
07/05/2026 às 17:01


Após dois anos do desastre, os pesquisadores mapearam eventos gatilho, identificaram as condições inseguras, as causas raiz e as pressões dinâmicas em um diagnóstico da cadeia de produção de risco.
O estudo Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul foi desenvolvido pelo World Resources Institute Brasil (WRI) com a participação de pesquisadores de universidades gaúchas.
“Buscamos entender as fragilidades que culminaram nesse desastre e propor uma discussão sobre as decisões e políticas que vão prevenir desastres futuros e promover um desenvolvimento resiliente”, explica Henrique Evers, um dos autores do estudo.
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De acordo com a coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, Lara Caccia, o estudo dimensionou o desastre que teve como gatilho o extremo climático, mas foi resultante de um processo histórico de construção do risco, a partir de fatores sociais, econômicos e de governança.
“Esses fatores amplificaram os impactos das chuvas intensas”, explica.
Foram classificadas em quatro categorias, as 11 causas raiz, que se relacionam com as 20 pressões dinâmicas, gerando condições inseguras para o desastre, que associadas amplificaram o risco e a vulnerabilidade.
Confira as causas raiz nas quatro categorias:
Desenvolvimento urbano e rural
- Modelo de ocupação territorial pouco resiliente
Condições físicas e ambientais
- Variabilidade do clima
- Condições geomorfológicas e hidrológicas favoráveis ao desastre
Condições socioeconômicas
- Negacionismo climático
- Desigualdade socioeconômica e concentração de riqueza
- Falta de cultura de prevenção
Governança
- Modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais
- Arcabouço legal negligenciado para gestão de riscos
- Falta de priorização política da agenda socioambiental
- Insuficiência da governança para lidar com a questão climática entre os níveis de gestão
- Dualidade entre público e privado
Na prática, uma causa raiz como modelo de ocupação territorial pouco resiliente gera pressões dinâmicas como expansão urbana descontrolada, especulação imobiliária ou desigualdades socioespaciais, por exemplo.
“Esses fatores, comuns a outros cenários de desastres climáticos, destacam, sobretudo, o papel das decisões humanas e institucionais em gerar e disseminar socialmente o risco ao longo do tempo”, destaca o relatório.
Para os pesquisadores, o fato de muitos desses riscos estarem presentes em todos os municípios afetados, reforça a necessidade de articulação e integração multirregional além das capacidades municipais, com a atuação de instâncias que podem, por exemplo, ser associadas às bacias hidrográficas.
A partir desse mapeamento, os pesquisadores concluíram que para tornar cidades mais resilientes é preciso ir além dos investimentos em infraestrutura, sendo necessário o fortalecimento da governança em diferentes níveis de governo, articulação e integração do planejamento, consolidação de uma cultura de prevenção e a priorização de grupos vulnerabilizados.
“Se o risco foi construído historicamente, a resiliência também pode ser construída por meio de novas escolhas de desenvolvimento”, avalia Lara Caccia.
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