
20/04/2026 às 10:01
É comum se identificar com o relato da médica dermatologista, Paula Sian, que viveu uma relação abusiva com a ex-chefe e sentiu os impactos diretos de um ambiente de trabalho tóxico na própria saúde.

“Ela era uma pessoa que gritava, ela era uma pessoa que humilhava, ela era uma pessoa que diminuía, que só reclamava e nunca era clara nas demandas dela. Vai lá e faz. Dois dias antes ao ataque de pânico, eu cheguei para ela e perguntei: ‘você tem noção que tá todo mundo chorando na frente do computador?’ Tava todo mundo na pandemia, trabalhando de casa e a a gente se reunia durante os dias e tava todo mundo chorando na frente do computador, todo mundo com insônia, todo mundo fazendo terapia, muita gente tomando remédio para dormir, porque não conseguia lidar com ela”.
Ela também relata os efeitos do estresse prolongado, causado pela pressão e pelo assédio no dia-a-dia profissional.
“As coisas já estavam acontecendo. Então, eu já tinha insônia, dor de cabeça, o coração disparava do nada. Eu suava mesmo em repouso, em grande quantidade. Muita gastrite, muito esquecimento, a memória não funcionava. O ataque de pânico foi a cereja do bolo. Isso aconteceu num domingo de manhã, só de pensar em ouvir a voz da minha chefe na segunda-feira, às 8 horas da manhã”.
Casos como esse têm se tornado cada vez mais frequentes. Dados do Ministério da Previdência Social e do INSS mostram que, em 2025, quase meio milhão de afastamentos do trabalho foram registrados por transtornos mentais, principalmente ansiedade e depressão.
Entre os quadros mais comuns está a Síndrome de Burnout, marcada por esgotamento físico, emocional e mental, além de irritabilidade, queda de rendimento, lapsos de memória e sensação constante de incapacidade.
Esse cenário ampliou o debate sobre a saúde mental no ambiente de trabalho. Em maio de 2025, o governo atualizou a Norma Regulamentadora número 1, que trata da segurança e saúde no trabalho, para incluir, de forma obrigatória, a avaliação de riscos emocionais e psicossociais nas empresas. As novas regras entram em vigor em maio deste ano.
A especialista em psicologia organizacional, Daniele Caetano, explica o que muda na prática para empregadores e trabalhadores.
“A empresa vai precisar identificar situações que causam estresse, adoecimento emocional e conflitos no dia a dia. Por exemplo, excesso de cobranças, metas irreais, lideranças despreparadas e ambiente tóxico. Além disso, a empresa precisa criar ações para prevenir esses problemas como: treinamentos, orientação para líderes e programa de saúde mental”.
Mais do que cumprir a legislação, cuidar da saúde emocional dos funcionários impacta diretamente a produtividade. Dados da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho apontam que cerca de 12 bilhões de dias úteis são perdidos todos os anos, no mundo, por causa da ansiedade e da depressão, um prejuízo estimado em 1 trilhão de dólares.
Para Daniele Caetano, o recado é claro.
“Empresas que não cuidam disso acabam tendo mais afastamentos, mais demissões mais processos e menos produtividade. Ou seja, ignorar essa mudança sai muito mais caro depois”.
Em casos de sintomas de estresse, esgotamento físico, mental ou emocional, a orientação é buscar atendimento médico e apoio de profissionais da saúde mental.
*Com supervisão de Aline Cordeiro
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