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Unicamp atinge 50% de alunos oriundos de escola pública; debate racial permanece

Estudantes oriundos de escolas públicas representam, pela primeira vez, metade dos matriculados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Estudantes oriundos de escolas públicas representam, pela primeira vez, metade dos matriculados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No vestibular de 2017, o percentual chegou a 50,3% dos aprovados, de um total de 3.248 ingressantes. A instituição adota um sistema de bonificação para alunos da rede pública por meio do Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social (Paais). A reitoria comemora ter atingido a meta de inclusão prevista para esse ano, mas grupos da universidade defensores do sistema de cotas destacam que a medida ainda não é suficiente.

O coordenador-executivo da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), Edmundo Capelas de Oliveira, aponta que a mudança no Paais com a inclusão do bônus de pontuação desde a primeira fase (antes era computado apenas na segunda) contribuiu para o resultado. “Uma das vantagens do programa é que ele permite ajustes, sempre que necessário”, disse. Segundo o coordenador, a comissão produz simulações e estudos para subsidiar as discussões no Conselho Universitário, órgão máximo da Unicamp responsável por definir as políticas de acesso.

Para o professor Mário Medeiros, do Departamento de Sociologia, o resultado representa um avanço, pois cumpre um aspecto da função social da universidade pública, “mas não contempla plenamente no que diz respeito à entrada de estudantes pretos, pardos e indígenas”. Ele destaca ainda que é preciso entender de quais escolas os alunos são oriundos. “Há uma crítica ao processo do Paais de que ele atende um perfil específico de escolas públicas [técnicas e militares], que são conhecidos como colégios de elite [entre os da rede pública]”, avaliou o professor, que integra o grupo de trabalho sobre cotas criado pela reitoria.

De acordo com Oliveira, o percentual de pretos, pardos e indígenas está próximo da meta de 35% entre as vagas reservadas para alunos de escolas públicas. O patamar deste ano ficou em 32,4%, um leve recuo em relação ao ano passado, quando o índice ficou em 33,9%. “É importante ressaltar que, em alguns cursos, simplesmente não há demanda”, declarou. Este é um dos pontos criticados pela Frente Pró-cotas da Unicamp, formada por estudantes. Segundo comunicado do grupo, ao considerar o percentual de 35% das vagas já reservadas no Paais, a universidade estaria destinando 17,5% para este segmento. “É a metade da proporção das populações negra e indígena do estado”.

Debate

O grupo de trabalho sobre cotas criado pela reitoria promoveu audiências públicas no ano passado e apresentou relatório em que indica a necessidade de adoção de ações afirmativas na universidade. O texto mantém aspectos do Paais, mas propõe a reserva de vagas para estudantes pretos e pardos com percentual de 18,6% das vagas disputadas por estudantes de escolas públicas e o mesmo percentual da ampla concorrência, totalizando 37,2% das vagas para negros. Para indígenas, a proposta é reservar duas vagas em todos os cursos e por turno, em um vestibular próprio.

O indicativo é que os departamentos discutam a proposta para uma decisão na reunião do Conselho Universitário no final de maio.

Pós-graduação

O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), do qual o Departamento de Sociologia faz parte, foi pioneiro na universidade em adotar o sistema de cotas na pós-graduação. Medeiros destaca que a experiência tem sido avaliada de forma muito positiva. “Entraram novos projetos de pesquisa na pós-graduação, com temas que não costumavam frequentar ou que há algum tempo não apareciam”, apontou. Além disso, ampliou-se o número de alunos de outros estados. “Houve uma renovação de uma agenda de pesquisa que é absolutamente importante para o desenvolvimento científico”, acrescentou.

O professor disse ainda que a iniciativa impulsionou outros departamentos a fazerem esse debate. “Há um movimento geral na sociedade e um movimento crescente no interior da universidade para que haja debate e eventualmente implementação da reserva de vagas para negros e indígenas, visando o aumento da diversidade e a complexificação da visão de mundo científico”, apontou. Como exemplo de que o debate tem avançado, ele lembrou da aprovação da reserva de vagas para negros e indígenas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), uma das mais tradicionais do país, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu).


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