Toda rotina é guiada por referências, os parâmetros nos orientam pela vida afora. Desde o ato de acordar, a primeira hora guia do dia, passando pelos compromissos até anoitecer, adotamos pontos cardeais diversos para que as coisas tomem o rumo adequado. As normas sociais nos dão os nortes da convivência com os outros, como devemos nos portar em situações diferentes, e a economia é cheia de lestes e oestes para quem se aventura no universo da atividade produtiva.
Todos sabem da importância dos preços para a dinâmica econômica, possivelmente esses são os principais parâmetros para a tomada de decisões dos consumidores e ofertantes. Sempre que vamos ao mercado ou ao supermercado usamos centenas de preços guardados na memória para nos ajudar na tarefa básica de maximizar a nossa renda limitada (mais para uns e menos para outros). Não é à toa que eles são o principal alvo da política monetária, que tem outros objetivos subsidiários. Cabe ao banco central zelar, com seus instrumentos, pela estabilidade dos preços e evitar movimentos de elevação de preços, para isso foi criado o sistema de metas de inflação, um sistema eficiente de controle e monitoração do processo inflacionário que não está isento de críticas. O importante é saber que, como qualquer instrumento de política monetária, está a serviço de uma concepção de gestão, que pode ser desenvolvimentista ou mais liberal, e o problema é que na maior parte do mundo o comando dos bancos centrais tem relações muito próximas com o capital financeiro, uma das partes interessadas do mercado, que sempre defende maiores remunerações do capital de papel; o juro.
Cada um deve fazer sua parte, e nós, nas gôndolas, nos concentramos na comparação e verificação dos preços, observando se estão parecidos com o que temos na mente, e é aí que outra referência muitas vezes nos escapa e é manipulada por produtores espertos driblam o bom senso e embolsam uma diferença monetária sem, necessariamente, mexer no preço. Trata-se da unidade de medida ou peso da mercadoria. É uma deturpação silenciosa que foi iniciada na época em que o país sofria com a superinflação, mas que voltou a ser praticada nos tempos recentes graças à gana constante dos fabricantes, tentando encontrar meios para aumentar o lucro num cenário de relativa concorrência e estabilidade macroeconômica.
Vários fabricantes entraram nesse jogo escuso, diminuindo mercadorias e seu peso, mas geralmente sem alterar a estética da embalagem ligeiramente menor, num movimento sub-reptício para o consumidor não perceber que estava levando menos pelo mesmo preço, ou, eventualmente, até por mais. Biscoitos, tijolos ficaram menores, e até medidas consagradas vão pelo ralo no processo, como o tradicional galão (3,6 litros). Comenos um tantinho menos, construímos paredes mais finas e são poucas as fábricas que mantém a unidade real do galão, embora os 3 litros e uns quebrados vendidos sejam semelhantes ao galão, e assim vamos perdendo um pouco mais de nosso curto poder de compra.
Esse tipo de ação pode ser alvo de regulamentação, mas como está no limite do que é definido como economia de mercado, por enquanto não foi objeto de normatização. Os liberais vão dizer que cabe ao consumidor ficar atento, e de fato deve, mas o que pode o consumidor fazer quando esse movimento é generalizado? Mudar para marcas mais baratas e perder qualidade. Constatar que a pequena inflação residual existente continua a pressionar os fabricantes para ações desse tipo. Patamares em torno de 4, 5, 7% a.a. são baixos, mas em poucos anos o acumulado pode chegar a 50%. A inflação anual de países desenvolvidos gira em torno de 1 a 2%, níveis que ajudam na manutenção dos parâmetros.
No curto prazo poderíamos pensar numa legislação mais dura para mudanças de peso e quantidade das mercadorias, mas no longo prazo temos que pensar nas origens do problema e procurar reverter a condição periférica, estimulando a indústria nacional, diminuindo a taxa de juros, melhorando a infraestrutura, etc. Só assim a inflação cairá a patamares insignificantes e não precisaremos mais ficar prestando atenção ao peso da embalagem, afinal quem engorda ou emagrece somos nós e não uma garrafa de suco, um desinfetante, ou uma lata de tinta...
* Professor titular do departamento de economia da Universidade federal da Paraíba.