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"Justiceiro": produção da Netflix com a Marvel expõe "nervo" dos EUA

Plataforma de streaming liberou ao Notícias Ao Minuto os episódios, que estreiam nesta sexta-feira (17)

"Justiceiro" é como um nervo exposto dos Estados Unidos. O personagem criado como o antagonista da HQ de número 129 de “O Espetacular Homem-Aranha”, em 1974, e agora adaptado pela Netflix, tem contornos reais demais para um país que contabiliza 53.328 incidentes com armas. Os números são relativos apenas a 2017, conforme registro da organização sem fins lucrativos Gun Violence Archive.

A sexta produção da parceria Marvel/Netflix, cujos 13 primeiros episódios ficarão disponíveis a partir desta sexta-feira (17), teve a divulgação atrasada em outubro, após o ataque a tiros que deixou 58 mortos em Las Vegas. A plataforma de streaming decidiu, à época, que não era “o momento apropriado” para lançar “Justiceiro” e cancelou, entre outras, a participação na New York Comic Con.

Ao contrário dos outros “heróis urbanos” da editora de Stan Lee, o fuzileiro naval Frank Castle não foi vítima de nenhum acidente químico, como Demolidor ou Jessica Jones, nem de um experimento, como Luke Cage, muito menos da conquista do chi, como Punho de Ferro. Totalmente fora da órbita de um herói, o Justiceiro é um superatirador com código de honra próprio e que se recusa a abandonar a culpa, o luto ou a sede de vingança por ter tido a família assassinada. “Felicidade é um chute nos testículos à espera de acontecer”, apregoa em um dos diálogos.

Além da mira, da habilidade em combate e em táticas de infiltração e guerrilha, Castle é empoderado, nos episódios liberados com antecedência pela Netflix ao Notícias Ao Minuto, por Jon Bernthal. O ator sabe a dimensão do personagem, e parece não sair dele. Ao entrar em um hotel na Argentina, em março de 2016, para a primeira conversa com a imprensa latina sobre o papel, estava sisudo, concentrado, e lembrou que muitos soldados norte-americanos pintavam a caveira que é símbolo do personagem nos próprios equipamentos de combate.

Naquela época, o veterano de guerra que matava mafiosos era apenas um convidado especial da segunda temporada de “Demolidor”. A repercussão à chegada do personagem foi tamanha que Castle ganhou série própria. “Achei que a caracterização foi incrível”, elogia o showrunner da série, Steve Lightfoot. A atuação orgânica e realista de Bernthal confere camadas ao personagem que os predecessores do cinema não conseguiram.

O roteiro de Lightfoot é amarrado e fluido e apresenta Castle exatamente após “Demolidor”, quando cobrou com sangue a vida dos que mataram a mulher e os dois filhos dele. Tecnicamente, as sequências de ação continuam com ritmo de cinema; as cenas de luta são muito bem coreografadas por Thom Williams, coordenador de dublês. Como nas outras séries da Marvel, um time de diretores se revezam nos episódios de tons escuros e frios, dentre eles, os premiados Andy Goddard e Dearbhla Walsh.

Em um dos mais violentos quadrinhos da Marvel, adaptado pela Netflix com classificação indicativa de 18 anos, a trilha sonora também é marcante. Clássicos como “Buffalo Blues,” de Neneh Cherry (“País, sou apenas um estranho para você/um número”), ou ainda “Ain´t That a Kick in the head", na voz de Frank Sinatra, pontuam cenas em que Castle acaba coberto em sangue.

No périplo de vingança, esbarra em agências como Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, a CIA, o FBI. Completam o elenco, Ebon Moss-Bachrach, como David Linus Lieberman, persona de Micro, parceiro importado das tirinhas. Ben Barnes também tem um papel de destaque. É Billy Russo, amigo que serviu ao lado de Castle no Afeganistão e agora ganha a vida como dono de uma empresa de segurança. Amber Rose Revah é agente com passado também em campo de batalha, assim como Jason R. Moore.

Enquanto decide o quão longe está disposto a ir na missão à qual se impôs, Castle encara o quão longe já foi no passado. Como em “Wish It Was True”, hit de The White Buffalo, ouvido em uma cena que faz jus aos quadrinhos: “Pátria, fui um soldado por você/Fiz o que você me pediu/Foi errado, e você sabia”.


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