituição, os trabalhos que a instituição desenvolve Brasil afora, porque é justamente isso.

A gente, enquanto Estado, precisa entender que não são só os legisladores que fazem, é a nossa sociedade que faz esse país rodar. Enquanto movimento social, a gente está aí, e a gente está embrenhado em todos eles: no movimento feminista, no movimento da escala 6x1, no movimento do aborto. A gente está em todos os lugares, porque faz parte transversalizar todas essas pautas, porque é assim que a gente constrói uma sociedade melhor para todo mundo. Mais humana, mais feliz. A gente merece.”

Isso mesmo. Parabéns pelo conjunto da obra.

“Muito obrigada, muito obrigada, e contem conosco, contem com a ANTRA, que sempre que possível a gente está aí para dialogar e contribuir com essas discussões.”

Em sintonia com as palavras de Ludymilla Santiago, em nome da ANTRA, queremos ouvir Ruda Alves, 38 anos, homem trans, nordestino, advogado popular com atuação junto aos movimentos sociais, principalmente os movimentos LGBTs e os movimentos trans de lutas por direitos e feministas. Atualmente, ele é analista referência da pauta LGBT na Defensoria Pública do Distrito Federal.

Em sua palestra no 1º Trans Encontro, ele falou sobre as transparentalidades, direitos sexuais e reprodutivos de pessoas transmasculinas. E, em sua exposição, citou o feminismo como uma porta de entrada da sua identidade. Vamos saber de que forma isso aconteceu?

“Eu acredito que o feminismo libertou e liberta as pessoas transmasculinas. E aí, falando por mim, o feminismo, uma das principais lutas do feminismo é que pessoas que são assignadas enquanto mulheres ao nascer, elas têm a oportunidade, na vida, de ser aquilo que elas bem queiram. E o feminismo, nesse sentido, me libertou porque foi ele que me disse que, enquanto pessoa assignada enquanto mulher ao nascer, eu podia ser qualquer coisa, inclusive homem.”

Agora, nessa sua trajetória de vida, de estudos — até porque sua referência também tem tudo a ver com o seu doutorado, com a sua atuação junto à academia —, eu queria saber uma reflexão sobre a gestação. A gestação, por muito tempo, foi vista e compreendida tanto pela ciência como pelos diversos saberes como algo essencialmente das mulheres. Com o passar do tempo, nós percebemos que existem outras identidades que também gestam, entre elas as pessoas transmasculinas, que são homens trans, todas as pessoas com útero que são capazes de gestar ou de engravidar.

E aí, como lidar com a resistência, inclusive, de uma grande parte da medicina, que nem sempre recebe essas pessoas com a dignidade e o respeito devidos?

“Eu costumo dizer que a teoria não é nada frente à realidade dos nossos corpos. Nossos corpos existem, nossas identidades são legítimas, são corpos legítimos, são corpos que gestam, são corpos que menstruam, são corpos que necessitam desse tipo de cuidado. E, quanto a isso, não há como negar. É um fato da nossa vida, nós existimos. Então, é isso.”

Agora, a inclusão dessa temática nesse primeiro encontro — é o primeiro Trans Encontro que acontece aqui em Brasília e com o qual a gente comemora o 29 de janeiro —, qual a importância da data e, particularmente, a importância desse tema dentro do Trans Encontro, que é a transparentalidade, direitos sexuais e reprodutivos das pessoas trans?

“A visibilidade trans é fundamental para que nós, pessoas trans, consigamos chamar a atenção da sociedade e das instituições públicas para a falta de direitos e para esse não lugar, esse não ser das pessoas transgêneras na sociedade brasileira. No que diz respeito ao tema dos direitos sexuais e reprodutivos e às transparentalidades de pessoas transmasculinas, esse encontro inaugura, inclusive, esse debate aqui no Distrito Federal. E a própria inclusão, tanto das demandas de pessoas transmasculinas no debate sobre a visibilidade trans quanto a questão dos direitos sexuais e reprodutivos de pessoas transmasculinas no próprio feminismo, no próprio movimento feminista, junto a essa aliança por direitos, da qual fazem parte todas as mulheres, cis, trans e também as pessoas transmasculinas.”

Certo. E aí, uma avaliação final sobre as expectativas em relação a esse encontro. Como o Ruda acredita que ele haverá de se desdobrar?

“Eu espero que nós avancemos no que tange às políticas públicas para a população trans no Distrito Federal, principalmente.”

Estou a torcer por isso. Muitíssimo obrigada.

10:58

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