NOSTALGIA BOA!.. À Ianara Pinto

Existem vários tipos de nostalgia. A mais inebriante é a nostalgia boa que "é aquela que em algum momento bom, lembramos daquele passado, sentimos as mesmas sensações e aromas"

Existem vários tipos de nostalgia. A mais inebriante é a nostalgia boa que "é aquela que em algum momento bom, lembramos daquele passado, sentimos as mesmas sensações e aromas".

- Lembrar do passado, anestésico e inodoro, perecendo o momento, é tão importante quanto usar perfume para entrar na banheira e não possuir palavras para definir uma nostalgia ruim..." É isto que chamamos de nostalgia boa.

Hoje, deitado em meu terraço, sem ao menos esperar,  num é que me chega de relance uma brisa que, devagarzinho,  vai penetrando no meu ser e, sem qualquer esforço aparente, concluo que se trata de um bom sentimento nostálgico.

Parei à leitura, como um raio a concentração partiu, fechei o livro e, fiquei a meditar, com o olhar fixo no infinito horizonte do mar de Manaira.

Notei que só o azul das poucas ondas,   penetrava na minha consciência tentando decifrar com a curiosidade característica do mar os meus sentimentos.

Lá pras tantas é que cheguei à conclusão, que a minha nostalgia, veio com um substrato de sentimento bom, mas adocicado de melancolia e de muitas saudades.

Concluí: isto é saudade e daquela que vai me fazer muito bem!..

Saudades da minha infância, das minhas inesquecíveis peraltices, do meu tempo de boêmia, dos namoros nas esquinas da vida, dos mestres queridos, das férias em Boaventura, das meus tios(as) queridos(as), dos primos e primas, da minha irmã Corrinha que também já se foi e, a maior de todas, do Velho Duca e de Dona Naninha, aqueles que construíram o ninho pra me agasalhar e me deram exemplos de caráter, honradez e muito amor no coração.

Viajei  no tempo em busca daquilo que fiz de bom e, também, das coisas erradas que cometi. No somatório da minha consciência deu empate. Uma compensa a outra e estamos quites.


Daí passei a divagar e vim mais perto do tempo, da minha saida de Sousa no início dos anos 70 em busca da capital.


Aqui, cheguei com muita esperança e desejo de vencer,  na expectativa de dias melhores e em busca de um trabalho que me permitisse me manter e também estudar.

Cheguei com a cara e a coragem e poucos trocados nos bolsos. Sacrifícios enfrentei mas, nunca me veio à mente, o sentimento de desistência.

Para tanto contei com o beneplácito de alguns amigos, entre os quais o estimado de saudosa memória Paulo Marques de Sousa, ou melhor, Paulo de Zuca Gordo, que ao me ver sem ter aonde morar me deu comida e dormida por um bom período. A ele, todo o meu sentimento de eterna gratidão.

A Eilzo Matos,  que numa manhã de terça-feira, e sem poder  me dar um emprego público  - era brigado de sangue à fogo com o governo da época- me deu um anzol com linha e uma boa isca.

Com uma edição do dia do Jornal A União, ele me mostrou o anúncio pra vagas de novos repórteres. Olhou carrancudo pro meu lado e sentenciou: taí, agora, só depende de você.  Vá fazer o teste e aproveite esta oportunidade.

Na saida do seu gabinete ainda ouvi o seu sarcasmo desaforado:

"Não existe outra, viu?"

Fui direto pra A União, na época, a reportagem funcionava em cima de um Cartório na Visconde de Pelotas, onde fui recebido pelos mestres Frutuoso Chaves e Barreto Neto.


Frutuoso preparou a "pauta" e manda-me fazer uma reportagem de 36 linhas por 72 toques, a respeito das condições de abate no Matadouro Público, lá pras bandas onde hoje funciona o Distrito Mecânico.


Fui, fiz a matéria e às 5 horas da manhã, fui esperar o jornal no Ponto de Cem Réis. Para minha surpresa estava lá na primeira página com uma bela chamada feita por Frutuoso direcionando o leitor para a página interna onde o meu texto havia sido publicado com assinatura e ilustrado com belas fotos do fotógrafo Zé Bezerra.

Foi assim que consegui o meu primeiro emprego em João Pessoa. E ele veio  com o pomposo prenome de jornalista, apesar de não passar de um jovem, inexperiente e inexpressível "Foca".

*Se a nostalgia, a boa retornar, conto mais.


E tem, viu?

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