
28/04/2026 às 08:05
Oito em cada 10 mulheres muçulmanas que vivem no Brasil já foram vítimas de preconceitos. O uso do véu é o estopim para o início das ofensas e, a partir daí, a vulnerabilidade só aumenta, incluindo perseguições, constrangimentos, agressões verbais e físicas, revistas abusivas e dificuldade para conseguir um emprego.

Estes são resultados iniciais do terceiro relatório sobre islamofobia no Brasil, coordenado pela antropóloga Francirosy Campos Barbosa, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, a Universidade de São Paulo.
A pesquisadora lamentou que os dados desta nova edição não tenham diferença em relação às outras duas publicações, de 2022 e 2023. Segundo ela, não houve avanço no enfrentamento à violência contra muçulmanos no país e as principais queixas continuam as mesmas: agressões, dificuldade em lidar com a família e a os ataques da Igreja Evangélica, apontados como os mais recorrentes.
O recorte de gênero é a novidade desta pesquisa, que contou com a participação de 328 muçulmanas, em questionários e relatos anônimos. 92,2% delas acreditam que são alvos de discriminação, enquanto 80,4% afirmam já ter sofrido preconceito.
Apesar da gravidade e da frequência dos episódios, a maioria das vítimas não busca apoio institucional nem formaliza denúncias. A subnotificação é um dos pontos críticos identificados no relatório.
De acordo com Francirosy, isso ocorre porque elas consideram que a denúncia não vai resultar em resposta positiva e também porque a maioria das violências acontece em espaço público, muitas vezes difícil de provar...
"Acho que o mais importante é a gente ter essa consciência desse enfrentamento, o reconhecimento que não dá mais para excluir a comunidade muçulmana do debate de modo geral, religioso, e que a gente precisa de fato se comprometer enquanto sociedade para que as meninas que usam lenço se sintam bem em qualquer lugar, não se sintam como se fosse uma ameaça. A islamofobia vem do medo. O medo do desconhecido, então que as pessoas possam visitar as mesquitas, as mesquitas estão sempre abertas, não tem segurança... Então eu acredito muito nos processos pedagógicos".
O conjunto dos dados e depoimentos aponta para um padrão consistente, de que a islamofobia no Brasil se manifesta de forma difusa, atravessando relações familiares, espaços públicos e instituições, e tende a permanecer invisível diante da baixa procura por mecanismos formais de denúncia.
A socióloga e doutoranda da USP, Mariana dos Santos tem a mesma opinião, enfatizando que o preconceito acontece de maneira oculta, porque o país não se reconhece como islamofóbico. A pesquisa de Mariana é sobre as interações entre muçulmanos e não muçulmanos no Brasil e os processos de violência a que são submetidos.
"A islamofobia que existe no Brasil não é tão evidente quanto a islamofobia europeia. Mas, recentemente tem se notado padrões de islamofobia no Brasil crescentes que são muito similares àqueles que acontecem na Europa há muito tempo. Por exemplo, o mito da islamização tem sido um discurso muito frequente entre algumas pessoas, porque faz sentido com essa intolerância brasileira que existe, mas que as pessoas não reconhecem como tal. Então, essa não percepção de que o brasileiro é intolerante, de que o brasileiro discrimina, de que o brasileiro é racista, acaba abrindo espaço para que esse tipo de violência cresça sem que as pessoas falem sobre isso".
A coleta de dados ocorreu de janeiro a março de 2026 em todo país, com maior participação de muçulmanas que vivem nas regiões Sul e Sudeste. O relatório completo será divulgado em junho.
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