A floresta, o voto e o nosso futuro
Lembro-me bem de quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Poucos dias depois, a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau sofreu uma invasão violenta. Mais de 200 pessoas entraram no território, atirando em direção à placa da Funai e à aldeia, ameaçando os indígenas e afirmando que aquelas terras agora pertenciam a eles porque Bolsonaro era o presidente.
Para nós, povos indígenas, aquele episódio foi um sinal assustador do que estava por vir.
E veio.
Durante a pandemia, meu povo, paiter suruí, foi um dos mais afetados. Perdi minhas duas avós e meu tio, pessoas que talvez ainda estivessem aqui se tivessem tido a oportunidade de receber a vacina a tempo. Essas perdas deixaram marcas profundas em nossas famílias e em nossa comunidade. A pandemia também evidenciou o impacto de decisões políticas, da negligência e da falta de proteção adequada aos povos indígenas.
Naquele mesmo período, a violência contra nossos territórios se intensificou. Havia não apenas uma omissão governamental em relação às invasões mas um incentivo, por meio do discurso. Ari, líder indígena do povo uru-eu-wau-wau, foi assassinado por atuar na proteção da floresta e no monitoramento do território. Enquanto indígenas arriscavam a própria vida para defender suas terras, o governo adotava um discurso contrário à demarcação e enfraquecia políticas fundamentais para a proteção ambiental.
A floresta também sentiu as consequências. O avanço do desmatamento, as queimadas, as ameaças aos territórios e a pressão do garimpo revelaram o que acontece quando a proteção ambiental deixa de ser prioridade. Quando um governo enfraquece os mecanismos de fiscalização e abre espaço para a exploração indiscriminada, não é apenas a floresta que está em risco. São também as águas, a biodiversidade, o clima e a vida de milhões de pessoas.
A escolha de quem ocupará a Presidência não é apenas uma disputa entre candidatos ou partidos. É uma decisão sobre quais políticas serão fortalecidas, quais direitos serão respeitados e que futuro será possível para as próximas gerações.
As ameaças representadas por projetos políticos que defendem o enfraquecimento da legislação ambiental, a expansão do garimpo e o ataque aos direitos territoriais indígenas não podem ser tratadas como questões secundárias. Precisamos olhar com atenção para os discursos e as propostas de quem pretende governar o país.
Nós, povos indígenas, sabemos que as consequências dessas escolhas não ficam restritas a Brasília. Elas chegam às nossas aldeias, ameaçam nossos parentes, colocam em risco nossos territórios e comprometem o futuro da floresta. Defender os povos indígenas é também defender o equilíbrio ambiental e a possibilidade de vida para todos.
O voto é uma escolha sobre o futuro. E não podemos permitir que a floresta, os direitos indígenas e a vida sejam colocados em segundo plano. Porque, quando a floresta cai, nossos territórios são invadidos e nossos direitos são ameaçados. E assim o futuro do país todo também está em jogo.
Leia mais (10/23/2026 - 23h40)
Deseja ler o conteúdo completo na íntegra?
Acesse a matéria original diretamente na fonte parceira: Folha Uol.